quinta-feira, 20 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

A MONTANHA E A CIDADE

Além da montanha por onde o comboio, Gabela - Porto Amboim fazia trajectória, outra de menor altitude bem visível da cidade ficou para Onofre como marca indelével da capital do Amboim.
Aquela montanha, juntamente com o cultivo do café, que marcava a grande riqueza da própria cidade da Gabela com muitos "arimbos" (quintas) em redor eram dignos de nota,
Um militar, se atento, não podia de deixar de admirar e até fixar para uma aprendizagem de futuro, tendo em conta não estar a fazer carreira no exército.
Contribuía também para essa riqueza a forma de alimentação da flora do café, Era feita por meio de folhas dentadas das muitas árvores que se encontravam plantadas entre os cafeeiros, estam caíam no chão e desagregavam azoto e outras substâncias que iam caindo até á raiz das plantas, alimentando-as.
A montanha que se avista da cidade da Gabela

Na altura a população do Amboim, que se estendia por uma área de 9.879 quilómetros era recenseada em 3.076 homens civilizados (leia-se brancos) e 92.176, não civilizados.
Dos não civilizados, alguns também possuíam os seus pequenos "arimbos", com plantações de cafeeiros cujo produto de inferior qualidade, era vendido aos vizinhos brancos.
A explicação para a inferioridade era a de, os respectivos agricultores não se esmerarem na manutenção do cultivo. O que a terra dava bastava-lhe para o sustento, pelo que após a venda gozavam o produto monetário, sem outra preocupação do que esperar nova colheita em safra, que apenas o ritmo do tempo haveria de trazer.
Não esquecendo, que o Esquadrão se regia, sobretudo pela actuação militar. Controlavam-se porém outras sagas, como a das Madrinhas de Guerra, em grande parte objectivando a sua "promoção, como então era voz corrente, podiam almejar ao namoro o que muitas vezes aconteceu.
O Onofre chegou a receber correspondência de dezassete. Por cada uma que deixada de escrever, o que estava constantemente a acontecer, era mister arranjar duas. Não obstante a Ana Zé, com a juventude dos seus dezasseis anos, com muitas cartas a trazerem alguma conversação sobre lições do liceu que, frequentava, eram de um sabor inebriante, ao serem lidas e relidas com toda a atenção.
A Rua principal da cidade da Gabela

O jogo de cartas acabara, definitivamente as amizades mais próximas, mercê de novo enquadramento mudaram. Porém os verdadeiros amigos nunca deixaram de o ser.
Foi assim que se verificou uma aproximação de pontos de vista do Onofre com o Soeiro, um cinéfilo nato. Ambos começaram a engendrar o coleccionismo de fotografias de artistas. Ao tempo um homem só se fazia a fotografias de artistas mulheres, por questões económicas, cada um dos consórcios escrevia a uma vedeta diferente, só depois de uma resposta conclusiva, o outro avançava com a solicitação.
As moradas eram extraídas, normalmente de uma publicação semanal em revista chamada PLATEIA, era muito acessível e tinha secção própria de moradas de agentes de artistas a actuar em espectáculos ou a editar discos, onde estavam sedeados os contactos.
Acrescenta-se, para indicar ter o mesmo periódico também secções para os mais variados pedidos, como de namoros, trocas de correspondência, grande parte se incluíam Madrinhas de Guerra.
Enfim, corriam outros tempos!...
Só a vinte e três de Abril, chegou a vez de Onofre entrar de cabo da guarda ao paiol situado obviamente, num descampado perto das traseiras do aquartelamento.
O serviço era efectuado por um grupo de três elementos, composto por outras tantas praças uma delas, cabo a comandar a força, que se revezava diariamente, um dos quais aproveitava a noite para a passar no "muceque" onde tinha a lavadeira namorada.
Nesse serviço e em todos coube ao Onofre a primazia, depois era norma este voltar de madrugada.
Mais tarde o estado de graça iria mudar como se verá.
Nessa altura já o Capitão Alves Ribeiro tinha reunido todas as praças em formatura, mostrando-lhe o seu apreço e ao mesmo tempo falar do tema mulheres.
Ao contrário do que podia estar nas mentes, o comandante só alertava para a possibilidade de haver desacatos, era evidente que em muitas "sanzalas", o dono da casa que nunca que era visto, ficava voluntária e temporariamente desalojado.
Na alocução ficou dito que, apesar de tudo se viesse a haver algum ferimento, ficaria muito desapontado se acontecesse a algum militar, cujo podia sempre contar com o seu empenhamento pessoal.
Como é evidente, todos se congratularam, porque foi frisada a pena de não poder distribuir uma pistola, para acompanhar sempre cada militar.
Onofre que, se fazia acompanhar invariavelmente de uma granada ofensiva, material de guerra que contra as regras, só viria a entregar no Grafanil, no fim da comissão, sem revelar o segredo concluiu que agia acertadamente.

Daniel Costa

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