quarta-feira, 26 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

ATÉ À MARGEM DO LUACHIMO

No outro dia aconteceram ainda mais voltas á cidade de Nova Lisboa, onde Onofre bateu todo um rolo de películas.
Entretanto, num bar teve o grande prazer de encontrar camaradas, com quem tinha convivido em serviço na campanha do Norte, na Fazenda Três-Marias.
Veio a hora de formatura, dos dois esquadrões na frente da Escola de Aplicação Militar, onde se apresentou o Tenente-Coronel Spínola discursando, mais para a sua tropa, a do Batalhão 345, no seu peculiar estilo populista, visando todo o pessoal em trânsito, uma vez ser tudo de mobilização do Regimento de Cavalaria 3 de Estremoz.
Ainda no dia vinte e seis de Julho, preparam-se ambos os esquadrões na Gare Ferroviária da cidade, para seguir de comboio até à vila do Luso, quando se deparou uma enorme surpresa:
- A Estação tornara-se pequena para conter tanta gente que ali ocorreu, a assistir ao embarque do contingente militar em trânsito.
Uma despedida, com foros de grande acontecimento, só comparável ao embarque na Estação de Caminhos-de-Ferro de Faro, cujo Esquadrão 297 pomposamente protagonizou.
Foi uma fenomenal surpresa, visto que muito poucas famílias eram de militares em viagem, ao contrário do que tivera acontecido na capital do Algarve.
Por volta das três da tarde, sob enorme ovação, partiu-se numa composição ferroviária tosca e lenta, a ponto de em certa zona, naturalmente de razoável população colonial, acorrerem bastantes colonos a aplaudir.
Como se tratava de gente, naturalmente com muita garra e força inventiva, não tardou que alguém se lembrasse, que o generoso gesto se havia de materializar com garrafões de vinho.
Contra o que a ousadia supunha, depressa apareceram as tais vasilhas, que o desejo misturado com o sufocante calor, logo fez tragar, enquanto ao longo da estrutura rolante, continuavam correndo com as ovações.
O comboio ia com tais vagares, que deu tempo ainda para devolver o vasilhame esvaziado.
Logo após, foram-se desvanecendo os ecos de tanto carinho que, em terras distantes tinham chegado aos que passam para cumprir missão militar, em defesa de terras ditas de todo o país disperso pelo mundo.
Há muito o sol tinha entrado na penumbra e de passagem avistaram-se as luzes de Silva Porto.
Depois de passada a noite em viagem, em composições, apenas com uma fila de lugares, por conseguinte, com um corredor junto às janelas de cada carruagem.
Aquela etapa terminou na vila do Luso.
Com pouco mais que uma mirada à vila, o comboio militar, voltou de novo às camionetas por estradas de veredas, até à povoação de Dala, onde houve paragem afim de se tomar um refresco.
Eram vinte e quatro horas quando o novo esquadrão chegou à cidade de Henrique de Carvalho que, na verdade, localmente sempre se designou pelo apelativo nome de Saurimo.
Postal s sépia, Lembrança do Filme
"ROMANCE DO LUCHIMO"
(Tipo do notável quioco)

Mesmo depois de em 1923, o General Norton de Matos lhe ter atribuído o nome daquele grande explorador de terras africanas, nomeadamente da Lunda, cujo Distrito fundou e do qual viria a ser primeiro governador em 1845.
Na verdade, um conterrâneo com a especialização de cozinheiro da tropa, o que foi pretexto para um resto da noite, de vinte e sete para vinte oito de Julho, ser passada na cozinha, entre muitas recordações e petiscos.
Só às quinze horas acabou por se partir debaixo de um sol abrasador, à africana, sempre em camionetas civis.
Para um observador, como o Onofre, a viagem até Camissombo, fazendo a travessia do planalto da Lunda, apresentava uma vegetação a tornar a paisagem lindíssima. Assistir-se ali, em cima da caixa da camioneta ao pôr-do-sol, como aconteceu torna-se deslumbrante, é um sonho de uma vida.
Às vinte e quatro horas, quando se deu a chegada, jantou-se e pernoitou-se, encontrando-se cama no soalho de cimento, numa dependência do aquartelamento daquela localidade, formado por militares idos também da metrópole, o que sempre se tornava evidente, tendo como Segundo Comandante, o mesmo que já tinha exercido essa função na recruta de Onofre em Elvas.
No dia seguinte pela manhã, foi feito o resto do percurso em estrada de terra batida, sempre plana e permanentemente ladeada de bambús, outra maravilha para a vista.
Observou-se o impensável, cerca de apenas duas horas de viagem, de Camissombo à cidade de Dundo, bastaram para dois alferes terem ingerido uma grade de cervejas, vinte e quatro garrafas que tinham adquirido.
Coisas de alarves abastados, como eles de facto eram, a ponto de um aventar que o dinheiro recebido (era acima da média) não lhe chegar para as despesas feitas em campanha, e tanta gente a morrer de fome!...
Destinada à vila da Portugália, periférica da cidade diamantífera do Dundo, antes do almoço estacionou, o esquadrão eventual 350, no destino, em aquartelamento improvisado de casas pré fabricadas, com localização junto ao rio Luachimo, que dera nome ao filme de Baptista Rosa, de promoção da Companhia Diamang, a que também a tropa ia dar protecção.

Daniel Costa


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