sábado, 8 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

COMUNICAÇÕES OPERACIONAIS

Todas as tropas regulares apresentavam serviços de Transmissões, assim como as companhias militares eram acompanhadas de grupos próprios de comunicações.
O Esquadrão denominado pelo número 297, não podia estar fora de tão elementar regra, representava-o no comandado um sargento especializado com curso militar próprio.
Além do responsável, o núcleo era composto por outros especialistas, entre soldados rasos e cabos, sendo um formado na decifração de mensagens codificadas.
Tempo de folga, simulação de transmissão

Da parte da UPA, o grupo opositor a época, na região tinha forçosamente os seus modos de comunicar entre as diversas posições e comandos, normalmente situados fora das fronteiras do território.
Com a colaboração do "arrependido" Lopes Cabanda, conhecedor da zona envolvente, suas picadas e respectivas movimentações, concebeu-se uma operação para capturar dois elementos, que se sabia servirem de "correios", no caminho a percorrer, na rudimentar execução das normais missões de transporte de informações.
Sob o comando do Alferes Ribeiro, o seu pelotão levou a cabo a missão.
A certa altura surgiram dois vultos, personificando o motivo da emboscada.
À ordem:
- Alto!...
Não houve cedência, o que bastou para ser disparada uma saraivada de balas de G3 a perfurar ambos à altura do tronco.
Como será de imaginar, vieram a tornar-se em mais duas baixas infligidas aos rebeldes.
A parte interessante do episódio foi os atiradores, que tinham chegado ao Esquadrão na zona operacional, por castigo e consequente expulsão aplicados na origem
Talvez por deformação, apresentava ares de verdadeiro terrorista, mas na presença dos ainda moribundos, deram uma de bonzinhos, exclamando!...
"Levantem-se que a tropa é amiga, trata bem os doentes"!...
Obviamente, não demorou a que se registassem as duas baixas.
A operação foi concretizada dentro do previsto.
Só que depois de geralmente conhecidos os contornos, chegou a ocasião de ser encontrado ali um motivo de piadas de divertimento, os protagonistas principais, durante algum tempo ouviram, com gozo a glosa:
- "Levanta-te a tropa é amiga!... pum!... pum!... pum!...
Situações que iam aparecendo e serviam de motivos de brincadeira, no obrigatório isolamento, ajudando-a passar-se menos monótono.
Pose: amostragem de galões de capitão de casaco
aprendido aos guerrilheiros da UPA

Deve estranhar-se esta operação ser considerada importante e de êxito total, mesmo só com as baixas dos dois únicos "turras" emboscados, por todo um pelotão de cerca de trinta homens.
Porém, como todas eram sempre de fraca produção, assim determinava a própria natureza do conflito, levado a cabo em meio dominado por uma exuberante vegetação.
A quinze de Fevereiro, uma coluna do mesmo Batalhão, dum Esquadrão, sedeado na Fazenda Mucondo, em deslocação para Muxaluando, no caminho sofreu um ataque de apenas um tiro.
Foi dirigido a um Jeep, transportando o Alferes Ferrão no comando da coluna.
Foi este oficial, a primeira vítima do novo sistema, no Batalhão 350, morreu já no posto médico do Tari, depois de ser tentada a reanimação, pelo médico residente no 297, Azevedo Gomes.
Os guerrilheiros da UPA estavam a entrar numa táctica selectiva, a coberto da vegetação:
- Um tiro, uma baixa, visando normalmente o militar de patente mais elevada, o elemento que então seguia no Jeep da frente, que embora blindado passava a ser o alvo a atingir.
Chegara uma nova fase da insurreição! Tinha entrado em acção o que depois veio a ser referenciado por "mata alferes", o desertor do exército português António Fernandes, no aproveitamento da sua excepcional pontaria.
No dia vinte e três, ainda em Fevereiro, reuniu em formatura o Esquadrão para ouvir a leitura, pelo próprio Comandante, de um louvor colectivo que lhe fora atribuído pelo Comandante em Chefe do Batalhão, por relevantes serviços prestados.

Daniel Costa

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