terça-feira, 8 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

SUBLEVAÇÃO E "CACHIPEMBA"

Tropa instalada nas Províncias Ultramarinas, a partir de 1961, tinha sempre por missão de reprimir os focos de sublevação porventura existentes, enquanto ia ocupando o terreno, com o fim de evitar futuras infiltrações.
No destacamento da Portugália, não podia haver diferença, a ocupação tinha também o objectivo de procurar o controlo da região pela via militar.
Um posto de vigilância na fronteira do Congo, que ficaria a cerca de oito quilómetros da vila, era ininterruptamente ocupada por soldados do esquadrão eventual 350, com substituição diária.
Havia sempre um Jeepão e duas praças, que se rendiam no serviço, para as refeições serem levadas e tomadas ali em tempo oportuno.
O serviço militar ao aeroporto da Portugália, dedicado à Companhia dos Diamantes, sedeada na cidade do Dundo, relativamente próxima, era também assegurado por aquele esquadrão.
A missão visível mais importante, era consubstanciada, por visitas a várias fazendas e bairros quiocos, onde foram encontrados alambiques, destinados à fabricação duma droga líquida, a que se dava o nome de "cachipemba".
Dizia-se que a viciação, começava por definhar os consumidores estes, por falta de qualquer assistência médica, morriam pela certa.
Tornava-se evidente a necessidade da destruição de tais estruturas e o aprisionamento dos "industriais".
Podia ser vista assim a organização militar:
- Em campanha, um Batalhão comandado por um Tenente-Coronel, estruturado como uma cidade onde, uma vez que se compunha de todo o tipo de estruturas inerentes, com materiais de toda a ordem, desde medicamentos, comestíveis, geradores eléctricos, muitos combustíveis, como gasolinas, óleos, materiais de reparação, desportivos e outros.
Esquadrão, bateria ou companhia, comandados por um Capitão, eram por norma desdobramentos daquele, não eram tão completos, mas tinham grande poder autonómico.
Naquele esquadrão, o Onofre coordenava um núcleo saliente na organização.
Com o encargo dos géneros, juntavam-se muitas outras tarefas quase diariamente, como a da provisão de carnes.
Pose de humor

No fim de cada jantar elaborava a ementa para o dia seguinte, tendo em vista a essencial criação, dado o gosto para trabalhar em equipa, ouvia outros, como o soldado que se encarregava da cozinha ou o sargento a fazer parte, com a missão de escriturar os gastos, porém a tarefa que dizia respeito a todo o aprovisionamento para o rancho, era mesmo inerência de quem liderava o depósito da alimentação das praças.
É chegada a altura de se afirmar, que a alimentação era irrepreensível, o que sem dúvida, se devia à muita dedicação de Onofre e à boa colaboração do soldado cozinheiro que, ido também do Esquadrão 297, era conselheiro de excelência.
Ficam dois exemplos dessa interacção:
- Dias da inevitável dobrada dobrada era esquecida a regra que a "alta" organização militar tinha instituído, da porção destinada a cada homem, reduziam-se as doses, para se poderem aumentar, quando se tratasse de outras ementas, mais apetecíveis.
Vinho que, de servido apenas um copo, cada qual passou a poder servir-se do que desejasse, sendo que o gasto era menor, em virtude dos que preferiam regar a refeição com cerveja (era necessário comprar), deixavam de levar a dose da bebida que lhes cabia, para oferecer a um amigo. Afinal ele podia ir buscar mais!...
Refira-se que o trabalho do cabo Onofre e consequentemente, o do rancho não era nada facilitado, funcionando muitas vezes na base de simpatia e da humildade inspirada por este, em virtude do comando nunca ter tomado a iniciativa de, todas as manhãs, manter disponível uma viatura para as deslocações ao Dundo, onde era necessário levantar, sem sobressaltos, carne fresca para ser trabalhada a tempo da confecção dos almoços da tropa.
Era notório um maior privilégio individual dos oficiais do que a atenção devida ao colectivo, por isso mesmo menosprezado por certos motoristas escudando-se, sempre que convinha, no serviço do superior, para se escusarem ao trabalho da deslocação.
Algumas manhãs, chegou a instalar-se o pavor de não se poder cumprir, o levantamento do tipo de carne estipulado a servir-se, pelo menos à refeição do meio-dia.
As mulheres nunca deixavam de estar na mente de gente tão nova, como a que formava o esquadrão.
Nas aldeias, as indígenas, comentavam as interessadas, que não valia a pena dedicarem-se aos militares, porque afinal os da milícia, além de possuírem mais "alangongo" (dinheiro), eram mais generosos na atribuição de quantias a compensar "favores".
Não esquecer o facto da Diamang possuir perto da Portugália, um quartel com a sua tropa, organizada como qualquer milícia, com o intuito de defesa da sua actividade.
No tocante ao elemento feminino étnico tudo era diferente do conhecido, na cidade da Gabela. Um belo dia, dois militares, deambulando em busca de sensações amorosas, na periferia da vila, meteram-se com duas mulheres:
- De imediato saltaram os respectivos maridos e moveram-lhe uma perseguição, que só terminou, com os lesados à porta das instalações de trabalho do comandante, a quem formalizaram queixa, enquanto os fugitivos, com invejável preparação física se misturavam na caserna com os colegas.
O Capitão Ferrand de Almeida, pouco contente com o sucedido, à hora da refeição do almoço, ordenou a formação de todo o contingente, onde lançou a palavra cobardes, para referir os então desconhecidos. Os mesmos podiam obter a sua benevolência, se fossem até ele com uma contrita confissão. Disse no discurso!
O Onofre sabia de quem se tratava, pelo desabafo de um dos intervenientes, Leonardo, único conterrâneo e dos maiores amigos.
Conhecendo bem a filosofia do comandante, pensou numa maneira eficaz de defesa dos implicados.
A partir daí, de imediato foi conferenciar com o Sebastião, outro amigo também conhecedor do "terreno".
Depois de se estabelecerem os prós e os contras, os rapazes foram aconselhados a denunciar a sua culpabilidade.
Tudo correu de acordo com a melhor previsão e antes do repasto da noite, com tudo em formatura, para ouvir o responsável máximo dizer:
- Afinal detinha o comando de um esquadrão de verdadeiros homens, dos que tinham sabido dar a cara pelos seus erros, pelo que ficara satisfeito.
- Era assim Ferand de Almeida!...

Daniel Costa

Sem comentários:

Enviar um comentário