sábado, 22 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

GUERRA E DIVERTIMENTO

Os dias de folga eram sempre passados alegremente, das mais diversas formas, mesmo numa cidade que só tinha uma sala de cinema a funcionar apenas um dia da semana que, era de festa e um café a trabalhar, para a tropa havia muito para entretenimento, até os dias em que se alinhava, em tarefas exteriores eram salutares, sobretudo nos fins de semana pois havia o próprio A.R.A. onde se efectuavam bailes.
Era dali que emanavam os desportos, como o Basquetebol e outros, de que aquele clube, mercê do recrutamento no Esquadrão, passou a vencer tudo em que entrava.
Além de muitos outros de grande qualidade, no 297 estava um dos grandes basquetebolistas do Benfica de Lisboa, cuja mobilização interrompeu a carreira. Ainda havia o Sporting Clube do Amboim, também a beneficiar de grandes jogadores sedeados no Esquadrão da cidade.
Estar de ronda, um sargento a comandar, coadjuvado por um cabo e um soldado raso, serviço de vinte e quatro horas, dava para correr a cidade e aldeias de "sanzalas" periféricas, parar aqui, além e por aí fora.
Em dias de cinema a ronda militar era-lhe também destinada. Assistia-se à exibição de filmes, sempre de pé nas laterais.
Vários outros acontecimentos lúdicos contavam com tipo de serviço, para tudo procurar controlar com a sua presença.
Piscina da cidade

Assim se podia ir reparando no facto de estes acontecimentos serem apenas destinados a brancos. Os pretos presentes, serviam apenas nos serviços inerentes.
Chegados a trinta de Abril, um pequeno grupo, onde se incluía o Onofre, foi em socorro de um Jeepão que, emanando do Esquadrão, fora de serviço a Quibala e no caminho voltara-se.
Depois de tudo resolvido, só já na manhã de um de Maio, se deu o regresso ao aquartelamento, com duas grandes lebres encandeadas com os faróis da viatura, a seguir caçadas com o rodado.
Na mesma noite, depois de cozinhadas em pitéu à moda africana, foram servidas em verdadeiro banquete aos apanhadores e amigos mais próximos.
A onze de Maio, uma brigada com a inclusão do Onofre, foi destacada para recolher areia, objectivando obras no aquartelamento. Passando na possessão de um agricultor branco, este ofereceu um agradável lanche a todo o pessoal.
Num serviço de ronda, que tinha saído por escala a integração do Onofre, foi apanhado um delinquente, em virtude de ter rapinado setecentos Angolares a um colega do Esquadrão. Como mandavam as regras, fez-se a entrega do rato ás autoridades de polícia local, sendo feita a recuperação. Estava-se a dois de Junho de 1963.
No Domingo seguinte, dia dez, veio à Gabela o Capelão, do comando geral em Novo Redondo, celebrar missa por alma do primeiro defunto registado no Esquadrão, morto em combate, cujo corpo ficara a jazer no cemitério militar de Muxaluando.
Voltou a registar-se uma jornada de grande consternação.
Em dezassete de Junho, assistiu-se a um jogo de futebol, num campo junto ao "muceque" do Aricanga entre a equipa local e a Cavalaria tendo ganho, obviamente, a tropa por 3 a 1.
A dezanove houve a visita do Comandante Militar do Sector, Brigadeiro Schult, ao Onofre coube integrar o núcleo de militares, que no pequeno aeroporto, guardava o avião que transportava a comitiva, pelo menos evitou o incómodo que é a presença, em formatura numa Guarda de Honra.
No âmbito das habituais festas da cidade da Gabela, houve uma oportunidade de poder assistir-se à exibição de um grupo folclórico, composto por nativos, que interpretaram modas portuguesas e angolanas, mostrando uma boa performance. Na sequência, além de muitas actividades lúdicas, assistiu-se a um encontro de basquete entre a Mocidade Portuguesa Feminina e a Masculina.
No dia sete de Julho, Onofre, foi convocado para integrar um grupo pertencente a um pelotão de nativos que, vindo do quartel de Nova Lisboa, estava presente no improvisado alojamento adido ao Esquadrão.
Só o alferes era branco, de modo que sendo de praxe ter a companhia, os serviços de um cabo com quem dialogar o que assim acontecia.
Saiu-se de madrugada numa missão denominada de psico-social. Estava muito frio, não obstante isto passar-se em África. O alferes já habituado, seguia agasalhado com uma manta, conselho que deixou.
Depois tudo correu bem, actuou-se na "libata" (quinta) do Nhuma a razoável distância da cidade, depois de hasteada a Bandeira Portuguesa, os dois brancos a faziam de enfermeiros e psicólogos, ministrando vários medicamentos e verificando que aí o português, era uma língua ainda não assimilada, o que já deixara de ser estranho.
Por fim os titulares da "Libata", sempre presentes, mandaram servir uma saborosa churrascada, verificando-se que os militares pretos, tropa de segunda, como constava da própria lei militar, tiveram de comer espalhados pelo soalho da sala.
No dia seguinte, Onofre foi chamado ao Capitão, o que nunca constituíra problema para o visado,
Mais uma vez, a convocatória trazia bons augúrios, foi dito:
- O nosso alferes gostou da tua companhia e pediu-me para seres sempre tu a ir com ele, pensei que não te importarias e dei o meu aval. Houve cordialidade, ainda que vinda de um Comandante formado na Cavalaria parecia elogiosa.
Mercado da Gabela

O Onofre por mais três vezes desempenhou com agrado aquelas funções, porque terminavam sempre com a inenarrável churrascada africana e jamais esqueceu a manta, para se agasalhar, nas frias madrugadas daqueles sítios.
No dia dezoito de Julho, o Onofre assistiu a uma sessão de cinema no Salão do "muceque" Aricanga, frequentado apenas por indígenas, onde os militares brancos, da classe de praças, passavam sempre alheios a qualquer tipo de descriminação. Foi exibido o célebre filme espanhol "A Rapariga das Violetas", com Sarita Montiel.
Chegava-se ao fim de Julho de 1963 e era voz corrente, ir formar-se um novo esquadrão a partir de todas as unidades do 350 e outro do 345, comandado pelo Tenente-Coronel António de Spínola, também no Sul, a que afinal tinha pertencido o grande 297, ainda no quartel de Estremoz.
Dos dois cabos especializados em metralhadoras pesadas, dizia-se que avançaria um, pelo que o Onofre, apesar de ser o mais antigo, como indicava o número, não duvidava que, a ser assim, por razões particulares de estratégia seria o designado para uma outra grande aventura.
A vinte e três, realmente, foi substituído no paiol, onde tinha entrado de serviço, por ter sido escolhido para o tal esquadrão eventual 350 destinado ao território da Lunda Norte.
Na altura o comandante do Esquadrão viera a saber que em todos os serviços ao paiol era recorrente haver quem se ausentasse.
Reuniu todos em formatura, os que ficavam seus comandados para os informar que, a partir daí, qualquer faltoso seria punido.
Sabendo como a comandante Alves Ribeiro actuava disciplinarmente:
- Quando avisava, esquecia todo o passado, daí para a frente era como "S. Vicente não perdoa a são nem a doente".
Ouvindo um cabo "tipo chico esperto" com tarimba cidade, ainda com pouco tempo de Esquadrão avisou-o, ao que respondeu:
- Não seria bem assim, o Capitão não podia ver tudo.
Ao mostrar tamanha insensatez, mesmo depois de aconselhado, acabou por ser o primeiro, quiçá o único, a ser punido com os respectivos dez dias de prisão, cujos efeitos em clima de guerra só se faziam notar, no acto de receber o pré, visto esses serem brancos para o efeito.

Daniel Costa


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