quinta-feira, 3 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

PLANALTO DA LUNDA

Acordou-se no dia seguinte, com o nascer do astro rei, após o que atravessaram o caminho dois indígenas armados de "Canhangulo" (continuavam as espingardas improvisadas).
Mal sabiam articular algumas palavras em português, mas fizeram-se entender, tanto mais que, se tinha aprendido várias expressões de quioco, a língua nativa da vasta região, o que deu para entender o que articulavam.
""Mata" (senhor), arma servir para matar tigres", depressa se eclipsaram selva fora. Tão meteoricamente como apareceram, deixando finalmente todos apreensivos, pois nunca se tinha pensado em animais ferozes, naquele outro mundo onde a luxuriante vegetação esconderia um reino animal de temível.

Ensaios de danças nativas, na Aldeia do Museu do Dundo
 
Passou uma manhã e chegada a hora, preparou-se o almoço. A panela, a fogueira, na margem do rio. De novo os providenciais mantimentos: bacalhau, batatas, couves, cenouras, nabos, azeite, vinagre e alhos.
Depois da confecção estava a passar o que se esperava:
- Um chefe de posto, um mulato no Jeep que lhe estava distribuído, já que ocupava um lugar na pirâmide daquela estrura colonial, controlando toda a população nativa da zona de Xa-Cassau, onde estava instalado.
Distava cerca de trinta quilómetros do ponto em que ficara imobilizado o núcleo militar em deslocação de serviço.
Aquele elemento estatal prontificou-se a prestar a assistência necessária, até que, por volta das dez horas da noite já se tinha atingido as instalações do seu posto.
Devido ao avanço do dia e a uma maior proximidade do destino, a cidade capital da Lunda, aproveitando a hospitalidade oferecida, jantou-se e dormiu-se em Xá-Cassau nas suas instalações.
No dia seguinte estava-se a tratar-se dos abastecimentos, que os levara à cidade, dado que não se conseguiu resolver tudo no mesmo dia, acabou por se pernoitar num destacamento da Intendência Militar local, equipamento ideado para abastecer toda a tropa estacionada na região.
Veio o dia vinte e quatro do mês de Agosto, às catorze horas, já com todos os abastecimentos possíveis deu-se o regresso.
Faltavam as cervejas "Cuca” destinadas à cantina. Com o tempo de comissão completo, rumo a Luanda, com destino ao barco que os levaria de volta ao "puto", na versão local.
Dava para perceber uma invasão de Angolares, por cada iminente passagem à peluda, pois era normal o pagamento de “ajudas de custo aos militares”, em fim de comissão, com o natural regresso.
Além de ser o primeiro passar naquela povoação, de regresso à metrópole, a euforia era tal, que cerca de seiscentos militares, detentores de avultadas somas de dinheiro jamais detidas por muitos. Numa cidade pequena, era lógico o esgotamento de produtos aprazíveis e de consumo imediato, existentes em qualquer cantina da tropa.
Às dezasseis horas, nova avaria na GMC. A tipologia daqueles pesados carros que, cedidos ao exército de Portugal, depois de terem servido os Aliados na Segunda Grande Guerra, que tinha devastado a Europa, havia cerca de vinte anos, estava muito ultrapassada.
No entanto a equipa em que se integrava o Onofre, fez chegar o carro ao seguro posto de Xá-Cassau, que se tornara circunstancialmente referência estratégica.
Voltou a pernoitar-se nas instalações do respectivo chefe, mais uma vez a demonstrar grande simpatia, com o oferecimento de uma churrascada africana. Desta vez, retribuída com algumas "Cucas", das que se puderam trazer da cidade, onde em cada dez pessoas, com quem se cruzava, nove eram fardadas.
A vinte e cinco, com a pesada viatura a reboque, de uma outra, fazendo parte das duas que, de Henrique de Carvalho, haviam chegado entretanto, em socorro.
Chegou-se ao rio já referenciado que, ficava sensivelmente a meio caminho do Dundo, onde com receita igual às anteriores descritas, se procedeu ao ritual da refeição do meio-dia.
Tudo isto era passado por Onofre, em jeito de bonomia, o pior seria o estado de inveja que poderia trazer a algum adepto do campismo, com o dom da ubiquidade de puder observar a bucólica cena.
Pelas oito da tarde, a GMC mesmo a reboque, teve outro acidente, contou apenas de uma mola partida e mais um atraso.
Às nove horas, chegou-se enfim, ao aquartelamento de Artilharia, perto do Dundo, deixando na origem um dos cabos que integrava a expedição. Ali se processou ao que seria o último jantar do grupo.
Deixando também o sargento, o Onofre pôde dormir na tranquilidade do seu alojamento nas instalações provisórias, próximo do Luachimo.

Daniel Costa


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