quarta-feira, 17 de março de 2010

AMOR NA GUERRA

PROLÓGO

A quatro de Fevereiro de 1961, grupos de guerrilheiros protagonizaram ataques à Casa de Reclusão, ao quartel da P.S.P. e à Emissora Oficial de Angola. Actos que passaram a ser considerados o início da guerra de Angola.
Os canais de informação de que dispunha o Estado indiciavam que ia começar uma luta sem quartel, para libertação de todo o Ultramar, administrado pelo governo português.
Foi já nesta conjuntura, que em 1959 teve lugar a minha inspecção militar. Confesso que me agradou o apuramento para "todo o serviço", à época a passagem pela vida militar por quem vivia como trabalhador rural, era considerada assim como uma "Universidade", visto que traria um certo desenvolvimento para o intelecto.
Aceitando trabalhar na ceifa, de sol a sol, durante três dias de quarta a sexta, com a diária de cem escudos a competir com as grandes feras da jorna, quando em tempos de aperto, como era o caso, o máximo que se podia alcançar cifrava-se em trinta, tinha como ideia subjacente juntar o dinheiro para futuros gastos.
Naquele tempo as repartições atendiam ao sábado, havendo já mancebos a emigrar clandestinamente, para fugirem à miséria e à tropa.
Nessa sexta uma patrulha, montada em bicicleta foi verificar o que se passava comigo.
Dirigiram-se logo à autoridade máxima da terra, o cabo chefe, que era por acaso vizinho e familiar, na sua loja serviu uma bebida a cada, perguntado o que poderia haver de menos bom.
Soube logo o porquê, soltando uma risada: mas esse rapaz anda no trabalho, naturalmente para arranjar algum, para encarar a nova situação, fiquem descansados que amanhã de certeza irá levantar as guias!
Mais nenhuma acção foi levada a efeito. Mesmo assim o amigo que representava o governo na terra, apareceu pela hora da ceia a contar o sucedido. Ficou com a certeza que tudo se passaria como garantira aos elementos da patrulha.
Por mim, achei que iria ter a oportunidade de deixar a agressividade do meio, como sempre desejei ir muito mais além, pelo menos se o destino fosse a Lisboa dos meus sonhos.
Não acontecia assim, a ideia de mudar a existência para uma nova dignidade nunca me saiu do pensamento.
Em Junho de 1961 assentei praça na cidade de Elvas, até aí ninguém nascido naquela aldeia do Oeste, tinha iniciado a tropa numa terra tão distante, normalmente ia-se para Caldas da Rainha ou Lisboa.
Cheguei à estação de Santa Eulália, de comboio na madrugada de dezoito. Camionetas de caixa aberta enviadas do quartel do destino esperavam os muitos jovens que aportavam, uma vez que chegavam ali cerca de mil e seiscentos homens e o estabelecimento militar, aquele novo mundo dista cerca de cinco quilómetros.
Desembarcado de madrugada, integrei-me imediatamente num grupo. Como era muito cedo, demos um giro ao típico mercado da cidade, onde logo tratámos de tomar o pequeno-almoço, constituído por sardinhas assadas na brasa. Pareceram as melhores até então degustei.
Ainda escuro, fomos deambulando, por aquele verdadeiro miradouro, donde se avistava Badajoz. Tudo o que observava era um deslumbramento, pela primeira vez estava a conhecer uma cidade.
Até que, pelas nove horas, sempre em grupo, lá rumei ao quartel de Infantaria, para as formalidades de entrar na vida castrense.
Uma rápida sucessão de acontecimentos faziam suspender a respiração, pois de um momento para o outro, todo o modo de estar se tinha invertido.
Começou com a distribuição do fardamento, o cabelo que pensava estar suficientemente curto, depois de inspeccionado foi alvo de novo corte para ficar quase rapado, a seguir o banho, que tinha de passar por todos, para de imediato começar a preparação militar.
Veio o meio-dia e o almoço. Como havia duas companhias de recrutas, cada de oitocentos homens, uma enchia o grande refeitório, que abandonava imediatamente após a refeição, dando lugar à outra, em segunda leva de comensais. Era altura de alguns dizerem que mais valia andarem a cavar chão seco, do que suportar aquele inferno, isto originou o meu comentário:
- Pois é... se ao menos tivessem experimentado o trabalho do campo, não pensavam do mesmo modo!...
De facto ao fim de três dias tinham-se-lhes acabado os fundos e era vê-los esganados a comerem, talvez melhor de que ninguém, no refeitório, abominado dias antes.
Durante as sete semanas de recruta em Elvas, algumas vezes ouvi superiores comentar, que todo aquele aglomerado de homens já estava destinado ao Ultramar. Não queria crer no que ouvia e questionava para os meus botões:
- Então? Quem fica cá a tomar conta de posições militares?
No último dia, febril com anginas, evitei a consulta médica, pensei ir a doentes já noutra cidade, visto que não queria perder o novo lance constituído pela mudança.
Resultado - Nesse mesmo dia, talvez por se registar um calor tórrido, desmaiei, só vindo a acordar no hospital militar de Elvas.
Ao fim de rápida convalescença, depois de ter ficado ainda uma noite no quartel original, apanhei uma carreira regular para a cidade de Estremoz.
Em Estremoz num pelotão comandado pelo Alferes Fidalgo, este foi dizendo que depressa seríamos mobilizados e viriam, entretanto novos comandantes, para formar um Batalhão a partir já estruturado.
Ele não iria pelo que não imprimiria rigor à instrução, se fosse queria um núcleo bem preparado fisicamente. Poucos dias depois chegaram, de facto os oficiais superiores que constituíram o Batalhão 345.
Era comandado pelo Tenente-Coronel António de Spínola.
O Esquadrão 297, a que pertenci, nos primeiros dias de Outubro de 1961, recebeu o novo fardamento camuflado, cuja devolução acabou por ser feita na mesma tarde.
Por ter o comandante mais novo, aquela fracção de unidade, acabou por deixar o Batalhão, tendo ido com a sua tropa, para o quartel de Faro aguardar embarque.
Substituía uma outra, cujo comandante reivindicou a troca, uma vez que estava há muito à espera de embarque.
O comandante do novo Batalhão, o 350, foi o Tenente-Coronel Costa Gomes, irmão do Marechal, que foi Presidente da República, do mesmo apelido
Curiosamente, neste já fora integrado o citado Alferes Fidalgo, que no Grafanil, a fim de se livrar da tropa e de intervir no mato, pressupostamente por acidente, furou um pé descarregando um tiro com a arma que lhe estava distribuída.

Daniel Costa


3 comentários:

  1. Um relato Histórico de grandes méritos, meu amigo. A foto acima está muito condizente com o que dizes.Tudo muito forte, palavras de quem viveu a dura realidade de uma guerra.
    Sucesso, Daniel!
    Beijos da tua leitora e amiga!!!

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  2. *
    Daniel
    ,
    vamos então prológar,
    ,
    conchinhas,
    ,
    *

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  3. Exmo Sr Daniel Costa.

    Iniciei recentemente um blogue http://elvasmilitar.blogspot.pt/ que versa sobre militares e as unidades militares de Elvas contudo deparo-me com a total ausência de documentos principalmente documentos iconográficos.
    Venho solicitar a sua ajudar nesse sentido e também para solicitar autorização para publicar o excerto da sua historia a cima descrita no meu blogue.
    Atentamente
    Fernando

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