quarta-feira, 28 de abril de 2010

AMOR NA GUERRA


A COMUNICAÇÃO SOCIAL

Abordar o conflito que as tropas portuguesas começaram a enfrentar em Angola, logo em 1961, sem mencionar o quanto foi retrógrada a comunicação social, cuja atenção foi desviada propositadamente, da missão que lhe cabia na circunstância, pelos poderes instalados é de primordial importância.
Em 1962 a Televisão, dava passos de apenas cinco anos, pelo que não se vê algo de televisionado, a informação limitava-se à oficial, do princípio do conflito (da maka, no dizer local).
Numa plantação de ananazes

As rádios ainda estavam longe de manter sinal aberto, durante vinte e quatro horas. Apenas a Emissora Nacional tinha o seu correspondente, que não ultrapassaria o perímetro de Luanda e os grandes jornais, pela limitação censória, só observariam de Lisboa o que se passava no Ultramar.
É interessante verificar o facto, de só mais tarde a Radiotelevisão Portuguesa gravar e transmitir, pelo Natal, aqueles insípidos programas em que os elementos militares em fila, ditavam algumas palavras, impostas pela censura para familiares e amigos.
A mesma transmissão começou por ser cometida à Emissora Nacional, que os difundia logo em 1962, numa altura em que o próprio Onofre disse não, à oportunidade proporcionada a partir da região dos Dembos.
Com a grande distância temporal poder-se-á questionar, mesmo tendo em conta a política da época, o quanto uma maior divulgação seria importante.
A célebre frase de Salazar – “para Angola e em força”, perdia-se assim nos meandros da sinistra comissão de censura.
Só de uma política passadista!...
Ao elaborar este trabalho, há talvez o interesse no ineditismo de se basear apenas no testemunho vivencial de uma praça, porquanto o tema tem tido muitas abordagens, ao que se pode saber, a maior parte por escritores que ali serviram como oficiais, com interesses pessoais interrompidos, o que torna as visões extremamente diferenciadas e até antagónicas.
Ouvindo um dos os dos rarios rários e confraternizado

Acrescenta-se para apoiar a tese desta grande falha, o facto de ainda por volta de 1967, época contemporânea, ter tombado no conflito do Vietname um Repórter de Guerra português, ao serviço do jornal "Diário Popular", de apelido Câmara Leme.
Nos documentos da guerrilha, que a Televisão vem passando, mesmo sendo posteriores aos primeiros anos, não se conseguirá ver algum episódio a que não se possa atribuir o rótulo de encenação, ou propaganda política, como no caso da retoma de Nambuagongo.
Entre os muitos sucessos, algo de grave ocorreu no aquartelamento do Esquadrão. O Comandante estava ausente, em gozo de férias na metrópole.
Interinamente fora substituído pelo tenente Araújo, não teria sido acaso a ausência do Capitão, porque se sabia o rigor da sua actuação em qualquer circunstância, nos actos da sua competência. Num determinado dia ao jantar, aconteceu o que ficou demonstrado, ser de verdadeiro levantamento de rancho.
Ninguém tinha vontade de comer!...
A alegação geral, para a inibição de se entregarem à degustação daquele jantar, era a de se ter ingerido algo mais apetecível antes.
Pareceria estranho, se não tivesse chegado o aviso a todos os militares, até com a cumplicidade dos cozinheiros.
O posto de Oficial de Dia, obrigatoriamente comum em todas as unidades, dispensava essa ordem de serviço, em cenário de alerta permanente, que a circunstância revelou ser o alferes Faria a deter o cargo, naquela jornada.
O Onofre, mesmo estando de serviço de vigilância no torreão, com a sua observação, apenas detectou um militar a "fingir" que comia, naturalmente de mentalidade mais fraca, instado pelo Oficial de Dia, a provar o rancho destinado para aquela refeição.
Tanto bastou para o levantamento não ter sido considerado, o que traria consequências disciplinares ao mais alto nível.
No dia seguinte, mesmo na interinidade, o Comandante do Esquadrão deslocou-se a Muxaluando, local onde estava a logística do Batalhão, para apresentar os factos ao Comandante da expedição.
Verificou-se assim, que tinha ocorrido algo de muito grave, originando uma formatura onde foi dado conta das providências levadas a efeito, para que tão relevante ocorrência ficasse sanada.
Ficou registada uma frase proferida pelo tenente Araújo de certo modo humanística.
Foi dito assim: "O que se faz nem tudo é por mal"!
Terá sido usado também ao conferenciar com o Comandante.
O pensamento pode parecer vulgar, mas pronunciado na altura e a culminar um caso de reivindicação justa, embora de muita gravidade no seio forense, revelava mesmo um grande sentido de humanidade.
Houve depois retaliações!
A seu tempo regressado o Capitão Alves Ribeiro, pretendeu fazer justiça, atribuindo algumas sanções com a respectiva expulsão.
No caso específico, a coerência, só podia determinar um culpado, o exclusivo alvo da contestação, o furriel especializado na manutenção alimentar.
De qualquer modo, ficou demonstrado, se isso fosse necessário, que a grande coesão do 297 era obra de um comando eficaz.
A acção reivindicativa, um alienável direito, estava em causa uma alimentação condigna, o que não acontecia.
Deve admitir-se, que o território de Angola exercia uma grande atracção, não obstante estar-se a viver uma guerrilha, num obrigatório isolamento, só superado por ser exercido em grupo e pelas actividade lúdicas, que iam nascendo da criatividade inerente à juventude, como o eram por exemplo os torneios de futebol, entre pelotões, jogados num campo, construído fora do recinto delimitado por arame farpado.
Viviam-se os jogos a sério, visto fazer parte do Esquadrão muito material de desporto, como bolas e equipamentos.
Era possível realizar grandes partidas, até porque havia jogadores de certa grandeza.
Normalmente, os militares disponíveis sempre assistiam. Em virtude do recinto desportivo ser exterior ao acampamento, os assistentes levavam, obrigatoriamente do seu armamento, em guerra podia ser fatal descurar o aspecto bélico!...
E para os que não viveram no tempo, fica aqui referido o facto de um esquadrão de cavalaria ou outra qualquer companhia em campanha, completar-se com inúmeras actividades de entretenimento, com especialistas na área, na vida civil.
Assim foi exibido no Tari, dedicado aos militares, evidentemente, o filme português "O Grande Elias", serão inesquecível na circunstância!...
Três tiradas fizeram o divertimento da malta:
- Uma em que, num jogo da roleta, o Elias aconselhou o parceiro a jogar no dezassete. Claro que ao invés de ganhar o dinheiro de que necessitava, ficou ainda mais na penúria, porém o Elias nunca o desencorajava e numa outra cena, vê-se ele a dizer ao acompanhante:
- "Pois é...como sair no dezassete"!...
A última é quando o Elias, a servir de mordomo, conquista o coração da velha tia rica e segue com ela para a América, dirigindo-se ao avião; com ar bonacheirão volta-se e diz:
- "Agora vai ser milho"!...
Estas expressões foram adaptadas por muitos e bons rapazes, durante muito tempo, que à falta de melhor, de tudo se serviam.

Daniel Costa

1 comentário:

  1. Daniel! As fotos são maravilhosas! E os fatos narrados deliciosos culminando com o desfecho que estou rindo bastante hahahahaahahahahahaaahaaa Maravilha!


    Beijos, amigo!

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