sexta-feira, 9 de abril de 2010

AMOR NA GUERRA



GUIA LOPES CABANDA

A tropa do Tari adoptara um colono fazendeiro, a morar aí como defesa, serviu de guia naquela labiríntica vegetação onde, que não conhecesse o terreno, podia dar voltas sem se dar conta de estar sempre a caminhar para ponto de partida.
Numa operação deu-se a chegada a um local, a servir de esconderijo e habitação de elementos da UPA, tendo as suas sentinelas.
Dado o alerta, verificaram-se as fugas, foi apenas apanhado um rapaz de cerca de quinze anos.
Estava ferido e escapou à chacina, por intervenção oportuna do próprio Comandante do Esquadrão, a comandar a operação.
É que sendo os militares muito aguerridos, ao ouvir o jovem proferir alto e bom som: "UPA... UPA... UPA!...” A tropa estragou a minha vida!"... Um dos mancebos não se susteve e já levantava uma catana, afim de lhe cortar o pescoço!...
No mesmo dia, o médico do Esquadrão, o Alferes Azevedo Gomes, que dava mostras de humanidade, talvez para conseguir abstrair-se e desanuviar a mente, subiu ao torreão, que servia de vigia ininterrupta ao aquartelamento, onde Onofre cumpria as suas horas de serviço.
- Deu-se, entre ambos, o seguinte diálogo:
- Dr. Azevedo Gomes:
- "Passei um dia bastante preenchido, além do muito trabalho com alguns de vocês, que me têm aparecido, ainda tive de tratar o jovem prisioneiro".
Onofre :
- O Doutor aí podia aplicar determinado comprimido e ocasionar a morte.
A resposta indignada, não se fez esperar: "O médico é para tratar da cura e não da morte, mesmo de um inimigo capturado".
Deu-se também um facto, que à distância de décadas, ou por isso, é para rir:
- Ia o Onofre no Jeep com os seus companheiros, acompanhando o respectivo pelotão em serviço na picada que vai dar a Muxaluando.
Havia muitas e belas perdizes, por aqueles sítios e como o apontador da Breda, o Teodoro, era amador de caça na vida civil, ao ver uma dessas aves, dispondo apenas de metralhadora pesada, não se conteve, e zás!...
Tiro!...
Era uma curva muito acentuada, própria para a ocorrência de uma emboscada.
Antes de entrar nessa, transitava uma outra coluna em sentido oposto, pertencia ao esquadrão de Comando e Serviços, com o próprio Tenente-Coronel Costa Gomes, nas suas próprias funções de comandante.
Tanto bastou para a segunda força abrir fogo, como lhe competia, visto que entendeu estar a sofrer um ataque.
Felizmente, não passou de uma “brincadeira”, ali pouco original, que podia ter o seu fatalismo, até no aspecto disciplinar, que não funcionou, talvez porque não foi investigada a verdadeira origem do episódio.
Na Segunda-Feira, nove de Julho, depois de ser escoltada uma missão. Na volta de regresso, constatou-se a apreensão de alguns canhângulos.
Para que pudessem efectuar a fuga, os terroristas, foram obrigados a abandoná-los.
A partir desse mesmo mês de Julho, o Esquadrão iniciou grandes obras da sua base do Lifune-Tari, sendo que a referência Lifune se deve ao rio do mesmo nome, que passa junto.
Tari - depois das obras

A metamorfose, que acabou por ser efectivada, ficou a dever-se aos escombros, resultantes da destruição da nova povoação de Quimanoche, onde residiam colonos.
Foi dali que saíram em várias colunas militares, todos os materiais de construção, nomeadamente madeiras, para construir vários edifícios, como mais duas casernas, para que cada pelotão tivesse a sua e com mais algum conforto.
Ficava patente o grande poder organizativo do comandante do Esquadrão, Capitão Alves Ribeiro e também do valor demonstrado, por vários militares oriundos da construção civil, cujo trabalho apresentado mostrou grande perícia.
Das várias idas, um dia em duplicado, do pelotão a que pertencia o Onofre, deu para verificar que se tratava duma povoação fundada recentemente, mesmo completamente destruída, sentia-se a solidez dos materiais utilizados e uma razoável grandeza, que o terrorismo acabara por aniquilar.
Entretanto continuava a registar-se um grande movimento de operações militares, que se denominavam batidas, visto que eram levadas a cabo com incursões no denso capim, a rodear a imensa floresta, servindo de protecção aos grupos de "turras", como eram apelidados em simplificação.
Numa dessas acções, a dois de Julho, depois de uma actuação, a que se poderia chamar de psico-social, foi uma árvore, uma garrafa protegendo uma mensagem.
Convidava todos os que viviam na clandestinidade a entregarem-se.
Resultou a recolha de um elemento, que se viria a tornar precioso como guia, dado ter relevo e conhecimento da zona.
Na mesma operação, foram ainda apanhados documentos que se revelariam importantes.
Dizia-se que a população colonial ao redor não sofrera os conhecidos e horríveis massacres que haviam chegado à Fazenda Maria Fernanda, onde estava instalado outro Esquadrão do Batalhão 350, porque o pai, não concordando com a operação nos moldes apresentados, retardou a respectiva informação.
O homem começou por ter uma guarda de dois militares, passando apenas a um, para depois ser como ser como mais um militar, na posição de guia, com direito a ir integrado nas operações, armado com espingarda Mauser.
Lopes Cabanda

Era o Lopes Cabanda, que realmente se tornou elemento incontestado guiando os militares pela mata, na prevista intenção de pacificar a zona onde fora desencadeada a guerra no Norte de Angola.
A tropa do Tari ia assim desenvolvendo grande actividade operacional, enquanto se iam vivendo tempos de pura abstracção com envolvimento na criação de factos divertidos, como a de "roubar" o maior número de quicos possíveis.
Chegou ao ponto de serem criadas estratégias interessantes, como aquela que o Belo um dia levou à prática.
Uma dessas peças regulamentares foi presa a um alfinete seguro num cordel. O contentamento gerado no suposto achador desvanecia-se abruptamente quando se apercebia ter caído numa armadilha.
Refira-se os designados quicos, eram coberturas de cabeça, que faziam parte do fardamento, a usar em momentos de lazer.
Eram muito leves e caracterizados por possuírem duas bandas, pendentes sobre o pescoço, fazendo lembrar novas orelhas.

Daniel Costa

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