segunda-feira, 7 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

INDICIOS DE TERRORISMO NA LUNDA

Até que a doze de Setembro, o esquadrão mudou definitivamente para instalações na vila da Portugália, a verdadeira sede do poder local do estado na zona, pelo que não se tratava de acaso. Tudo o que existia em armazém acompanhou.
A circunstância acarretou muita atenção e trabalho redobrado, até porque o gosto da arrumação era uma faceta do titular.
No dia seguinte de manhã, ainda houve muito a organizar, até que aquele departamento era, consensualmente, o mais bem ordenado de toda a nova instalação militar.
Dia vinte e seis foi recebida a visita do então Ministro da Defesa Nacional, havia que mostrar-lhe algo de interessante que se tivesse feito no aquartelamento.
Aconteceu que só o depósito de géneros alimentícios orientado, por Onofre, foi considerado merecedor da visita daquele alto titular da Nação.
No fundo, tinha-se ali iniciado uma existência em que a propensão organizativa sendo um facto, podia ser exercida com maior consistência.
Foi assim, que a fértil mente de Onofre se entregou a lucubrações mais pausadas, que andavam a assaltar o seu íntimo.
O que levaria a organização militar em 1963, a cogitar a defesa de toda a Lunda, instalando-a em força, onde não tinha chegado ainda a sublevação?
Era notória uma quase repentina cobertura de todo o território de posições militares.
Embora se pudessem contabilizar mais, mencionam-se apenas três factos, que chamaram a atenção do Onofre, para o possível embrião de rebeldia, a médio prazo, naquela imensa região de Angola.
Em primeiro lugar, a atenção recaiu sobre o peculiar da descoberta da actividade revolucionária do mulato, chefe do Correios da Portugália.
Balarina luba

Inevitável a captura do mulato chefe dos Correios. Numa ausência do comandante do esquadrão, foi apanhado e aprisionado numa dependência do aquartelamento, onde sofreu sevícias de toda a ordem de muitos militares.
Nada de estranhar naqueles tempos e circunstâncias, porque a personagem devia ser mesmo terrorista de elevado estatuto, revelando pouca inteligência na colaboração.
É que os militares, na passagem para o Dundo, em locais, como a cidade de Nova Lisboa, muitos tinham registados, inúmeras fotografias.
Utilizando o mesmo método das anteriores posições, inclusive na zona operacional, fazer os envios dos rolos de películas, acompanhados das importâncias de custos para fotografias de Luanda, embrulhos sem qualquer requinte de correio registado.
Aparecia sempre tudo revelado, assim como as cópias, por vezes com bastantes repetições, sobretudo as mais bem conseguidas, com vista ao envio a familiares, amigos, namoradas e obviamente a Madrinhas de Guerra.
Todos os militares se tinham questionado pelo facto de, repente tudo ter falhado sem excepções.
Com aquele caso, tinha chegado a resposta, para a grande incógnita.
A vingança fez-se, de muitas torturas corporais, não poderiam haver outras compensações, porque os rolos teriam seguido para células terroristas sedeadas no Congo, a uns escassos oito quilómetros de distância.
Onofre nunca mais deixou de recordar o seu rolo, assim desaparecido, tirado na segunda cidade de Angola, Nova Lisboa, pelo menos uma tinha como fundo o imponente busto do seu fundador, o General Norton de Matos.
Conjecturou ainda sobre o atravessamento do caminho, pelos dois pretos armados de "Canhângulos", junto ao rio onde se tinha dormido sob a GMC avariada.
A defesa dos tigres teria sido só conversa para branco, pois aqueles senhores não seriam mais do que uma amostragem de células inimigas, latentes naquela imensidão, onde só se avistava atraente paisagem verdejante.
Outro facto muito recente, que Onofre vivera, sem sombra de suspeitas, debaixo de enorme mangueira, dentro do perímetro do aquartelamento, onde se colhiam frutos, de quando em vez, para enriquecer as saladas, a servir de sobremesa nas refeições.
Desenrolou-se uma conversa com um nativo, a revelar-se de mente evoluída. Mesmo sob o ponto de vista continental, mostrava um coeficiente de inteligência razoável, o seu português era fluente, além de que também se expressava bem em francês.
Era novo com namorada congolesa, pelo que passava sempre o fim - de - semana no Congo, afinal ir para lá ou estar para cá da fronteira, era só uma questão de expressão linguística!...
A interessante personagem evaporou-se na noite e ali estava agora o cabo a questionar, se a mesma não teria estado ali na qualidade de espião, antecipando uma futura sublevação, afinal já vislumbrada pelas autoridades coloniais e o exército?
Ficava em aberto a questão!...

Daniel Costa


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