quarta-feira, 24 de novembro de 2010

AMOR NA GUERRA - LANÇAMENTO DO LIVRO


A APRESENTAÇÃO DA OBRA E DO AUTOR FOI DE MARIAZITA - MARIA CAIANO AZEVEDO, PARA O QUE ESCREVEU O SEGUINTE TEXTO DE QUE FEZ A LEITURA::

PALAVRAS PARA O LANÇAMENTO DO LIVRO DO DANIEL

Foi um prazer e um privilégio ler o prefácio do livro que agora se lança – Amor na Guerra – da autoria do nosso querido amigo Daniel.
O Daniel é uma pessoa por quem tenho uma enorme admiração, especialmente pela sua grande força interior.
Qual Fénix, também ele renasceu das cinzas, e aqui está entre nós, nesta segunda oportunidade que lhe foi dada, e que aproveita nos mínimos detalhes.
Escritor incansável, abusa, por vezes, em meu entender…
Sobre o livro agora lançado, direi que quem viveu os tempos da chamada «guerra colonial» sentirá um sabor muito especial ao ler o relato de tantos acontecimentos vividos pelo autor.
Os que não são desse tempo gostarão igualmente, talvez de forma diferente, de saber como eram vividas essas experiências, que o Daniel tão bem descreve.
São muitas as histórias contadas, todas com a sua participação.
O texto deste livro foi publicado, em episódios, num dos blogs do autor.
Segui quase todos os capítulos. Por isso falo com conhecimento de causa: comprem o livro e deliciem-se com a sua leitura.
Vale a pena.

Obrigada pela vossa atenção.

 





segunda-feira, 1 de novembro de 2010

AMOR NA GUERRA

CONVITE DE LANÇAMENTO
Quem more nos arredores ou deseje vir a Lisboa fica convidadado para o lançamento.


Daniel Costa

sábado, 25 de setembro de 2010

AMOR NA GUERRA

FORMALIZAÇÃO

AMOR NA GUERRA, ESTANDO JÁ EM PROCESSO DE EDIÇÃO, ONTEM, DIA 24/09/2010, COM A ASSINATURA DE CONTRATO ENTRE A REPRESENTANTE DA EDITORA ALFARROBA E O AUTOR FICOU OFICILIZADA A EDIÇÃO.
A OBRA, POSSIVELMENTE, AINDA SERÁ LANÇADA ESTE ANO DE 2010, SEGUNDO PALAVRAS DA RESPONSÁVEL EDITORIAL, QUE MOSTROU BASTANTE INTERESSE NA EDIÇÃO.

NO FIM OS DOIS AUTORGANTES DEIXARAM-SE FOTOGRAFAR.

Daniel Costa

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

AMOR NA GUERRA


CONTRACAPA

Só com a chegada de oficiais de Cavalaria, ao Regimento, em Estremoz, em Agosto de 1961, sob o comando do, então Tenente-Coronel Spínola, a formar o Batalhão 345, onde Daniel Costa foi incorporado, este ficou com a certeza da sua mobilização para a Guerra do Ultramar.
Logo aí o autor decidiu anotar diariamente todas as incidências porque passasse em campanha, com vista a editar um futuro livro baseado na vida de caserna, visto que pertencia à classe de Praças.
Depois de algum tempo a pertencer àquele batalhão, no Esquadrão 297, numa reviravolta por motivos, diria falta de organização nas secretarias militares, daqueles tempos conturbados, O 297 avançou, adido, para o quartel de Faro, onde ficaria, a aguardar embarque e a substituir um outro ali colocado, cujo comandante reivindicou procedência, como lhe competia.
Em 11 de Janeiro de 1962, partindo já de Faro o 297 foi juntar-se, no cais da Rocha Conde de Óbidos, ao Batalhão 350, comandado pelo franzino, Tenente-Coronel Costa Gomes (irmão do que foi, mais tarde, presidente da República Portuguesa), ali se embarcou para Angola.
Sempre o diário foi acarinhado, apesar do autor deste livro ter sido jornalista e editor de uma revista mensal, cerca de 30 anos, ou por isso, nunca tinha havido tempo para concretizar a compilação e edição.
Deve ser aqui evocado o Sargento Pinedo, que sempre distinguiu o autor, apesar de ser em homenagem póstuma. Além de várias provas de apreço, dele partiu a indicação para a substituição do lugar do Sargento que dirigia o rancho, lugar de especialista com essa classe militar inerente.
Deve ficar aqui uma referência ao General João Ramiro Alves Ribeiro, também a título póstumo, que comandou o Esquadrão 297, como Capitão, pelo apreço do seu profissionalismo como comandante militar.

AMOR NA GUERRA está em edição, este post é tal como irá figurar na capa do livro.

Daniel Costa

domingo, 20 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

DUAS PALAVRAS

O Jornal da Amadora publicou de 1 de Janeiro do ano de 2006 a 15 de Fevereiro de 2007 as crónicas de Daniel Costa enquanto militar mobilizado em comissão de serviço no norte de Angola a fim de combater na guerra colonial.
Tudo começou nos primeiros meses de 1962 e vai desenrolar-se até Abril de 1964.
O relato assume-se sempre de forma objectivada e pormenorizada.
A escrita diarística encontra aqui um representante válido porquanto os acontecimentos militares não podem excluir as relações de casualidade.
Trabalhos desta índole representam na micro estória a busca de significantes e interrogam-nos.
A figura do soldado Onofre (Daniel Costa), nestas crónicas revela uma continuidade complementar na postura que se propõe a si próprio ao longo do relato, na procura, conseguida, de informar e informar-se.
Prepassam nestas páginas breves alusões, embora, a personagens conquanto alheias à guerra colonial relevam de contemporaneidade ( De Gaulle e Montegomery).
Todo o descritivo situa-se na ambiência geográfica africana - a negritude - na sua carga milenar; esta assimila-se à presença portuguesa gerando a miceginação.
O acervo de dados a partir do Esquadrão 297 é impressionante: o real quotidiano, as obrigações da guerrilha. o outro. A Breda e a Mauser, o alojamento, os acampamentos, as refeições, o convívio entre militares, o lazer, as "madrinhas" de guerra.
Os desfiles. A sexualidade na ambivalência das recordações femininas e as "derivações" na mulher africana.
Por fim a aurora da libertação.
Onofre (Daniel Costa) coloca-nos perante as memórias das vivências insuspeitadas destes actores.
Deles e dor do outro, visto que a memória é recíproca.
Necessáriamente.

A. M.

Lisboa, Agosto de 2007

sábado, 19 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

REGRESSO DE ANGOLA

No dia vinte de Março, com a integração de todos os elementos nos esquadrões de eram originários, o eventual naturalmente deixou de existir com o normal reagrupamento.
No mesmo dia procedeu-se à devolução de todo o equipamento militar, corolário eminente do regresso à tão desejada vida civil, para o que havia um Oceano de separação, além de outras formalidades a constituírem outras tantas provações.
Nessa tarde o Onofre almoçou com vários camaradas num restaurante de Luanda, depois de passaram o resto da jornada visando as últimas compras, com outros entretenimentos na maior descontracção, visto o dever estar cumprido.
Ainda no Grafanil, a vinte e dois, o Onofre conheceu a inesperada felicidade de receber a visita de um irmão, que já tendo assentado praça na marinha, seguia mobilizado para Moçambique e cujo navio fundeara no porto de Luanda.
Passava ali o dia todo e depois de apresentado a vários companheiros, serviu de companhia na última jornada de gozo na capital de Angola, enquanto haviam muitas aventuras e novidades para trocar.
Um dia inesquecível por assaz interessante!
Chegou finalmente o embarque de regresso, era outro dia memorável, o vinte e três de Março de 1964. De manhã cedo foram ordenadas todas as bagagens, que se fizeram de imediato chegar ao transatlântico “Vera Cruz”, que as havia de levar de regresso a Lisboa, com mais cerca de dois mil militares em fim de comissão.
Vieram então as ditas provações, que aquela tropa bem podia dispensar, embora tidas como “honras militares”. Consistiram numa aparatosa parada de despedida, ainda em pleno campo do Grafanil.
Duas longas horas sob um calor intenso, em formatura, para ouvir a historiografia das actividades exercidas durante vinte e sete meses, para o caso do Batalhão 350, de que o Onofre fazia parte.
Foi realmente uma grande apoteose de despedida, contando com a presença do General Comandante da Região Militar de Angola, a comandar depois um desfile militar de grandiosidade pelo número de unidade envolvidas.
Por fim, todos os intervenientes, que deixavam as obrigatórias funções, que as tivessem desempenhado melhor ou pior, receberam um diploma individual, com a assinatura do citado oficial, Comandante Superior, em carimbo aposto, depois de dactilografado o nome pessoal e da Unidade a que pertencia, cada qual e por fim a frase:
- “Atestado o seu apreço pelo brio profissional e valentia com que se bateu pela Pátria em terras de Angola”.
Seguiu-se de imediato o embarque num comboio, em gare criada para o efeito no próprio Grafanil, que fez todo o transporte de todo o pessoal, para o porto da baía de Luanda, afim de que o paquete “Vera Cruz” zarpasse até Lisboa, repleto de homens fardados.
Enquanto no transporte ferroviário ia marginando a cidade Onofre não deixou de reparar nas sanzalas que a rodeavam, algumas com brancos, aqueles que porventura não haviam conseguido a qualidade de vida almejada, pelas mais variadas circunstâncias.
Pelas três da tarde já com tudo a bordo, podendo ver-se muita gente no cais, fez-se ouvir o toque de despedida pela fanfarra do Regimento de Infantaria de Luanda à partida do navio.
Apesar da muita felicidade motivada pelo regresso, a cerimónia não deixou de causar um frémito de emoção em muitos corações sentimentais, tal como o do Onofre.
Os dias que pareciam infindáveis, na viagem de regresso, passados em alto mar. Quando se chegava à amurada só se avistava água, por vezes havia o recurso à leitura, também se efectuavam longas conversas, em que eram abordados reluzentes projectos de vida futura.´
Muito dado a reviver um passado, ainda que recente, como o era o da comissão imposta e a terminar, o Onofre rememorava muitas incidências vividas em África, como as relativas a Madrinhas de Guerra, no fundo uma agradável maneira de trocar correspondência e sobretudo o facto de durante os treze meses passados na zona de guerrilha ter dormido com arma ligeira, uma pistola metralhadora, que lhe fora atribuída para defesa pessoal, sempre debaixo do travesseiro, destravada em ponto de disparar de imediato, caso acontecesse o sempre previsível ataque.
No dia vinte e seis um remédio, uma espécie de purga geral, criou mau estar, o que continuou na jornada seguinte.
Já no dia vinte e oito, mazela esquecida, cabeça rodando com os balanços nave, à noite pôde assistir-se à exibição do filme “Quatro Raparigas”.
Celebrava-se a Páscoa a vinte e nove de Março, a bordo a monotonia e o veemente desejo do cabal regresso. Começou a sentir-se frio, para quem deixara para trás vinte e sete meses de clima tropical, notava-o mais acutilante, já em atmosfera europeia e porque o fim daquele mês de Março estava agreste, o mar tornara-se muito agitado e o navio balançava bastante.
Como resultado, o grande salão da classe turística, destinado às refeições das praças durante aqueles dias ser utilizado, por apenas dois passageiros, entre os quais Onofre, que utilizava uma das mãos para a estabilização do talher, sem o que o mesmo dançava por toda a mesa, num vai e vem em frenética agitação.
A trinta soube estar-se de passagem junto da costa das Canárias, a demonstração de que se aproximava o porto de Lisboa. E o mar continuava no seu frenesim de bravura.
Finalmente, no dia um de Abril de 1964 o “Vera Cruz”, manhã cedo acostou à Gare Marítima de Alcântara, na capital de Portugal.
O dia apresentou-se sempre sob uma arreliadora chuva miudinha e fria, impróprio para a celebração de quem chegava de cumprir serviço militar em Angola e eram cerca de dois milhares de homens que tinham servido ali de guerrilheiros a bem da Nação.
De imediato se processou o desembarque e forças metropolitanas do exército apresentaram sacos individuais de comida, que servia de alimentação naquele dia, para todo o contingente.
Até à uma da tarde deambulou-se, cada qual deu a volta que entendeu. Procedeu-se depois à inevitável cerimónia de desfilar perante um Senhor Oficial General, sempre a chuvinha miudinha e fria a cair. Só então se deu a mais uma etapa o embarque no próprio perímetro da Gare em comboio especial, que iria levar toda a tropa do Batalhão 350, ao Regimento de Cavalaria 3, em Estremoz, onde havia sido feita a mobilização.
Ainda mais um desfile, da estação ferroviária local. Destroçou-se junto ao refeitório, onde foi servido pelo exército o último jantar.
Ainda, nessa noite se procedeu ao espólio, muitos já se tinham munido de roupa civil.
A seguir em união com colegas de proximidade encheu-se um táxi, para transporte de novo ao seio paterno.
Fica aqui patente a grande saga do Onofre, na guerrilha de Angola!...

Daniel Costa

quinta-feira, 17 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

MUITA GENTE FAZ A GUERRA

Ainda exposto à intempérie, o numeroso grupo retomou caminho, para uma etapa atribulada, com o atascar de várias viaturas, acabando por pernoitar naquele caminho, sempre de terra areenta e batida, perdida algures, ainda em pleno distrito da Lunda.
A dezasseis, sempre debaixo de chuva, conseguiu-se a libertação da lama e de novo se deu o seguimento da viagem.
Perto da povoação de Quissange na aproximação da hora de almoço, um dos carros, onde na cabine viajavam o médico e a esposa, com o respectivo motorista, carregado com um pesado gerador eléctrico, acabou por tombar numa ravina, não houve danos nem ferimentos.
Habituados àquelas variações atmosféricas tropicais, os homens civis do volante, conseguiram impor os seus apelos, perante o comandante da coluna, capitão Ferrand de Almeida, para que mandasse parar todo o contingente, até que o terreno enxugasse.
Era assim, que as grandes viagens, naqueles terrenos e com condições atmosféricas adversas, os haviam traquejado!
Arreados os seus equipamentos de viagem, enquanto os militares iam tomando a refeição do meio-dia, a partir das caixas individuais, cozinharam as suas batatas com bons nacos de bacalhau, em fogueiras improvisadas.
Depois de tudo saciado, como por encanto, parara de chover, mediando o espaço de tempo suficiente para que o caminho enxugasse, como se as bátegas de água caíssem sob sol ardente, porque em pouco verificara-se a total secagem do terreno.
Chegou o tempo de erguer a viatura caída, parecendo que a tragédia assolara aquele contingente militar em movimento.
Tudo foi resolvido, com a astúcia dos profissionais civis, utilizando o cordame, que sempre os acompanhava, como medida preventiva. Fez-se jus ao dito popular: “Muita gente faz a guerra”! Um deles postou-se a comandar a melindrosa operação, todas as mãos se agarravam a cordas amarradas de todos os ângulos, a fim de se estabelecer equilíbrio.
Com a grande força exercida, em pouco tempo estava a viatura levantada e em condições de seguir viagem.
O Onofre teria de confessar ter aprendido ali muito, de como era o modo vivencial daqueles destemidos motoristas da África negra.
Ainda a dezoito de Março, estando-se no ano de 1964, passou-se por Nova Gaia, além de várias povoações. Era já noite estava-se a entrar os portões do aquartelamento de Malange, já em novo Distrito de Angola, com sede naquela cidade, onde se fez a refeição, recorrendo á famigerada ração de reserva.
A dormida dessa noite teve também lugar naquelas instalações, de novo junto das respectivas unidades de transportes.
Chegados às dez da manhã do dia seguinte, dezanove, perto de onde existem as grandes cataratas de água de cento e oito metros de altura, uma das jóias de Angola, proporcionadas pelo caudal do rio Lucala, na altura designadas por Duque de Bragança.
Depois atingiu-se a picada que ia dar a Cacuso, com a inevitável deslocação ao aquartelamento local, pelo comandante para deixar as saudações militares. A oportunidade foi aproveitada pelo Onofre que, por correspondência, tivera conhecimento do facto de ai estacionar um primo, a que fez também a visita.
Tendo havido pouca demora, seguiu-se a viagem, com passagem por Lucala e Salazar, onde Onofre teve outro casual encontro com um conterrâneo, que fez chegar à família o estado em que o encontrou:
- Cheio de pó, mal dormido, no fundo relatou a odisseia.
Não seria para menos, se bem que para o visado, não passasse de mais uma aventura, para contar.
Depois da passagem por Dondo e Catete, povoações já conhecidas, finalmente a vinte já entrada a noite, chegou-se ao Grafanil.
No famoso campo militar, ponto de chegada e abalada da maioria dos elementos que, iam fazer frente à guerrilha, o esquadrão eventual 350, ficou abruptamente sem qualquer cadeia de comando, como se entrasse na orfandade, ninguém mais se preocupou.
Cada qual procurou os colegas do Esquadrão de origem, a eles se juntando para orientações.
Posto isto, depois das respectivas e necessárias providências pessoais, cada qual tratou de respirar fundo e passar uma noite de tranquilidade, dormida no chão sob abarracamentos provisionais militares.

Daniel Costa


quarta-feira, 16 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

DA PORTUGÁLIA AO GRAFANIL

Num Domingo, quinze de Março de 1964 às cinco da manhã, o esquadrão eventual 350, partiu finalmente da Portugália, rumo ao Campo Militar do Grafanil, às portas de Luanda. A viagem foi feita em camionetas civis de caixa aberta.
Seguiu-se a estrada, uma recta sem qualquer asfalto, ladeada de bambus, até ao destacamento militar do Camissombo, onde se encontrava estacionado um Batalhão.
Chegou-se sem qualquer incidente, logo às sete da manhã, com a habitual paragem, afim do respectivo comandante receber o testemunho do responsável pelo comboio de tropa, que passava.
Cumprida a praxe, com pequenas avarias mecânicas, atingiu-se Henrique de Carvalho às seis da tarde do mesmo dia, onde se pernoitou, com exposição ao luar, dentro do grande complexo militar, com os mais variados serviços respeitantes ao Sector ali existente.
Entretanto, Onofre com alguns amigos, aproveitaram a jantar num dos restaurantes da cidade. A certa altura discutia-se, se a região também era dominada pelo dialecto quioco. Podendo o facto ser testado, visto o empregado de serviço ser indígena, de imediato se utilizou o procedimento seguinte:
- Genarié (como te chamas)?
- José, mata (senhor).
- As duas palavras, algumas das que tinham sido aprendidas daquele dialecto, deram resposta à questão equacionada, Henrique de Carvalho, pertencia ainda à vasta região onde todo o povo se expressava em quioco.
De facto estava-se na capital da Lunda, cuja criação foi defendida em Lisboa pelo oficial do exército português e grande explorador, desse nome, que em 1928, Norton de Matos, o Alto Comissário de então, atribuíra à cidade.
No dia seguinte, pelas quatro da madrugada, debaixo de chuva intensa, estava o comboio militar, de novo, na rota da viagem, que o havia de conduzir ao Grafanil.
Conseguiu-se alcançar a povoação de Cocolo, onde se procedeu ao almoço, que em trânsito consistia na usual ração de reserva.
Para o Onofre, cozinheiros, sargento escrevente do rancho e outros, que faziam parte dos amigos mais próximos ainda havia restos de chouriço enlatado e outros produtos de longa duração, que conseguiu reservar.

Daniel Costa

terça-feira, 15 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

LOUVORES EM FIM DE COMISSÃO

Depois de, na Casa do Pessoal da Companhia dos Diamantes, ter assistido ao filme "A Roda da Sorte" Onofre, por inerência, começou a preparar a noite de consoada.
O serão de Natal desse ano de 1963 decorreu com interesse no refeitório, até à duas da manhã na plenitude da mocidade, havia de ser o último em que o homem do rancho usaria farda, este sentia-se na plenitude da mocidade. Estava fatigado, porque levava talvez demasiado a sério qualquer intervenção exigida da sua competência.
No dia de Natal, cumpriu-se o desejo do Capitão Ferrand de Almeida, constituído por um cozido à portuguesa.
Mais uma vez, não havia disponível a necessária carne de porco, porque não havendo fornecimento da mesma, pela poderosa Diamang os quiocos também não a vendiam, pelo menos a militares.
Valeu um dos motoristas que "malandro", muitas vezes lhe calhara transportar refeições a colegas de serviço no posto fronteiriço do Congo. Propôs-se numa dessas a entrar com a viatura num terreiro, onde estivessem animais domésticos. Aconteceria um desastre onde ficaria imediatamente muito ferido um porco. O dono aflito, viria a correr fazer queixa e o remédio era pagar-se o prejuízo, ficando-se com o animal.
Tudo correu bem, deu-se o premeditado acidente, o dono do animal foi ressarcido e o almoço daquele último Natal em comissão militar, reforçou o optimismo, tanto mais que houve interferência do sargento a dizer:
- "Um cozido à portuguesa a sério tem de levar carne de galinha", o que efectivamente aconteceu, mais uma vez funcionou a troca com o colono amigo.
O filme intitulado "A Grande Guerra" e uma exposição de trabalhos infantis, tudo na Casa do Pessoal, a grande estrutura lúdica, da Companhia dos Diamantes, foi a parte de gozo do Onofre de vinte e oito de Dezembro.
A noite de S. Silvestre, que transpôs o ano de 1963 para o de 1964, foi igual a qualquer outra, apenas a transição é assinalável, em virtude de se ter chegado ao último ano de permanência em solo africano.
Por esta altura, mesmo com o tempo bastante ocupado, o Onofre amando conhecer o máximo, na qualidade de praça já tinha efectuado a visita às tascas dos pretos, por um lado, por outro a da comunidade de Cabo verde, como conhecia bem a dos brancos consubstanciada na Cada do Pessoal, ficou um pouco inteirado da organização social.
Entre pretos e brancos, a separação era evidente, já que aqueles só se encontravam a servir, mas a comunidade da outra colónia, de modo algum se misturava com os angolanos, o que não parecia lógico.
Ficou sempre a impressão de existência de racismo, mas quem mais o praticaria seriam os naturais de Cabo Verde, porque até as tascas tinham existências separadas,
Em dezanove de Janeiro de 1964, depois da recolha de víveres no Dundo, por avaria de viatura, houve que arranjar boleia para regressar às instalações da Portugália, em busca de transporte para efectuar o necessário reboque.
Dia vinte foi recebida a visita do Governador-Geral de Angola. Mais uma vez foram privilegiadas as instalações onde se arrecadavam os géneros de alimentação, para mostrar a tão ilustre personalidade, ficando mais uma vez demonstrada a capacidade organizativa do inofensivo Onofre, que no fundo procurava apenas executar bem a tarefa que lhe tinham atribuído.
Estátua quioca na cidade num parque da cidade do Dundo

No mesmo dia teve lugar a assistência ao filme, desta vez intitulado "Escândalo ao Sol".
A vinte e quatro de Janeiro, foi o Onofre surpreendido pelo seu amigo Soeiro, que apareceu exibindo dactilografado um louvor com que tinha sido distinguido pelo comandante, Ferrand de Almeida.
Não sendo coisa importante, visto não haver as mais remotas intenções de seguir a vida militar, no entanto na altura foi estimulante. De certo modo era uma fugaz compensação para algumas arrelias que iam terminar. À noite deu-se casualmente um encontro com o sargento, a quem cabia escriturar toda a movimentação do rancho. Este era militar de carreira, a quem aproveitaria um louvor, porém fora excluído.
Tinha-se permitido entregar à bebida, talvez pelo facto, vociferava fora de si: pela primeira vez, mostrou o seu cartão da PIDE, dizendo: "o nosso Capitão está feito, porque nunca soube os meus poderes, mas com isto vai saber com que pode contar".
Logicamente, o assunto morreu com o desabafo.
Depois, a um de Fevereiro, ainda mais trabalho, chegou para o Onofre, com a vinda de grande remessa de alimentos enlatados da delegação de Henrique de Carvalho que, segundo a norma, foi muito bem arrumada,
Até que a catorze passou na localidade de Camissombo, de novo para recolher mais géneros, chegados ao aquartelamento local, vindos da citada cidade por aquela via.
Seguiram-se mais arrumações.
A quatro do mês de Março, pela última vez em terras de Angola, houve ida ao cinema, assistiu-se à exibição de "Sete Noivas para Sete Irmãos".
Esperado já o fim da comissão, deu-se a chegada de uma companhia militar para substituir o esquadrão eventual, a ocupação do Onofre acumulou mais azáfama, dado que a cinco do terceiro mês do ano de 1964, foi necessário levantar mantimentos em duplicado, no armazém do Dundo, a contar com o tempo necessário de alimentar o pessoal que ia proceder à rendição.
O mesmo aconteceu com a chegada do reforço de géneros alimentícios, vindos da manutenção, que acumularam trabalho de arrumação.
Logo que se soube do regresso, ao pequeno-almoço, onde muitos militares iam muito tarde usufruir o prazer de ingerir o seu pão torrado bem barrado com boa manteiga enlatada, alguns useiros e vezeiros em calmas repetições.
De forma jocosa, ouviam muito a frase: "Aproveita agora, porque vai acabar-se". Tanto bastou para, um oficial, estando de serviço de dia ao esquadrão, chegado ao Batalhão mais tarde, pelo que não lhe cabia a vez do regresso à metrópole, mostrar a sua falta de humor, com o lançamento da seguinte pergunta:
 "Óh pá mas isso tem algum jeito?!..."
Chegados a doze, finalmente a rendição!... A treze entrega de todos haveres e governo do depósito. A catorze os preparativos para a viagem até Luanda, onde se embarcava para a metrópole.
Ao Onofre ainda coube muita labuta, já que tiraria algum partido da última e trabalhosa missão, que lhe tinha sido atribuída.
Para si próprio e amigos de proximidade, mais uma vez com a colaboração do sargento, a quem incumbia a tarefa da escrita dos gastos do rancho, foi então demonstrada em plenitude a afeição e até a admiração que sempre dedicou ao respectivo encarregado.

Daniel Costa


domingo, 13 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

ADEUS ATÉ AO MEU REGRESSO

Havendo responsáveis com formação própria em todos os aquartelamentos, no caso do esquadrão eventual 350 Onofre tinha substituído o nomeado, no que dizia respeito à manutenção do refeitório, assim como a outras necessidades inerentes, porém havia um sargento para a escrituração, por já ter protagonizado uma mobilização em Moçambique, onde exercera funções idênticas.
A repartição militar em Luanda, responsável por todos os impressos necessários, fornecia os mapas e outros documentos necessários para os movimentos de géneros alimentícios, de cuja administração era responsável. Uma empresa bastante complexa como se pode imaginar!...
Deste modo o superior mais directo no rancho, seria o dito sargento, que não merecendo a conotação de "fixe", foi contudo, um bom amigo de Onofre, já que este depressa adquiriu prestígio, o que servia o seu interesse como militar do quadro.
O sargento sempre aparecia de tarde batendo com uma varinha na perna a participar em sessões de petiscos.
Saida do palacio em jeito de festa

Em vários princípios de noite chegavam alguns amigos do citado, para os aperitivos de antes do jantar nas instalações dos géneros de alimentação .
Contavam-se entre eles quatro elementos, normalmente em dias diferentes, eram dois da polícia judiciária, que faziam parte de quadros instalados no Dundo, no serviço de investigação de possíveis movimentos clandestinos dedicados ao tráfego de pedras preciosas, um outro colono e um militar da milícia, todos em funções na Diamang.
As "tapas" eram constituídas normalmente por rodelas de chouriço, que chegava da manutenção militar enlatado, era de boa qualidade e constituíam um manjar acompanhadas do tal casqueiro (pão) fabricado no esquadrão e bom vinho verde fornecido pela organização diamantífera.
Aquele militar da classe dos sargentos, tornara-se um sério amigo do Onofre, por vezes conveniente, como uma mais valia nas relações públicas.
Em certa ocasião andava a remoer que num almoço, havia de ser servido arroz de pato. De facto uma ementa bastante apreciada, mas como conseguir aquele galináceo, pois os negros nada vendiam à tropa e a Companhia não os tinha para fornecer?
Por outro lado esta proibia aos colonos, embora com muito espaço junto das vivendas que lhe estavam atribuídas, a criação de qualquer ave de capoeira.
A ideia, o sonho parecia inexequível.
Certo dia o sargento apareceu com o problema resolvido, o colono habitual dos petiscos, na entrada da noite, da sua improvisada e clandestina capoeira, de parceria com outros colegas, arranjaria a quantidade de patos necessária para um almoço farto de todo o rancho.
Não havia dinheiros em jogo o que facilitava tudo. As latas de chouriço, com a tara de cinco quilos, fornecidas pela manutenção militar, eram ali um bem tão precioso que serviriam de boa moeda de troca.
Foi aí que algumas dúvidas do Onofre começaram a esclarecer-se, a resposta ao problema do fruto proibido, era a de que os galináceos tinham a capacidade de armazenar nas goelas pedras preciosas, tornando-se um meio eficaz de tráfico.
Como se pôde verificar a proibição era letra morta!
Por esta altura, não tendo chegado ainda a televisão às guerras de África, eram debitadas para microfones da rádio, por militares formados em fila indiana para os sacramentais cumprimentos de Natal, dedicados à família, namoradas, Madrinhas de Guerra e amigos, com o obrigatório, "adeus até ao meu regresso".
Chegara o tempo de os militares se inscreveram para a visita a uma rádio da Lunda afim de gravarem a sua mensagem, que depois a Emissora Nacional difundia.
Pelo segundo ano da estatal obrigação de passar pela guerrilha, Onofre ignorou a prerrogativa, porque a achou sempre sem sentido.

Daniel Costa

sábado, 12 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

PRAÇAS HERÓIS

Outro assunto de prender a atenção, foi o de uma praça distinguida com uma condecoração. Foi-lhe atribuída por valor demonstrado numa operação militar, ainda na zona de intervenção a "Cruz de Ferro".
Chegara a Portugália a convocação, para se apresentar em Luanda a fazer parte de uma parada, onde seriam entregues as variadas condecorações por valor militar patenteado.
Aconteceu algo inexplicável, mesmo na época, o militar recebera a "Cruz de Ferro", mas voltara à base da Lunda em estado de desnutrição a exigir tratamento médico.
Onofre, por natureza era pensador e reflectia muito sobre estas incidências, que pareceriam apenas de pormenor. Podiam estar certas, mas um herói?
Ainda que soldado raso, não destoaria se lhe tivessem disponibilizado um avião, para o transportar de ida e volta ao esquadrão.
No caso a capital de Angola, ficava no mínimo a dois dias de viagem terrestre em camioneta de caixa aberta.
Como a mesma teria sido feita, de aquartelamento em agrupamento militar, com a sujeição aos transportes destes e sendo o herói tímido por natureza, para se abeirar dos rancheiros respectivos, ficara com razão de maldizer o acto heróico que, motivou a inglória honra da condecoração.
Ainda em Novembro, no dia vinte e nove, à tarde na companhia do Soeiro, dedicou-o a uma visita, que há muito se impunha, ao Museu Etnográfico do Dundo, um dos mais importantes, do género em todo o continente africano.
Fachada do museu da cidade do Dundo

A visita, além de muito agradável foi surpreendente, pela variedade de objectos expostos e pela revelação que encerra da cultura da grande região da Lunda.
A visita mereceu uma atenção detalhada, da parte que estuda os minerais da zona, confirmando o que se dizia: Todas as pedrinhas com que se tropeçava serem diamantes, mesmo se alguns não tivessem valor de mercado, visto que havia qualificação para todos, mesmo os que se esfregassem nas mãos e se desfizessem em pó.
Foi possível verificar inúmeras "pedras" identificadas, das insignificantes às de grande pureza. Todas as de que aquele território era fértil, o que afinal fazia com que a tropa estivesse já presente em força, para vigiar todos os movimentos porventura hostis a uma produção altamente sofisticada.
Depois chegava-se a uma parte, onde era exposta então, toda a cultura dos quiocos, que habitavam a vastíssima região. Essa de tão ancestral, era de fazer pasmar qualquer europeu. O exemplo maior, será uma mobília de sala executada em madeiras exóticas, em que todas as peças que a compunham eram trabalhadas manualmente,
representando na integra, explícitas cenas eróticas.
                                           
Museu do Dundo: Pormenor de cadeira. Trabalho quioco

A constatação, pelo ineditismo era agradavelmente chocante.
De facto, estava-se num país diferente do que se conhecia no cantinho europeu!
Onofre acha por bem não deixar de mencionar o caso recorrente, de numa das sortidas diárias ao Dundo, motivadas pelo serviço do rancho, de conluio com o motorista da viatura, se ter deslocado também ao aquartelamento da Bateria que, estacionava perto do rio Luachimo.
Nesse dia trinta e um de Novembro, a saltada à artilharia era destinada a compras particulares na cantina local, por esta ser melhor apetrechada. Porém houve pouca sorte, deu-se uma avaria no Jeep e praças velhas como as presentes, empurraram a viatura até ao sítio onde a passagem podia ser justificada. Assim o carro, durante cerca de cinco quilómetros, usufruiu de tracção manual.
Nas instalações do Tari Lifune, no chamado mato, com propriedade por ser zona de intervenção militar um "divertimento da malta", como alguém dizia, a saga de surripiar quicos uns aos outros foi um divertimento de tempos livres, como seria para os miúdos jogar o berlinde ou ao pião no recreio.
Fora dessa área existiam outras ocupações bem mais atraentes. Foi assim mesmo que alguém atrevido ousou subtrair o do Capitão Alves Ribeiro. Pensou-se na pena aplicável, mas aconteceu o facto inesperado de o ilustre comandante militar, ter rido da façanha e prestes a deslocar-se à metrópole no gozo das suas férias logo adquiriu novo exemplar.
Aconteceu a mesma cena, no aquartelamento do esquadrão eventual na Portugália; uma praça, um homem do Alentejo, ousou o mesmo com o Capitão Ferrand de Almeida. Este muito menos dado a rigores de comando, ainda assim não teve qualquer contemplação e aplicou a pena mais pesada da sua competência:
Dez dias de prisão!...

Daniel Costa


sexta-feira, 11 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

JUSTIÇA EM TEMPO DE GUERRA

O Onofre, tinha acabado de completar vinte e três anos, como a maioria dos companheiros, pois haviam sido incorporados em mil novecentos e sessenta e um, ainda no século vinte, dentro do constante optimismo natural, contava com a auto estima de mesmo, sem qualquer protocolo ou mais valia pessoal, estar a desempenhar um cargo de certo modo importante no esquadrão.
Além das arrelias quase diárias, pelos problemas ocasionados, por nunca o comando, ter tomado em conta a necessidade de aprovisionar transportes, para as carnes ou peixes, os frescos de todos os dias, assunto que acabava naturalmente resolvido pela capacidade, porque não dizê-lo?
Nunca houve a mais pequena reclamação, pelo tipo e quantidade de comida servida.
Dentro das instalações militares da Portugália, o edifício que servia de depósito de géneros, transformara-se num modelo de orientação e eficiência organizativa.
Tanto assim era, que recebida a visita do Tenente-Coronel António de Spínola comandante do Batalhão 345, voltou a haver dentro do aquartelamento, o recurso à área, para mostrar algo de digno ao visitante oficial militar superior.
Foi a segunda vez, que Onofre pôde testemunhar a visita ao esquadrão eventual 345, do seu mais alto comandante, com o grosso das tropas sob o seu comando, algures no Sul de Angola, tal como se encontrava no Cuanza Sul o comando do 350, de que o eventual estacionado na Portugália era oriundo.
A visita podia considerar-se adequada, visto ser tudo tropa de cavalaria mobilizada pelo quartel de Estremoz.
Porém o comandante de Batalhão 350, nunca se dignou visitar o grupo de militares, que mandara constituir e embarcar para a Lunda.
No dia seis de Novembro, numa das habituais voltas de lazer á cidade dos diamantes, o Onofre esteve na Casa do Pessoal da Diamang a assistir ao filme "A Mulher Sem Freio", protagonizado por Brigitte Bardot.
Saida do plácio Colonial da vila da Portugália, depois dum casamento

A doze do mesmo mês, numa ronda efectuada por militares de cavalaria, sedeados na Portugália, foram descobertos e apanhados dois terroristas.
Entretanto um alferes do mesmo esquadrão conjurou-se com várias praças e travaram um verdadeiro recontro na cidade, com militares de uma bateria da mesma zona do rio Luachimo.
Conjugou-se talvez, a má sorte de ter havido um golpe de navalha, à boa maneira lusitana. O citado, deu-se como culpado e de seguida, mesmo sendo oficial, apanhou os tais dez dias de prisão, a pena máxima, que o Capitão comandante lhe podia aplicar.
Para cúmulo, em resultado acabou por ser transferido para a zona de guerra donde tinha vindo.
Talvez por ser oficial e ter sido o mentor da recuperação mecânica de algumas viaturas estacionadas, como se fossem destroços, veio a conhecer a vã glória de ter a sua despedida frente a uma formatura, diga-se espontânea, de todo o esquadrão, onde logicamente esteve ausente o comandante.
A mesma bateria defrontou-se, a vinte sete de Novembro, com o esquadrão em desafio de futebol, num dos campos do Dundo, o Onofre assistiu ao empate por 4 a 4, reparando que esta cavalaria, nada tinha de parecenças com a do Grande Esquadrão, que sempre ganhava quando se apresentava.
Outras ocorrências iam sendo registadas no diário do Onofre, como a protagonizada pelo alferes miliciano Abranches que, sendo já advogado na vida civil, recebeu a missão de se deslocar, para ser o defensor oficioso no julgamento, em tribunal militar, do caso referente ai soldado do 297, ocorrido ainda no Tari Lifune e que se encontrava detido num presídio militar daquela cidade.
O momentoso delito daquele militar, encerrou cenas interessantes, se não se desse a sua prisão efectiva.
Um alferes fez menção de lhe atribuir uma bofetada, como já tivera a ousadia de fazer a determinado cabo.
Tanto bastou, para que o referido alcançasse a espingarda FN distribuída a um companheiro, por ser de melhor pontaria do que a sua teria dito depois de aprisionado, com a mesma perseguiu o oficial, cujo recorreu à fuga, para as suas instalações, evitando assim a concretização de um crime contra a sua pessoa.
O referido soldado, embora lhe assistisse alguma razão, tinha-a deixado cair com o acto, visto não desconhecer a regra do estar-se em estado de guerra e embora a possibilidade de, militarmente apresentar queixa de um superior, seria necessária a aprovação deste, o que se podia levar à conta de mais uma das muitas bizarrias das leis militares.
Onofre não assistira a este lance, pelo que não o anotou, estava destacado na Fazenda Três Marias, porém com a sua curiosidade natural, numa das frequentes visitas de escolta recolheu pormenores do momentoso caso. Acontece que o soldado pertencia ao grupo de vizinhos na vida civil.
O visado estava, pois, no círculo de conhecimentos pessoais, muitos próximos, para poder ser avaliado como capaz de cometer um acto desses.
Era um tipo muito reservado, só com alguma dose de confiança pessoal diria algo, as divagações interiores eram remoídas, por norma em passeios ininterruptas dentro da própria caserna, da cama para a porta e vice-versa.
Ainda na metrópole chegou mesmo a confidenciar ao Onofre, que iria para Angola na esperança de vir a ficar perto da fronteira e daí poder dar o "salto", para fora deste país, caso contrário teria antecipado a fuga.
No fundo o militar em questão era pessoa com insipidez suficiente, para ser vista como pessoa inofensiva com certa comiseração e desinteresse.

Daniel Costa

quinta-feira, 10 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

CULTURA DO ALAMBAMENTO

Como aventuras para reter, mais algumas observações:
- Uma prende-se com o facto de numa ocasião, momento único, ter encontrado uma linda mulher quioca, toda pintada de branco. Questionando porquê, veio a sabê-lo:
- As mulheres nativas festejavam o facto em público, mostravando assim ao mundo, que já tinham perdido o cabaço (virgindade).
Naturalmente com o amado que, gostosamente, contavam passar o resto da vida.
Da seguida contam-se passagens, como a do nosso homem que arranjava contactos femininos, através de um servente local. Com mais experiência de vida, cismaria ter tido à mão um elemento a expiar, ao serviço da informação do movimento pró-libertação.
Foi assim que, na sanzala de uma das mulheres passou uma noite de verdadeira orgia.
Tinha sido uma aventura morta à nascença. Mais tarde veio a saber, por ouvir em forma de queixume, não ter havido dinheiro, nem o militar ficara ao menos conhecido. Já então Onofre havia passado, algumas vezes pela mulher, ficando a estranheza pela ausência de qualquer temível manifestação.
Onofre sem se denunciar, soubera disso ao protagonizar outra aventura amorosa numa casa, mesmo em frente.
Mais uma vez, talvez por ausência de disponibilidade temporal, utilizara o servente. Desta vez o "affaire" correu mal, dado que sofreu um ferimento, do que resultou uma hemorragia.
Dali, foi logo procurar apoio no posto de socorros, mesmo correndo a versão de que, o alferes médico titular, apenas receitava aspirina para qualquer maleita.
Foi tratado pelo enfermeiro, cabo Simões, também oriundo da Gabela, que desaconselhou contactos com o clínico, Taxativamente, recorreria à circuncisão.
Já lhe ocorrera a seguinte questão, em pensamento:
- Pelo perfil, o alferes médico não seria de origem judaica?
Militar mirando do alto o horizonte visiual

Com a indispensável mediação do servente, o Onofre obteve também a experiência de um pequeno, mas inesquecível serão. Num terreiro, apenas com a luz do luar, a em todo o redor vários anciãos conselheiros reunidos, tratava-se da compra por alambamento de uma rapariga para casar.
Seria mais uma maneira de conhecer, como se processava a união e a resultante actividade sexual amorosa.
Tratava-se da forma usada pelo povo da Lunda, para a consumar uma união. A mesma consistia na introdução de um valimento, a pagar ao pai da pretendida.
Na questão, punha-se o problema do futuro noivo não possuir gado ou qualquer produto da terra para o "negócio".
Afinal, tudo poderia ser ultrapassado com dinheiro.
À rapariga, porque era bonita e tinha cabaço, era atribuído um valor de vinte e três mil escudos, um custo importante em 1963!...
A partir dessa interessante "encenação", o Onofre ficou a saber efectivamente, como era a prática do alambamento, dos quiocos.
O facto não passou, obviamente, de uma memorável recordação!...

Daniel Costa

terça-feira, 8 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

SUBLEVAÇÃO E "CACHIPEMBA"

Tropa instalada nas Províncias Ultramarinas, a partir de 1961, tinha sempre por missão de reprimir os focos de sublevação porventura existentes, enquanto ia ocupando o terreno, com o fim de evitar futuras infiltrações.
No destacamento da Portugália, não podia haver diferença, a ocupação tinha também o objectivo de procurar o controlo da região pela via militar.
Um posto de vigilância na fronteira do Congo, que ficaria a cerca de oito quilómetros da vila, era ininterruptamente ocupada por soldados do esquadrão eventual 350, com substituição diária.
Havia sempre um Jeepão e duas praças, que se rendiam no serviço, para as refeições serem levadas e tomadas ali em tempo oportuno.
O serviço militar ao aeroporto da Portugália, dedicado à Companhia dos Diamantes, sedeada na cidade do Dundo, relativamente próxima, era também assegurado por aquele esquadrão.
A missão visível mais importante, era consubstanciada, por visitas a várias fazendas e bairros quiocos, onde foram encontrados alambiques, destinados à fabricação duma droga líquida, a que se dava o nome de "cachipemba".
Dizia-se que a viciação, começava por definhar os consumidores estes, por falta de qualquer assistência médica, morriam pela certa.
Tornava-se evidente a necessidade da destruição de tais estruturas e o aprisionamento dos "industriais".
Podia ser vista assim a organização militar:
- Em campanha, um Batalhão comandado por um Tenente-Coronel, estruturado como uma cidade onde, uma vez que se compunha de todo o tipo de estruturas inerentes, com materiais de toda a ordem, desde medicamentos, comestíveis, geradores eléctricos, muitos combustíveis, como gasolinas, óleos, materiais de reparação, desportivos e outros.
Esquadrão, bateria ou companhia, comandados por um Capitão, eram por norma desdobramentos daquele, não eram tão completos, mas tinham grande poder autonómico.
Naquele esquadrão, o Onofre coordenava um núcleo saliente na organização.
Com o encargo dos géneros, juntavam-se muitas outras tarefas quase diariamente, como a da provisão de carnes.
Pose de humor

No fim de cada jantar elaborava a ementa para o dia seguinte, tendo em vista a essencial criação, dado o gosto para trabalhar em equipa, ouvia outros, como o soldado que se encarregava da cozinha ou o sargento a fazer parte, com a missão de escriturar os gastos, porém a tarefa que dizia respeito a todo o aprovisionamento para o rancho, era mesmo inerência de quem liderava o depósito da alimentação das praças.
É chegada a altura de se afirmar, que a alimentação era irrepreensível, o que sem dúvida, se devia à muita dedicação de Onofre e à boa colaboração do soldado cozinheiro que, ido também do Esquadrão 297, era conselheiro de excelência.
Ficam dois exemplos dessa interacção:
- Dias da inevitável dobrada dobrada era esquecida a regra que a "alta" organização militar tinha instituído, da porção destinada a cada homem, reduziam-se as doses, para se poderem aumentar, quando se tratasse de outras ementas, mais apetecíveis.
Vinho que, de servido apenas um copo, cada qual passou a poder servir-se do que desejasse, sendo que o gasto era menor, em virtude dos que preferiam regar a refeição com cerveja (era necessário comprar), deixavam de levar a dose da bebida que lhes cabia, para oferecer a um amigo. Afinal ele podia ir buscar mais!...
Refira-se que o trabalho do cabo Onofre e consequentemente, o do rancho não era nada facilitado, funcionando muitas vezes na base de simpatia e da humildade inspirada por este, em virtude do comando nunca ter tomado a iniciativa de, todas as manhãs, manter disponível uma viatura para as deslocações ao Dundo, onde era necessário levantar, sem sobressaltos, carne fresca para ser trabalhada a tempo da confecção dos almoços da tropa.
Era notório um maior privilégio individual dos oficiais do que a atenção devida ao colectivo, por isso mesmo menosprezado por certos motoristas escudando-se, sempre que convinha, no serviço do superior, para se escusarem ao trabalho da deslocação.
Algumas manhãs, chegou a instalar-se o pavor de não se poder cumprir, o levantamento do tipo de carne estipulado a servir-se, pelo menos à refeição do meio-dia.
As mulheres nunca deixavam de estar na mente de gente tão nova, como a que formava o esquadrão.
Nas aldeias, as indígenas, comentavam as interessadas, que não valia a pena dedicarem-se aos militares, porque afinal os da milícia, além de possuírem mais "alangongo" (dinheiro), eram mais generosos na atribuição de quantias a compensar "favores".
Não esquecer o facto da Diamang possuir perto da Portugália, um quartel com a sua tropa, organizada como qualquer milícia, com o intuito de defesa da sua actividade.
No tocante ao elemento feminino étnico tudo era diferente do conhecido, na cidade da Gabela. Um belo dia, dois militares, deambulando em busca de sensações amorosas, na periferia da vila, meteram-se com duas mulheres:
- De imediato saltaram os respectivos maridos e moveram-lhe uma perseguição, que só terminou, com os lesados à porta das instalações de trabalho do comandante, a quem formalizaram queixa, enquanto os fugitivos, com invejável preparação física se misturavam na caserna com os colegas.
O Capitão Ferrand de Almeida, pouco contente com o sucedido, à hora da refeição do almoço, ordenou a formação de todo o contingente, onde lançou a palavra cobardes, para referir os então desconhecidos. Os mesmos podiam obter a sua benevolência, se fossem até ele com uma contrita confissão. Disse no discurso!
O Onofre sabia de quem se tratava, pelo desabafo de um dos intervenientes, Leonardo, único conterrâneo e dos maiores amigos.
Conhecendo bem a filosofia do comandante, pensou numa maneira eficaz de defesa dos implicados.
A partir daí, de imediato foi conferenciar com o Sebastião, outro amigo também conhecedor do "terreno".
Depois de se estabelecerem os prós e os contras, os rapazes foram aconselhados a denunciar a sua culpabilidade.
Tudo correu de acordo com a melhor previsão e antes do repasto da noite, com tudo em formatura, para ouvir o responsável máximo dizer:
- Afinal detinha o comando de um esquadrão de verdadeiros homens, dos que tinham sabido dar a cara pelos seus erros, pelo que ficara satisfeito.
- Era assim Ferand de Almeida!...

Daniel Costa