segunda-feira, 17 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

A CIDADE DA GABELA

Tinha chegado a altura de todo o Batalhão 350 passar dois dias ao Grafanil, local de passagem para o Quanza Sul onde ia estacionar em serviço.
A mesmo tempo um prémio, pelo tempo em operação a Norte, onde se estava a desenvolver o terrorismo, uma das causas próximas a originar a Revolução de Abril de 1974.
Ainda a 7 de Abril de 1963, toda a gente, em formatura ouviu ordens e boas palavras do respectivo comandante, para gozar bem a breve estadia na cidade de Luanda.
No mesmo dia em que o Onofre, com a sua camaradagem, experimentou as delícias de um jantar num bom restaurante da cidade, a mesma que num exame de instrução primária, naquele tempo chamado de segundo grau, complacentemente, na oral o examinador fazia lembrar a certo examinando o nome da capital de Angola com o trocadilho - "terra onde a lua-anda".
No dia seguinte deu para verificar que o inóspito Grafanil de Janeiro de 1962, em que eram estreadas as primeiras casernas, em 1963 podia ser visto como uma grande cidadela.
Já não havia carros civis a parar a toda a hora, junto aos portões, prontos a transportar soldados disponíveis até à cidade, nem as camionetas militares a hora certa, para condução do pessoal que desejasse passar as horas de folga nas delícias da civilização.
Havia casas de banho em lugar de sentinas e ainda duas salas de cinema a funcionar diariamente. Como a exigência se avolumara, já se formavam carreiras regulares de "maxibombos" (autocarros), para a terra que os militares estavam a transformar numa novíssima "Somorra", bem enquadrada pelo Atlântico, naquela baía africana linda de morrer.
No dia seguinte ainda se dormiu em pleno Grafanil e como, ao fim e ao cabo, o que havia ali mais a fazer era gozar o máximo na capital portuária da África Ocidental Portuguesa, foi esse o estímulo que cada qual concedeu a si mesmo.
Na madrugada do dia nove, terminado o efémero idílio, o Esquadrão retomou a sua rota para o concelho do Amboim, com a capital sedeada na cidade da Gabela, onde estacionou o grosso, com o comando.
Para Onofre toda a novidade era aventura, estava a dar-se uma nova fase da mesma, para o que contribuía, todo aquele magnífico cenário africano.
Do Grafanil passou-se pelo Dondo, onde teve lugar o almoço, depois aproveitou-se para uma visita à famosa barragem de Cambambe, donde se seguiu viagem até Quibala, com a passagem da noite, em cima das caixas de camionetas civis, com algum frio, a parecer estranho em África, além da habituação em contraste adverso no norte.
Às quatro da manhã seguiu-se até ao destino, a cidade da Gabela.
Na entrada do que sendo uma cidade ainda nova, não deixou de se anotar, vir do uma chuvada, que obrigou toda a tropa a ter de esperar que secasse o trilho de terra batida, que provia o acesso à cidade. Para conseguir percorrer as poucas dezenas de metros que levavam ao primeiro edifício, o que viria a servir de quartel, enquanto a companhia a substituir se encontrava instalada noutro local, com o fim de transferir o material e missão naturalmente.
Edificio onde o Esquadrão ficou sedeado e parada militar

O contingente substituído novas experiências transmitiu, mesmo a nível de praças.
A grande e interessante surpresa, tinha a ver com as facilidades encontradas no relacionamento com mulheres.
Ainda estava longe de ser conhecida a revolução sexual, que já era factual por aquelas paragens.
Agora com a acomodação no edifício, que fora um antigo presídio colonial, cujos desterrados da metrópole motivaram, dizia-se, a fundação da Gabela, apontavam mesmo a origem de alguns comerciantes estabelecidos, o próprio Onofre tinha tido como companheiro de trabalho um ex-presidiário que parara naquele desterro.
Estava-se pois na capital do Amboim, na província do Cuanza Sul, uma das zonas agrícolas mais ricas de Angola. Além de muitos "arimbos" (fazendas), onde se cultivava uma das melhores variedades de café do mundo, integrava a grandiosa C.A.D.A. - Companhia Agrícola do Amboim, servida por comboio até à vila de Porto Amboim, na orla marítima, com o seu porto para escoar a grande produção verificada.
Após a definitiva instalação, os militares tudo jovens rapazes, evidentemente -"com eles nem o diabo quer relações" - começou a ser posto em prática tudo o que ali se tinha aprendido, extra obrigações militares.
Em breve, cada qual tinha a sua lavadeira num dos "muceques" (aldeias de sanzalas) periféricos e a consequente "cubata", onde passar a noite em comunhão idílica com a indígena que passara a tratar da sua roupa.
Tudo se iniciava assim:
- Queres ser a minha lavadeira?
- "Eu querer minino, mas só lavar roupa, pés não lavar, não ser dessas"!...
Era a deixa essencial, para a mulher se fazer conquistar, pois nessa mesma noite já a "cubata" estava à disposição para o “lava-pés”, uma maneira mais airosa de referenciar a acto sexual.
Assim quem não tinha o nome na ordem de serviço, podia ser encontrado a passar a noite numa das "palhotas" do bairro Sousa ou do Aricanga em agradável companhia feminina.

Daniel Costa

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