quinta-feira, 17 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

MUITA GENTE FAZ A GUERRA

Ainda exposto à intempérie, o numeroso grupo retomou caminho, para uma etapa atribulada, com o atascar de várias viaturas, acabando por pernoitar naquele caminho, sempre de terra areenta e batida, perdida algures, ainda em pleno distrito da Lunda.
A dezasseis, sempre debaixo de chuva, conseguiu-se a libertação da lama e de novo se deu o seguimento da viagem.
Perto da povoação de Quissange na aproximação da hora de almoço, um dos carros, onde na cabine viajavam o médico e a esposa, com o respectivo motorista, carregado com um pesado gerador eléctrico, acabou por tombar numa ravina, não houve danos nem ferimentos.
Habituados àquelas variações atmosféricas tropicais, os homens civis do volante, conseguiram impor os seus apelos, perante o comandante da coluna, capitão Ferrand de Almeida, para que mandasse parar todo o contingente, até que o terreno enxugasse.
Era assim, que as grandes viagens, naqueles terrenos e com condições atmosféricas adversas, os haviam traquejado!
Arreados os seus equipamentos de viagem, enquanto os militares iam tomando a refeição do meio-dia, a partir das caixas individuais, cozinharam as suas batatas com bons nacos de bacalhau, em fogueiras improvisadas.
Depois de tudo saciado, como por encanto, parara de chover, mediando o espaço de tempo suficiente para que o caminho enxugasse, como se as bátegas de água caíssem sob sol ardente, porque em pouco verificara-se a total secagem do terreno.
Chegou o tempo de erguer a viatura caída, parecendo que a tragédia assolara aquele contingente militar em movimento.
Tudo foi resolvido, com a astúcia dos profissionais civis, utilizando o cordame, que sempre os acompanhava, como medida preventiva. Fez-se jus ao dito popular: “Muita gente faz a guerra”! Um deles postou-se a comandar a melindrosa operação, todas as mãos se agarravam a cordas amarradas de todos os ângulos, a fim de se estabelecer equilíbrio.
Com a grande força exercida, em pouco tempo estava a viatura levantada e em condições de seguir viagem.
O Onofre teria de confessar ter aprendido ali muito, de como era o modo vivencial daqueles destemidos motoristas da África negra.
Ainda a dezoito de Março, estando-se no ano de 1964, passou-se por Nova Gaia, além de várias povoações. Era já noite estava-se a entrar os portões do aquartelamento de Malange, já em novo Distrito de Angola, com sede naquela cidade, onde se fez a refeição, recorrendo á famigerada ração de reserva.
A dormida dessa noite teve também lugar naquelas instalações, de novo junto das respectivas unidades de transportes.
Chegados às dez da manhã do dia seguinte, dezanove, perto de onde existem as grandes cataratas de água de cento e oito metros de altura, uma das jóias de Angola, proporcionadas pelo caudal do rio Lucala, na altura designadas por Duque de Bragança.
Depois atingiu-se a picada que ia dar a Cacuso, com a inevitável deslocação ao aquartelamento local, pelo comandante para deixar as saudações militares. A oportunidade foi aproveitada pelo Onofre que, por correspondência, tivera conhecimento do facto de ai estacionar um primo, a que fez também a visita.
Tendo havido pouca demora, seguiu-se a viagem, com passagem por Lucala e Salazar, onde Onofre teve outro casual encontro com um conterrâneo, que fez chegar à família o estado em que o encontrou:
- Cheio de pó, mal dormido, no fundo relatou a odisseia.
Não seria para menos, se bem que para o visado, não passasse de mais uma aventura, para contar.
Depois da passagem por Dondo e Catete, povoações já conhecidas, finalmente a vinte já entrada a noite, chegou-se ao Grafanil.
No famoso campo militar, ponto de chegada e abalada da maioria dos elementos que, iam fazer frente à guerrilha, o esquadrão eventual 350, ficou abruptamente sem qualquer cadeia de comando, como se entrasse na orfandade, ninguém mais se preocupou.
Cada qual procurou os colegas do Esquadrão de origem, a eles se juntando para orientações.
Posto isto, depois das respectivas e necessárias providências pessoais, cada qual tratou de respirar fundo e passar uma noite de tranquilidade, dormida no chão sob abarracamentos provisionais militares.

Daniel Costa


2 comentários:

  1. Daniel como vai? Aqui passei e estive a ler o seu post com muita atenção, francamente gosto de história e daí o meu agrado por estas leituras. Alguém tem de escrever a história e é com contributos como o seu, que se pode um dia deixar à memória das gerações futuras a sua história, referências do passado das nossas origens. Parabéns.

    Desejo-lhe um bom fim de semana.
    Bj

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  2. parabéns.muito interessante oq postou.
    bjos

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