quinta-feira, 17 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

MUITA GENTE FAZ A GUERRA

Ainda exposto à intempérie, o numeroso grupo retomou caminho, para uma etapa atribulada, com o atascar de várias viaturas, acabando por pernoitar naquele caminho, sempre de terra areenta e batida, perdida algures, ainda em pleno distrito da Lunda.
A dezasseis, sempre debaixo de chuva, conseguiu-se a libertação da lama e de novo se deu o seguimento da viagem.
Perto da povoação de Quissange na aproximação da hora de almoço, um dos carros, onde na cabine viajavam o médico e a esposa, com o respectivo motorista, carregado com um pesado gerador eléctrico, acabou por tombar numa ravina, não houve danos nem ferimentos.
Habituados àquelas variações atmosféricas tropicais, os homens civis do volante, conseguiram impor os seus apelos, perante o comandante da coluna, capitão Ferrand de Almeida, para que mandasse parar todo o contingente, até que o terreno enxugasse.
Era assim, que as grandes viagens, naqueles terrenos e com condições atmosféricas adversas, os haviam traquejado!
Arreados os seus equipamentos de viagem, enquanto os militares iam tomando a refeição do meio-dia, a partir das caixas individuais, cozinharam as suas batatas com bons nacos de bacalhau, em fogueiras improvisadas.
Depois de tudo saciado, como por encanto, parara de chover, mediando o espaço de tempo suficiente para que o caminho enxugasse, como se as bátegas de água caíssem sob sol ardente, porque em pouco verificara-se a total secagem do terreno.
Chegou o tempo de erguer a viatura caída, parecendo que a tragédia assolara aquele contingente militar em movimento.
Tudo foi resolvido, com a astúcia dos profissionais civis, utilizando o cordame, que sempre os acompanhava, como medida preventiva. Fez-se jus ao dito popular: “Muita gente faz a guerra”! Um deles postou-se a comandar a melindrosa operação, todas as mãos se agarravam a cordas amarradas de todos os ângulos, a fim de se estabelecer equilíbrio.
Com a grande força exercida, em pouco tempo estava a viatura levantada e em condições de seguir viagem.
O Onofre teria de confessar ter aprendido ali muito, de como era o modo vivencial daqueles destemidos motoristas da África negra.
Ainda a dezoito de Março, estando-se no ano de 1964, passou-se por Nova Gaia, além de várias povoações. Era já noite estava-se a entrar os portões do aquartelamento de Malange, já em novo Distrito de Angola, com sede naquela cidade, onde se fez a refeição, recorrendo á famigerada ração de reserva.
A dormida dessa noite teve também lugar naquelas instalações, de novo junto das respectivas unidades de transportes.
Chegados às dez da manhã do dia seguinte, dezanove, perto de onde existem as grandes cataratas de água de cento e oito metros de altura, uma das jóias de Angola, proporcionadas pelo caudal do rio Lucala, na altura designadas por Duque de Bragança.
Depois atingiu-se a picada que ia dar a Cacuso, com a inevitável deslocação ao aquartelamento local, pelo comandante para deixar as saudações militares. A oportunidade foi aproveitada pelo Onofre que, por correspondência, tivera conhecimento do facto de ai estacionar um primo, a que fez também a visita.
Tendo havido pouca demora, seguiu-se a viagem, com passagem por Lucala e Salazar, onde Onofre teve outro casual encontro com um conterrâneo, que fez chegar à família o estado em que o encontrou:
- Cheio de pó, mal dormido, no fundo relatou a odisseia.
Não seria para menos, se bem que para o visado, não passasse de mais uma aventura, para contar.
Depois da passagem por Dondo e Catete, povoações já conhecidas, finalmente a vinte já entrada a noite, chegou-se ao Grafanil.
No famoso campo militar, ponto de chegada e abalada da maioria dos elementos que, iam fazer frente à guerrilha, o esquadrão eventual 350, ficou abruptamente sem qualquer cadeia de comando, como se entrasse na orfandade, ninguém mais se preocupou.
Cada qual procurou os colegas do Esquadrão de origem, a eles se juntando para orientações.
Posto isto, depois das respectivas e necessárias providências pessoais, cada qual tratou de respirar fundo e passar uma noite de tranquilidade, dormida no chão sob abarracamentos provisionais militares.

Daniel Costa


quarta-feira, 16 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

DA PORTUGÁLIA AO GRAFANIL

Num Domingo, quinze de Março de 1964 às cinco da manhã, o esquadrão eventual 350, partiu finalmente da Portugália, rumo ao Campo Militar do Grafanil, às portas de Luanda. A viagem foi feita em camionetas civis de caixa aberta.
Seguiu-se a estrada, uma recta sem qualquer asfalto, ladeada de bambus, até ao destacamento militar do Camissombo, onde se encontrava estacionado um Batalhão.
Chegou-se sem qualquer incidente, logo às sete da manhã, com a habitual paragem, afim do respectivo comandante receber o testemunho do responsável pelo comboio de tropa, que passava.
Cumprida a praxe, com pequenas avarias mecânicas, atingiu-se Henrique de Carvalho às seis da tarde do mesmo dia, onde se pernoitou, com exposição ao luar, dentro do grande complexo militar, com os mais variados serviços respeitantes ao Sector ali existente.
Entretanto, Onofre com alguns amigos, aproveitaram a jantar num dos restaurantes da cidade. A certa altura discutia-se, se a região também era dominada pelo dialecto quioco. Podendo o facto ser testado, visto o empregado de serviço ser indígena, de imediato se utilizou o procedimento seguinte:
- Genarié (como te chamas)?
- José, mata (senhor).
- As duas palavras, algumas das que tinham sido aprendidas daquele dialecto, deram resposta à questão equacionada, Henrique de Carvalho, pertencia ainda à vasta região onde todo o povo se expressava em quioco.
De facto estava-se na capital da Lunda, cuja criação foi defendida em Lisboa pelo oficial do exército português e grande explorador, desse nome, que em 1928, Norton de Matos, o Alto Comissário de então, atribuíra à cidade.
No dia seguinte, pelas quatro da madrugada, debaixo de chuva intensa, estava o comboio militar, de novo, na rota da viagem, que o havia de conduzir ao Grafanil.
Conseguiu-se alcançar a povoação de Cocolo, onde se procedeu ao almoço, que em trânsito consistia na usual ração de reserva.
Para o Onofre, cozinheiros, sargento escrevente do rancho e outros, que faziam parte dos amigos mais próximos ainda havia restos de chouriço enlatado e outros produtos de longa duração, que conseguiu reservar.

Daniel Costa

terça-feira, 15 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

LOUVORES EM FIM DE COMISSÃO

Depois de, na Casa do Pessoal da Companhia dos Diamantes, ter assistido ao filme "A Roda da Sorte" Onofre, por inerência, começou a preparar a noite de consoada.
O serão de Natal desse ano de 1963 decorreu com interesse no refeitório, até à duas da manhã na plenitude da mocidade, havia de ser o último em que o homem do rancho usaria farda, este sentia-se na plenitude da mocidade. Estava fatigado, porque levava talvez demasiado a sério qualquer intervenção exigida da sua competência.
No dia de Natal, cumpriu-se o desejo do Capitão Ferrand de Almeida, constituído por um cozido à portuguesa.
Mais uma vez, não havia disponível a necessária carne de porco, porque não havendo fornecimento da mesma, pela poderosa Diamang os quiocos também não a vendiam, pelo menos a militares.
Valeu um dos motoristas que "malandro", muitas vezes lhe calhara transportar refeições a colegas de serviço no posto fronteiriço do Congo. Propôs-se numa dessas a entrar com a viatura num terreiro, onde estivessem animais domésticos. Aconteceria um desastre onde ficaria imediatamente muito ferido um porco. O dono aflito, viria a correr fazer queixa e o remédio era pagar-se o prejuízo, ficando-se com o animal.
Tudo correu bem, deu-se o premeditado acidente, o dono do animal foi ressarcido e o almoço daquele último Natal em comissão militar, reforçou o optimismo, tanto mais que houve interferência do sargento a dizer:
- "Um cozido à portuguesa a sério tem de levar carne de galinha", o que efectivamente aconteceu, mais uma vez funcionou a troca com o colono amigo.
O filme intitulado "A Grande Guerra" e uma exposição de trabalhos infantis, tudo na Casa do Pessoal, a grande estrutura lúdica, da Companhia dos Diamantes, foi a parte de gozo do Onofre de vinte e oito de Dezembro.
A noite de S. Silvestre, que transpôs o ano de 1963 para o de 1964, foi igual a qualquer outra, apenas a transição é assinalável, em virtude de se ter chegado ao último ano de permanência em solo africano.
Por esta altura, mesmo com o tempo bastante ocupado, o Onofre amando conhecer o máximo, na qualidade de praça já tinha efectuado a visita às tascas dos pretos, por um lado, por outro a da comunidade de Cabo verde, como conhecia bem a dos brancos consubstanciada na Cada do Pessoal, ficou um pouco inteirado da organização social.
Entre pretos e brancos, a separação era evidente, já que aqueles só se encontravam a servir, mas a comunidade da outra colónia, de modo algum se misturava com os angolanos, o que não parecia lógico.
Ficou sempre a impressão de existência de racismo, mas quem mais o praticaria seriam os naturais de Cabo Verde, porque até as tascas tinham existências separadas,
Em dezanove de Janeiro de 1964, depois da recolha de víveres no Dundo, por avaria de viatura, houve que arranjar boleia para regressar às instalações da Portugália, em busca de transporte para efectuar o necessário reboque.
Dia vinte foi recebida a visita do Governador-Geral de Angola. Mais uma vez foram privilegiadas as instalações onde se arrecadavam os géneros de alimentação, para mostrar a tão ilustre personalidade, ficando mais uma vez demonstrada a capacidade organizativa do inofensivo Onofre, que no fundo procurava apenas executar bem a tarefa que lhe tinham atribuído.
Estátua quioca na cidade num parque da cidade do Dundo

No mesmo dia teve lugar a assistência ao filme, desta vez intitulado "Escândalo ao Sol".
A vinte e quatro de Janeiro, foi o Onofre surpreendido pelo seu amigo Soeiro, que apareceu exibindo dactilografado um louvor com que tinha sido distinguido pelo comandante, Ferrand de Almeida.
Não sendo coisa importante, visto não haver as mais remotas intenções de seguir a vida militar, no entanto na altura foi estimulante. De certo modo era uma fugaz compensação para algumas arrelias que iam terminar. À noite deu-se casualmente um encontro com o sargento, a quem cabia escriturar toda a movimentação do rancho. Este era militar de carreira, a quem aproveitaria um louvor, porém fora excluído.
Tinha-se permitido entregar à bebida, talvez pelo facto, vociferava fora de si: pela primeira vez, mostrou o seu cartão da PIDE, dizendo: "o nosso Capitão está feito, porque nunca soube os meus poderes, mas com isto vai saber com que pode contar".
Logicamente, o assunto morreu com o desabafo.
Depois, a um de Fevereiro, ainda mais trabalho, chegou para o Onofre, com a vinda de grande remessa de alimentos enlatados da delegação de Henrique de Carvalho que, segundo a norma, foi muito bem arrumada,
Até que a catorze passou na localidade de Camissombo, de novo para recolher mais géneros, chegados ao aquartelamento local, vindos da citada cidade por aquela via.
Seguiram-se mais arrumações.
A quatro do mês de Março, pela última vez em terras de Angola, houve ida ao cinema, assistiu-se à exibição de "Sete Noivas para Sete Irmãos".
Esperado já o fim da comissão, deu-se a chegada de uma companhia militar para substituir o esquadrão eventual, a ocupação do Onofre acumulou mais azáfama, dado que a cinco do terceiro mês do ano de 1964, foi necessário levantar mantimentos em duplicado, no armazém do Dundo, a contar com o tempo necessário de alimentar o pessoal que ia proceder à rendição.
O mesmo aconteceu com a chegada do reforço de géneros alimentícios, vindos da manutenção, que acumularam trabalho de arrumação.
Logo que se soube do regresso, ao pequeno-almoço, onde muitos militares iam muito tarde usufruir o prazer de ingerir o seu pão torrado bem barrado com boa manteiga enlatada, alguns useiros e vezeiros em calmas repetições.
De forma jocosa, ouviam muito a frase: "Aproveita agora, porque vai acabar-se". Tanto bastou para, um oficial, estando de serviço de dia ao esquadrão, chegado ao Batalhão mais tarde, pelo que não lhe cabia a vez do regresso à metrópole, mostrar a sua falta de humor, com o lançamento da seguinte pergunta:
 "Óh pá mas isso tem algum jeito?!..."
Chegados a doze, finalmente a rendição!... A treze entrega de todos haveres e governo do depósito. A catorze os preparativos para a viagem até Luanda, onde se embarcava para a metrópole.
Ao Onofre ainda coube muita labuta, já que tiraria algum partido da última e trabalhosa missão, que lhe tinha sido atribuída.
Para si próprio e amigos de proximidade, mais uma vez com a colaboração do sargento, a quem incumbia a tarefa da escrita dos gastos do rancho, foi então demonstrada em plenitude a afeição e até a admiração que sempre dedicou ao respectivo encarregado.

Daniel Costa


domingo, 13 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

ADEUS ATÉ AO MEU REGRESSO

Havendo responsáveis com formação própria em todos os aquartelamentos, no caso do esquadrão eventual 350 Onofre tinha substituído o nomeado, no que dizia respeito à manutenção do refeitório, assim como a outras necessidades inerentes, porém havia um sargento para a escrituração, por já ter protagonizado uma mobilização em Moçambique, onde exercera funções idênticas.
A repartição militar em Luanda, responsável por todos os impressos necessários, fornecia os mapas e outros documentos necessários para os movimentos de géneros alimentícios, de cuja administração era responsável. Uma empresa bastante complexa como se pode imaginar!...
Deste modo o superior mais directo no rancho, seria o dito sargento, que não merecendo a conotação de "fixe", foi contudo, um bom amigo de Onofre, já que este depressa adquiriu prestígio, o que servia o seu interesse como militar do quadro.
O sargento sempre aparecia de tarde batendo com uma varinha na perna a participar em sessões de petiscos.
Saida do palacio em jeito de festa

Em vários princípios de noite chegavam alguns amigos do citado, para os aperitivos de antes do jantar nas instalações dos géneros de alimentação .
Contavam-se entre eles quatro elementos, normalmente em dias diferentes, eram dois da polícia judiciária, que faziam parte de quadros instalados no Dundo, no serviço de investigação de possíveis movimentos clandestinos dedicados ao tráfego de pedras preciosas, um outro colono e um militar da milícia, todos em funções na Diamang.
As "tapas" eram constituídas normalmente por rodelas de chouriço, que chegava da manutenção militar enlatado, era de boa qualidade e constituíam um manjar acompanhadas do tal casqueiro (pão) fabricado no esquadrão e bom vinho verde fornecido pela organização diamantífera.
Aquele militar da classe dos sargentos, tornara-se um sério amigo do Onofre, por vezes conveniente, como uma mais valia nas relações públicas.
Em certa ocasião andava a remoer que num almoço, havia de ser servido arroz de pato. De facto uma ementa bastante apreciada, mas como conseguir aquele galináceo, pois os negros nada vendiam à tropa e a Companhia não os tinha para fornecer?
Por outro lado esta proibia aos colonos, embora com muito espaço junto das vivendas que lhe estavam atribuídas, a criação de qualquer ave de capoeira.
A ideia, o sonho parecia inexequível.
Certo dia o sargento apareceu com o problema resolvido, o colono habitual dos petiscos, na entrada da noite, da sua improvisada e clandestina capoeira, de parceria com outros colegas, arranjaria a quantidade de patos necessária para um almoço farto de todo o rancho.
Não havia dinheiros em jogo o que facilitava tudo. As latas de chouriço, com a tara de cinco quilos, fornecidas pela manutenção militar, eram ali um bem tão precioso que serviriam de boa moeda de troca.
Foi aí que algumas dúvidas do Onofre começaram a esclarecer-se, a resposta ao problema do fruto proibido, era a de que os galináceos tinham a capacidade de armazenar nas goelas pedras preciosas, tornando-se um meio eficaz de tráfico.
Como se pôde verificar a proibição era letra morta!
Por esta altura, não tendo chegado ainda a televisão às guerras de África, eram debitadas para microfones da rádio, por militares formados em fila indiana para os sacramentais cumprimentos de Natal, dedicados à família, namoradas, Madrinhas de Guerra e amigos, com o obrigatório, "adeus até ao meu regresso".
Chegara o tempo de os militares se inscreveram para a visita a uma rádio da Lunda afim de gravarem a sua mensagem, que depois a Emissora Nacional difundia.
Pelo segundo ano da estatal obrigação de passar pela guerrilha, Onofre ignorou a prerrogativa, porque a achou sempre sem sentido.

Daniel Costa

sábado, 12 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

PRAÇAS HERÓIS

Outro assunto de prender a atenção, foi o de uma praça distinguida com uma condecoração. Foi-lhe atribuída por valor demonstrado numa operação militar, ainda na zona de intervenção a "Cruz de Ferro".
Chegara a Portugália a convocação, para se apresentar em Luanda a fazer parte de uma parada, onde seriam entregues as variadas condecorações por valor militar patenteado.
Aconteceu algo inexplicável, mesmo na época, o militar recebera a "Cruz de Ferro", mas voltara à base da Lunda em estado de desnutrição a exigir tratamento médico.
Onofre, por natureza era pensador e reflectia muito sobre estas incidências, que pareceriam apenas de pormenor. Podiam estar certas, mas um herói?
Ainda que soldado raso, não destoaria se lhe tivessem disponibilizado um avião, para o transportar de ida e volta ao esquadrão.
No caso a capital de Angola, ficava no mínimo a dois dias de viagem terrestre em camioneta de caixa aberta.
Como a mesma teria sido feita, de aquartelamento em agrupamento militar, com a sujeição aos transportes destes e sendo o herói tímido por natureza, para se abeirar dos rancheiros respectivos, ficara com razão de maldizer o acto heróico que, motivou a inglória honra da condecoração.
Ainda em Novembro, no dia vinte e nove, à tarde na companhia do Soeiro, dedicou-o a uma visita, que há muito se impunha, ao Museu Etnográfico do Dundo, um dos mais importantes, do género em todo o continente africano.
Fachada do museu da cidade do Dundo

A visita, além de muito agradável foi surpreendente, pela variedade de objectos expostos e pela revelação que encerra da cultura da grande região da Lunda.
A visita mereceu uma atenção detalhada, da parte que estuda os minerais da zona, confirmando o que se dizia: Todas as pedrinhas com que se tropeçava serem diamantes, mesmo se alguns não tivessem valor de mercado, visto que havia qualificação para todos, mesmo os que se esfregassem nas mãos e se desfizessem em pó.
Foi possível verificar inúmeras "pedras" identificadas, das insignificantes às de grande pureza. Todas as de que aquele território era fértil, o que afinal fazia com que a tropa estivesse já presente em força, para vigiar todos os movimentos porventura hostis a uma produção altamente sofisticada.
Depois chegava-se a uma parte, onde era exposta então, toda a cultura dos quiocos, que habitavam a vastíssima região. Essa de tão ancestral, era de fazer pasmar qualquer europeu. O exemplo maior, será uma mobília de sala executada em madeiras exóticas, em que todas as peças que a compunham eram trabalhadas manualmente,
representando na integra, explícitas cenas eróticas.
                                           
Museu do Dundo: Pormenor de cadeira. Trabalho quioco

A constatação, pelo ineditismo era agradavelmente chocante.
De facto, estava-se num país diferente do que se conhecia no cantinho europeu!
Onofre acha por bem não deixar de mencionar o caso recorrente, de numa das sortidas diárias ao Dundo, motivadas pelo serviço do rancho, de conluio com o motorista da viatura, se ter deslocado também ao aquartelamento da Bateria que, estacionava perto do rio Luachimo.
Nesse dia trinta e um de Novembro, a saltada à artilharia era destinada a compras particulares na cantina local, por esta ser melhor apetrechada. Porém houve pouca sorte, deu-se uma avaria no Jeep e praças velhas como as presentes, empurraram a viatura até ao sítio onde a passagem podia ser justificada. Assim o carro, durante cerca de cinco quilómetros, usufruiu de tracção manual.
Nas instalações do Tari Lifune, no chamado mato, com propriedade por ser zona de intervenção militar um "divertimento da malta", como alguém dizia, a saga de surripiar quicos uns aos outros foi um divertimento de tempos livres, como seria para os miúdos jogar o berlinde ou ao pião no recreio.
Fora dessa área existiam outras ocupações bem mais atraentes. Foi assim mesmo que alguém atrevido ousou subtrair o do Capitão Alves Ribeiro. Pensou-se na pena aplicável, mas aconteceu o facto inesperado de o ilustre comandante militar, ter rido da façanha e prestes a deslocar-se à metrópole no gozo das suas férias logo adquiriu novo exemplar.
Aconteceu a mesma cena, no aquartelamento do esquadrão eventual na Portugália; uma praça, um homem do Alentejo, ousou o mesmo com o Capitão Ferrand de Almeida. Este muito menos dado a rigores de comando, ainda assim não teve qualquer contemplação e aplicou a pena mais pesada da sua competência:
Dez dias de prisão!...

Daniel Costa


sexta-feira, 11 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

JUSTIÇA EM TEMPO DE GUERRA

O Onofre, tinha acabado de completar vinte e três anos, como a maioria dos companheiros, pois haviam sido incorporados em mil novecentos e sessenta e um, ainda no século vinte, dentro do constante optimismo natural, contava com a auto estima de mesmo, sem qualquer protocolo ou mais valia pessoal, estar a desempenhar um cargo de certo modo importante no esquadrão.
Além das arrelias quase diárias, pelos problemas ocasionados, por nunca o comando, ter tomado em conta a necessidade de aprovisionar transportes, para as carnes ou peixes, os frescos de todos os dias, assunto que acabava naturalmente resolvido pela capacidade, porque não dizê-lo?
Nunca houve a mais pequena reclamação, pelo tipo e quantidade de comida servida.
Dentro das instalações militares da Portugália, o edifício que servia de depósito de géneros, transformara-se num modelo de orientação e eficiência organizativa.
Tanto assim era, que recebida a visita do Tenente-Coronel António de Spínola comandante do Batalhão 345, voltou a haver dentro do aquartelamento, o recurso à área, para mostrar algo de digno ao visitante oficial militar superior.
Foi a segunda vez, que Onofre pôde testemunhar a visita ao esquadrão eventual 345, do seu mais alto comandante, com o grosso das tropas sob o seu comando, algures no Sul de Angola, tal como se encontrava no Cuanza Sul o comando do 350, de que o eventual estacionado na Portugália era oriundo.
A visita podia considerar-se adequada, visto ser tudo tropa de cavalaria mobilizada pelo quartel de Estremoz.
Porém o comandante de Batalhão 350, nunca se dignou visitar o grupo de militares, que mandara constituir e embarcar para a Lunda.
No dia seis de Novembro, numa das habituais voltas de lazer á cidade dos diamantes, o Onofre esteve na Casa do Pessoal da Diamang a assistir ao filme "A Mulher Sem Freio", protagonizado por Brigitte Bardot.
Saida do plácio Colonial da vila da Portugália, depois dum casamento

A doze do mesmo mês, numa ronda efectuada por militares de cavalaria, sedeados na Portugália, foram descobertos e apanhados dois terroristas.
Entretanto um alferes do mesmo esquadrão conjurou-se com várias praças e travaram um verdadeiro recontro na cidade, com militares de uma bateria da mesma zona do rio Luachimo.
Conjugou-se talvez, a má sorte de ter havido um golpe de navalha, à boa maneira lusitana. O citado, deu-se como culpado e de seguida, mesmo sendo oficial, apanhou os tais dez dias de prisão, a pena máxima, que o Capitão comandante lhe podia aplicar.
Para cúmulo, em resultado acabou por ser transferido para a zona de guerra donde tinha vindo.
Talvez por ser oficial e ter sido o mentor da recuperação mecânica de algumas viaturas estacionadas, como se fossem destroços, veio a conhecer a vã glória de ter a sua despedida frente a uma formatura, diga-se espontânea, de todo o esquadrão, onde logicamente esteve ausente o comandante.
A mesma bateria defrontou-se, a vinte sete de Novembro, com o esquadrão em desafio de futebol, num dos campos do Dundo, o Onofre assistiu ao empate por 4 a 4, reparando que esta cavalaria, nada tinha de parecenças com a do Grande Esquadrão, que sempre ganhava quando se apresentava.
Outras ocorrências iam sendo registadas no diário do Onofre, como a protagonizada pelo alferes miliciano Abranches que, sendo já advogado na vida civil, recebeu a missão de se deslocar, para ser o defensor oficioso no julgamento, em tribunal militar, do caso referente ai soldado do 297, ocorrido ainda no Tari Lifune e que se encontrava detido num presídio militar daquela cidade.
O momentoso delito daquele militar, encerrou cenas interessantes, se não se desse a sua prisão efectiva.
Um alferes fez menção de lhe atribuir uma bofetada, como já tivera a ousadia de fazer a determinado cabo.
Tanto bastou, para que o referido alcançasse a espingarda FN distribuída a um companheiro, por ser de melhor pontaria do que a sua teria dito depois de aprisionado, com a mesma perseguiu o oficial, cujo recorreu à fuga, para as suas instalações, evitando assim a concretização de um crime contra a sua pessoa.
O referido soldado, embora lhe assistisse alguma razão, tinha-a deixado cair com o acto, visto não desconhecer a regra do estar-se em estado de guerra e embora a possibilidade de, militarmente apresentar queixa de um superior, seria necessária a aprovação deste, o que se podia levar à conta de mais uma das muitas bizarrias das leis militares.
Onofre não assistira a este lance, pelo que não o anotou, estava destacado na Fazenda Três Marias, porém com a sua curiosidade natural, numa das frequentes visitas de escolta recolheu pormenores do momentoso caso. Acontece que o soldado pertencia ao grupo de vizinhos na vida civil.
O visado estava, pois, no círculo de conhecimentos pessoais, muitos próximos, para poder ser avaliado como capaz de cometer um acto desses.
Era um tipo muito reservado, só com alguma dose de confiança pessoal diria algo, as divagações interiores eram remoídas, por norma em passeios ininterruptas dentro da própria caserna, da cama para a porta e vice-versa.
Ainda na metrópole chegou mesmo a confidenciar ao Onofre, que iria para Angola na esperança de vir a ficar perto da fronteira e daí poder dar o "salto", para fora deste país, caso contrário teria antecipado a fuga.
No fundo o militar em questão era pessoa com insipidez suficiente, para ser vista como pessoa inofensiva com certa comiseração e desinteresse.

Daniel Costa

quinta-feira, 10 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

CULTURA DO ALAMBAMENTO

Como aventuras para reter, mais algumas observações:
- Uma prende-se com o facto de numa ocasião, momento único, ter encontrado uma linda mulher quioca, toda pintada de branco. Questionando porquê, veio a sabê-lo:
- As mulheres nativas festejavam o facto em público, mostravando assim ao mundo, que já tinham perdido o cabaço (virgindade).
Naturalmente com o amado que, gostosamente, contavam passar o resto da vida.
Da seguida contam-se passagens, como a do nosso homem que arranjava contactos femininos, através de um servente local. Com mais experiência de vida, cismaria ter tido à mão um elemento a expiar, ao serviço da informação do movimento pró-libertação.
Foi assim que, na sanzala de uma das mulheres passou uma noite de verdadeira orgia.
Tinha sido uma aventura morta à nascença. Mais tarde veio a saber, por ouvir em forma de queixume, não ter havido dinheiro, nem o militar ficara ao menos conhecido. Já então Onofre havia passado, algumas vezes pela mulher, ficando a estranheza pela ausência de qualquer temível manifestação.
Onofre sem se denunciar, soubera disso ao protagonizar outra aventura amorosa numa casa, mesmo em frente.
Mais uma vez, talvez por ausência de disponibilidade temporal, utilizara o servente. Desta vez o "affaire" correu mal, dado que sofreu um ferimento, do que resultou uma hemorragia.
Dali, foi logo procurar apoio no posto de socorros, mesmo correndo a versão de que, o alferes médico titular, apenas receitava aspirina para qualquer maleita.
Foi tratado pelo enfermeiro, cabo Simões, também oriundo da Gabela, que desaconselhou contactos com o clínico, Taxativamente, recorreria à circuncisão.
Já lhe ocorrera a seguinte questão, em pensamento:
- Pelo perfil, o alferes médico não seria de origem judaica?
Militar mirando do alto o horizonte visiual

Com a indispensável mediação do servente, o Onofre obteve também a experiência de um pequeno, mas inesquecível serão. Num terreiro, apenas com a luz do luar, a em todo o redor vários anciãos conselheiros reunidos, tratava-se da compra por alambamento de uma rapariga para casar.
Seria mais uma maneira de conhecer, como se processava a união e a resultante actividade sexual amorosa.
Tratava-se da forma usada pelo povo da Lunda, para a consumar uma união. A mesma consistia na introdução de um valimento, a pagar ao pai da pretendida.
Na questão, punha-se o problema do futuro noivo não possuir gado ou qualquer produto da terra para o "negócio".
Afinal, tudo poderia ser ultrapassado com dinheiro.
À rapariga, porque era bonita e tinha cabaço, era atribuído um valor de vinte e três mil escudos, um custo importante em 1963!...
A partir dessa interessante "encenação", o Onofre ficou a saber efectivamente, como era a prática do alambamento, dos quiocos.
O facto não passou, obviamente, de uma memorável recordação!...

Daniel Costa