domingo, 21 de março de 2010

AMOR NA GUERRA

ESTÁGIO NO GRAFANIL

Chegados ao porto de Luanda, após o desembarque, depois de cerca de duas horas de espera para desfilar, logo ali na deslumbrante Avenida Marginal, perante as mais altas autoridades territoriais e mediante imenso povo a assistir objectivando, desde logo, a sensação da presença militar nacional na defesa do mais rico e imenso território sob Administração Colonial Portuguesa.
Esperava ver-se apenas naturais de cor negra, porém deparam-se quase só colonos brancos, uns com o fim de se encontrarem com familiares, que tinham viajado, porém a maior parte para trocar Angolares, que não serviam de divisas, só localmente tinham curso legal, por Escudos que chegavam na bagagem dos novos militares.
Só esse dinheiro tinha curso legal na Metrópole, por muito que se dissesse que Angola era Portugal, mesmo com todo o aparato exibido. Ali era afinal outro Portugal.
Depois do aparatoso passeio, de exibição na principal Avenida da cidade, toda a tropa embarcou em camionetas militares, de caixa aberta, rumo ao Grafanil, que já se começava a desenhar como o Centro Militar da Colónia em guerra que, no dia quatro de Março de 1961, tinha estalado relativamente perto, em forma de ensaio.
Desfile do Equadrão 287 na Marginal de Luanda

A permanência ali, pelo menos no princípio, era tida como um estágio de adaptação ao clima africano. Depois à medida do alastramento territorial e do célebre discurso proferido António de Oliveira Salazar imortalizado pela frase: "para Angola em força".
O Grafanil, a sete quilómetros de Luanda, passou apenas a ser ponto de passagem, para milhares de militares, ao longo de cerca de catorze anos.
Convém trazer à memória as incidências de factos, na comunidade que constituía o Esquadrão, porque a grande história é feita de pequenos episódios.
O grande Esquadrão que pertencera a princípio ao Batalhão de Cavalaria, sob o comando do Tenente-Coronel António de Spínola, veio a ser separado por motivos estratégicos.
Depois de se ter recebido a nova farda, que se iniciara a destribuir a todos os militares destinados ao Ultramar, no mesmo dia acabada de receber, voltou a ser devolvida para entregar ao Esquadrão substituto, com a agravante de muitas devoluções serem já de roupas adaptadas à morfologia dos primitivos donos.
As primeiras construções do Grafanil, à beira da estrada Luanda - Dondo, por ordem, foram destinadas ao Esquadrão que viera de Faro, ficando o resto do Batalhão nas seguintes. A outra tropa que já ali se encontrava estava acomodada em tendas de campanha.
Mesmo assim, os novos habitats construídos, como equipamentos, apenas dispunham de camas, colchões e cobertores.
O restante equipamento militar de serviço era ainda muito incipiente. A comida era bem feita, mas servida em fila e para utensílios de campanha. Não havendo ainda qualquer tipo de refeitório, a refeição era degustada pelos militares espalhados a esmo pelo terreno. No mesmo já havia barracões, a servir de cantinas, onde podiam ser adquiridas bebidas refrescantes.

Primeira refeição no Grafanil, a esquerda o autor e o Nascimento

Havia grandes estruturas para servir bebidas, balneários em barracões de madeira para frequentes banhos num novo clima.
Também para as necessidades fisiológicas, havia latrinas feitas em sulcos, com tábuas de través, onde as pessoas se equilibravam, visto que os rudimentos eram um facto. Os excrementos, usualmente, todas as manhãs eram tapados com terra por buldozeres, para evitar a propagação de focos infecciosos.
Tudo aquilo era levado à conta de aventura por Onofre, tanto mais que se estava no tempo áureo das Madrinhas de Guerra e do Serviço Postal Militar (vulgo SPM) criado já em 1961, que funcionava muito bem.
Para não ser conhecido o estabelecimento de cada Unidade, quatro dígitos fornecidos na origem, constituam a morada. Assim à chegada, entre a muita correspondência, lá estava a carta da inconfundível Ana Zé, que imprimia um cunho especial á correspondência com as boas vindas.
Assim se viveu naquele campo, entre alguns serviços e os sempre presentes exercícios de aplicação militar, continuação da prática de movimentação do armamento e tácticas de guerra de guerrilha, tudo o que parecia útil ao serviço do combate no terreno.
Embora se tivesse partido em pleno Inverno da Europa, chegados à África estava-se na época de Verão, assim o tempo disponível, era aproveitado em gozo, na ilha do Mossulo, voltas pela cidade de Luanda, visitas aos muceques, a cervejarias, a cinemas e a outros lugares.
Nessa altura, estava estabelecido um serviço de camionetas militares de caixa aberta, para transportes de homens a horas certas, ida e volta, do Grafanil para a cidade.
Ainda incipientes estes serviços, numa estimativa um pouco aleatória, já haveria em Angola cerca de vinte e cinco mil militares, mesmo assim no portão do campo do Grafanil dava-se o estacionamento de muitos motoristas de ligeiros a oferecer boleia para a cidade.
Muitas visitas também se efectuavam no novel e curioso estabelecimento de tropa, normalmente eram familiares a viver na Colónia e militares conhecidos, da metrópole.
Foi um tempo deveras interessante de observar, para o ideário de juventude, aquele modo de vida de maneira verdadeiramente espectacular. Era tudo gente muito nova à espera de entrar numa guerra que ainda ninguém conhecia, pelo que era presente o convite ao alheamento, se bem que já chegassem as más notícias da frente de combate.
Tudo servia de charge: Havia um repórter chamado Ferreira da Costa, que ao serviço da Emissora Nacional. diarimente emitia para Lisboa, na sua voz meio roufenha, meio arrastada, ia dando notícias individualizadas, naturalmente a quem as solicitava. Eram sempre boas, por regra.
Então surgia, normalmente á noite: "Minha senhorra o seu filho está bem... anda de muletas, ou este outro exemplo: "Minha senhorra o seu filho está bem... está no cemitério de Luanda".
Esta era uma maneira de brincar com a tropa, como por vezes se dizia.
Uma forma, digamos que lúdica, continuou o jogo da sueca, sempre como parceiro um beirão, um amigo peculiarmente interessante, talvez por isso era-o do peito, de nome Arsénio.
Não era um bom executante daquele jogo, que exigia um bom coeficiente de inteligência, porém ficava sempre com bons trunfos. Parecia um predestinado ganhador. Como o Onofre já lhe administrara algumas instruções e depois da primeira ronda de cada risco, logo ficava com uma leitura do mesmo, exercia adequado controlo, acabando a peleja no mínimo empatada, nunca havia perdas.
Daí saiu inesperadamente "promoção", depois de uma dessas disputas, um elemento adversário que, obviamente, mais uma vez perdera, o Picão, cujo acompanhamento dos métodos, o fizera considerar, confraternizou e a propósito afirmou peremptório: "Onofre és bom demais para meu opositor! A partir de agora passarás a ser meu parceiro".
Assim foi, com excelentes resultados! Sendo já previsíveis, o grande amigo Arsénio foi avisado para a não participação contra a dupla, porque mesmo com bons trunfos, passaria à condição de perdedor.
Chegados a segunda feira, cinco de Março, logo de manha cedo, já munidos para enfrentar finalmente, o estado de guerra a sério, todo o Batalhão comandado pelo Tenente-Coronel Costa Gomes, que se dizia estar ali voluntariamente, para amenizar dissidências com Salazar, de que fora Subsecretário de Estado, em relação ao conflito.
Convém destacar que este Oficial Superior viria a ser hospitalizado em Luanda, vindo a falecer de morte natural em Lisboa, durante a comissão.
O apelido de Costa Gomes, igual ao do que foi Presidente da República, tem a ver com parentesco próximo.
Eram irmãos, de facto.

Daniel Costa

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