terça-feira, 1 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

ABASTECIMENTO EM SAURIMO

Os componentes oriundos da Gabela, do Esquadrão 297, passaram a ter em mãos todo o controlo logístico do novo Esquadrão eventual 350, que se formara do Batalhão com o mesmo número para servir na Lunda Norte.
A fraca mentalidade de muitos elementos do novo esquadrão, era uma fatalidade notada, tornando-se visível o facto de os respectivos comandantes na origem, terem optado por enviar novatos ou tudo o que era material humano menos qualificado, o que tinha de ser entendido como lógico.
Como o sargento que iria coordenar o sector da alimentação teria a ido embora, porque pendia sobre ele uma acusação de peculato, a ser julgada no Tribunal Militar de Luanda, por interferência do Sargento Pinedo, também ido da Gabela, sem mostrar pretensões a qualquer distinção, a reestruturação foi levada a efeito, com a dignidade que muito devia agradar ao Capitão Alves Ribeiro, se tivesse ocasião de observar o feito, conhecida como era a sua estrutura moral.
Onofre tomou o lugar do sargento coordenador do rancho, que já ia proscrito; o cabo que seguira do esquadrão do comando, com a especialidade de escriturário, foi substituído pelo Soeiro; para a cantina a nomeação recaiu no Paulo; na enfermaria um maqueiro; na cozinha, um soldado: na padaria também dois militares, tudo do 297, em lugares de importância para a manutenção da força.
Todos estes postos passaram a funcionar em pleno, mesmo muito afastados mostravam as virtualidades do agrupamento donde eram originários, o Esquadrão 297.
Depois da reestruturação, a vinte e um de Agosto de 1963, juntara-se nas instalações que iriam servir de quartel na vila da Portugália um grupo a deslocar-se a Henrique de Carvalho (Saurimo), com uma camioneta GMC, composto por um sargento, responsável pelo rancho de uma companhia de Infantaria, um cabo com as mesmas funções, num pelotão de Artilharia e o recente nomeado Onofre, equivalente no esquadrão eventual, além do condutor.
Quiocas pescando num pego do rio Licoco

A viagem vai ser contada, porque se tratou do que pode ser visto como uma odisseia, daquelas que as guerras podem proporcionar, em inóspitas regiões como foi o caso.
Saiu-se às cinco horas da manhã, com tudo a correr bem, até que às onze e trinta, hora em que se deu uma avaria, na única viatura que seguia, cuja foi remediada no meio de uma tórrida temperatura.
A seguir foi retomado o caminho com o atravessamento, pela ponte de madeira, que servia de passagem sobre um estreito rio, seguiu-se de imediato uma ravina, onde a viatura voltou a avariar.
Uma questão, e os meios para a resolver?
Ali estavam os quatro elementos, que compunham a expedição de braços cruzados!...
A única coisa que se podia fazer, era olhar com deslumbramento a linda paisagem. Estava-se no planalto da Lunda, terra desabitada em todo o horizonte visual, a muitos quilómetros do aquartelamento, sem qualquer meio de transmissão, que numa situação de guerra do século XX, seria da maior conveniência.
O chefe da expedição, que naturalmente tinha de ser o sargento, como era chegada a hora do almoço e em virtude de se estar à beira de um rio com água potável, um bem essencial, a primeira reacção foi a de se tratar da alimentação.
Uma fogueira, panela com bom bacalhau, batatas, couves e os necessários acompanhamentos, com todos os ingrediente, saiu uma lauta refeição verdadeiramente campestre.
Só depois se equacionou, profundamente, a precária situação!
- Falou o sargento, mostrando-se muito calmo e ponderado, mostrando experiência vivencial, além do posto mais elevado, a sua naturalidade era visível, também porque mais velho por ser um dos que tinham sido novamente chamados às fileiras, em razão do problema de África.
Pelo exposto, as suas palavras foram bem aceites, mesmo depois de ter dado a palavra a todos.
Sentenciou que o grupo podia estar ali, como média, três dias até que passasse alguém, em viatura para se deslocar em busca de socorro.
O assunto ficou por ali, havendo a certificação de que para o espaço de tempo havia alimentos suficientes, ou não se tratasse de uma embaixada constituída por responsáveis pelos ranchos de agrupamentos militares.
Onofre, como se vivesse uma situação normal, preparou-se sem constrangimento, pois avistava-se um imenso comprimento do rio, de águas cristalinas, a banhar o terreno, o mesmo que se mostrava, atravessando uma paisagem extremamente bela.
Chegou, entretanto, a noite e todos se preparam para a passar, dormindo debaixo da GMC.
Naquele cenário deslumbrante, onde os ruídos surgidos da floresta eram como uma música celestial, a dormida daquele vinte de Agosto de 1963, acabou por ser balsâmica.

Daniel Costa

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