sexta-feira, 19 de março de 2010

AMOR NA GUERRA

DE FARO A LUANDA

No princípio da noite de 11 de Janeiro de 1962, o cais de embarque ferroviário de Faro esteve apinhado de gente. Era a primeira vez que um comboio especial de tropas, com a ainda inédita farda camuflada partia dali rumo à guerra do Ultramar.
Tratava-se de um Esquadrão que estivera no quartel de Infantaria daquela cidade, aguardando embarque, tal como uma bateria de Artilharia, vinda do Porto que ali estacionara também.
Era preciso ter em conta que muitos militares eram algarvios.
Além da proximidade de alguns, aconteceu que outros ao passarem por ali cerca de três meses de juventude, com fardas nunca antes vistas, a atracção e desenvoltura do elemento feminino local fez com tivessem ficado bastantes namoricos que, obviamente, se apresentavam com alguns familiares a engrossar a despedida da leva de soldados.
O mesmo comboio servia de transporte directo até à Rocha do Conde Óbidos, em Lisboa, onde o velho paquete "Niassa", uma parte destinada a passageiros, o restante feito para cargueiro, estava fundeado para levar um grande contingente militar rumo a Luanda.
Chegados ao alvorecer do dia doze, via directa àquele porto.
Cumpridas as praxes militares, o paquete deixando a cais, primeiro lentamente, depois conforme ia deixando o porto, ia tomando a navegação normal. Até que, deixou de se avistar terra.
Duas lágrimas teimosas a correrem pelo rosto de Onofre, que depois foi instalar-se nos seus aposentos:
- Um espaço que dava apenas largura para um militar se entender e pouco mais para colocar os seus pertences, resumidos a dois sacos de lona, onde se armazenava toda a roupa de campanha.
O Tejo estava bravo naquele dia de Janeiro, as escadas que davam acesso aos porões transformados em casernas, onde tinha de passar a tropa, em breve se encheram. A maior parte dos estômagos não podia suportar, as condições do mar que provocavam um forte baloiçar do navio.
Depois de ter tomado conta da sua posição, Onofre não pôde deixar de sentir uma certa nostalgia, que se misturava com um certo sabor aventureiro há muito acalentado. Havia de regressar para jamais sentir o pó da terra, jurava mesmo que deixaria de ser um "coitadinho", um trabalhador rural, como muitos sem saberem o que é ter palavra, ali iam sem direito a saber porquê ou para quê.
De relance olhou o passado. Tinha a força suficiente para ter sido já "um dos homens das mãos grandes", como a sua mãe desejara. Naqueles tempos, um trabalhador rural que se destacasse, em épocas de muito trabalho, chegava a receber cem escudos de jorna diária, enquanto normalmente, nos mesmos tempos de aperto, a tabela nunca passava dos trinta escudos.
Na zona donde era oriundo geralmente a diária de sol a sol, não passava de vinte e cinco escudos,
Foi assim, que o Onofre, nos três dias de trabalho remunerado (fora das pequenas courelas familiares), arranjara os trezentos escudos, que juntara a alguns trocados das suas parcas poupanças para a vida militar, que há pouco iniciara.
Já embarcado, contactos de resultados promissores, tornaram a vida a bordo, tornara-se razoável para Onofre. Duma apresentação resultou, a troco de alguma ajuda na cozinha, ganhar o privilégio de fazer as refeições na copa do próprio navio, o que evitava o rancho geral e as próprias marmitas militares, um desconforto para quem viajava no mar alto durante doze dias.
Naqueles tempos de Janeiro de 1962, vividos a bordo, entre distribuição de armas de guerra, alguns exercícios militares, muitos olhares nostálgicos e melancólicos inspirados pelo grande oceano, jogava-se diariamente a sueca.
Um jogo de cartas, tornado doloroso porque consistia numa bandeirada de cinquenta escudos por cada risco perdido. Porém o homem saiu-se bem dessa perigosidade.
Aquela grande aventura passava-se noutros tempos, em que os póprios homens  foram eram submissos a estes destinos
Uma coisa ainda era lembrada da escola, foi o ensejo de por alturas do Equador, poder observar peixes voadores. Cardumes de peixes a voando!
A passagem do Equador foi assinalada festivamente, com a contribuição da orquestra residente, como tal, também acompanhava a expedição marítima, com todo o aparato de festa.
Porém a representação maior foi exibida por vários militares que viajavam a caminho da guerra.
Tudo corria, apesar de o "Niassa" transportar cerca de dois mil e quinhentos homens, quando fora concebido apenas para cerca de seiscentos, mais mercadorias.
Em resultado, podia falar-se de um barco, em que uma parte fora transformada, destinado ao transporte de "condenados", tanto mais que tudo quanto fosse praça tinha além do péssimo alojamento, de se servir da coberta para refeitório, tendo o respectivo estojo militar de campanha como talher.
Por outro lado, atingido o Equador, o calor era demasiado. Para a classe das praças, os tempos para banhos em grandes compartimentos eram limitadíssimos, dado haver tantos homens, para a pouca água possível de transportar armazenada.
A refrigeração era feita por mangas, vindas do alto, a entrar nos porões transformados. Em resultado, apesar dessa criatividade, a frescura que supostamente chegaria, foi sempre nula.
Entre conversas, ver mar, somente mar, durante doze dias, chegou finalmente a tão ansiada véspera de entrada em Luanda.
Toda a gente entrou em euforia, tal era o desejo de pisar terra firme!
Enquanto a coberta da Nave se enchia de homens desejosos de voltar a avistar terra, nos porões transformados em casernas, algumas das estreitas tarimbas, que serviam de cama ou enxerga, estavam outros pela última vez até que começou a soar o alarme de fogo a bordo, pela estreita escadaria que servia o porão, os circunstantes subiam debaixo de inúmeras faúlhas, vendo com certo pânico o que se passava.
Foi posta à prova a coragem da tripulação, que acabou por extinguir o fogo que chegarou a expelir fortíssimas labaredas.
Logo por cima do porão, que calhara ao Onofre, tinham sido edificados barracões de madeira, para armazenar os coletes de salvação que, distribuídos a todos os soldados, tinham sido já recolhidos em fim de viagem.
Na vigília da noite, à espera da chegada a terra, presume-se que alguém fumando, deixara inadvertidamente uma ponta de cigarro rebolar por uma das aberturas que havia na base a servir de respiração aos improvisados barracões, causando o que se chegou a prever catastrófico.
Chegou a haver pavor, traduzido em factos deveras peculiares:
- De entre outros, Onofre destaca o que lhe pareceu mais hilariante, protagonizado por um soldado do Esquadrão, ao munir-se da pistola Walter, que lhe havia sido atribuída.
Com a mesma estava decidido a atirar-se ao mar.
Perguntando, alguém para que serviria a arma?
- Peremptório na resposta:
- " Para matar os tubarões"!
- A história serviu de humor e foi transversal em toda a campanha do Esquadrão!...

Daniel Costa

1 comentário:

  1. HAhAHAAAHAAH adorei esta do Onofre... Imagino a cena e as risadas!

    Beijos, Daniel!

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