sexta-feira, 11 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

JUSTIÇA EM TEMPO DE GUERRA

O Onofre, tinha acabado de completar vinte e três anos, como a maioria dos companheiros, pois haviam sido incorporados em mil novecentos e sessenta e um, ainda no século vinte, dentro do constante optimismo natural, contava com a auto estima de mesmo, sem qualquer protocolo ou mais valia pessoal, estar a desempenhar um cargo de certo modo importante no esquadrão.
Além das arrelias quase diárias, pelos problemas ocasionados, por nunca o comando, ter tomado em conta a necessidade de aprovisionar transportes, para as carnes ou peixes, os frescos de todos os dias, assunto que acabava naturalmente resolvido pela capacidade, porque não dizê-lo?
Nunca houve a mais pequena reclamação, pelo tipo e quantidade de comida servida.
Dentro das instalações militares da Portugália, o edifício que servia de depósito de géneros, transformara-se num modelo de orientação e eficiência organizativa.
Tanto assim era, que recebida a visita do Tenente-Coronel António de Spínola comandante do Batalhão 345, voltou a haver dentro do aquartelamento, o recurso à área, para mostrar algo de digno ao visitante oficial militar superior.
Foi a segunda vez, que Onofre pôde testemunhar a visita ao esquadrão eventual 345, do seu mais alto comandante, com o grosso das tropas sob o seu comando, algures no Sul de Angola, tal como se encontrava no Cuanza Sul o comando do 350, de que o eventual estacionado na Portugália era oriundo.
A visita podia considerar-se adequada, visto ser tudo tropa de cavalaria mobilizada pelo quartel de Estremoz.
Porém o comandante de Batalhão 350, nunca se dignou visitar o grupo de militares, que mandara constituir e embarcar para a Lunda.
No dia seis de Novembro, numa das habituais voltas de lazer á cidade dos diamantes, o Onofre esteve na Casa do Pessoal da Diamang a assistir ao filme "A Mulher Sem Freio", protagonizado por Brigitte Bardot.
Saida do plácio Colonial da vila da Portugália, depois dum casamento

A doze do mesmo mês, numa ronda efectuada por militares de cavalaria, sedeados na Portugália, foram descobertos e apanhados dois terroristas.
Entretanto um alferes do mesmo esquadrão conjurou-se com várias praças e travaram um verdadeiro recontro na cidade, com militares de uma bateria da mesma zona do rio Luachimo.
Conjugou-se talvez, a má sorte de ter havido um golpe de navalha, à boa maneira lusitana. O citado, deu-se como culpado e de seguida, mesmo sendo oficial, apanhou os tais dez dias de prisão, a pena máxima, que o Capitão comandante lhe podia aplicar.
Para cúmulo, em resultado acabou por ser transferido para a zona de guerra donde tinha vindo.
Talvez por ser oficial e ter sido o mentor da recuperação mecânica de algumas viaturas estacionadas, como se fossem destroços, veio a conhecer a vã glória de ter a sua despedida frente a uma formatura, diga-se espontânea, de todo o esquadrão, onde logicamente esteve ausente o comandante.
A mesma bateria defrontou-se, a vinte sete de Novembro, com o esquadrão em desafio de futebol, num dos campos do Dundo, o Onofre assistiu ao empate por 4 a 4, reparando que esta cavalaria, nada tinha de parecenças com a do Grande Esquadrão, que sempre ganhava quando se apresentava.
Outras ocorrências iam sendo registadas no diário do Onofre, como a protagonizada pelo alferes miliciano Abranches que, sendo já advogado na vida civil, recebeu a missão de se deslocar, para ser o defensor oficioso no julgamento, em tribunal militar, do caso referente ai soldado do 297, ocorrido ainda no Tari Lifune e que se encontrava detido num presídio militar daquela cidade.
O momentoso delito daquele militar, encerrou cenas interessantes, se não se desse a sua prisão efectiva.
Um alferes fez menção de lhe atribuir uma bofetada, como já tivera a ousadia de fazer a determinado cabo.
Tanto bastou, para que o referido alcançasse a espingarda FN distribuída a um companheiro, por ser de melhor pontaria do que a sua teria dito depois de aprisionado, com a mesma perseguiu o oficial, cujo recorreu à fuga, para as suas instalações, evitando assim a concretização de um crime contra a sua pessoa.
O referido soldado, embora lhe assistisse alguma razão, tinha-a deixado cair com o acto, visto não desconhecer a regra do estar-se em estado de guerra e embora a possibilidade de, militarmente apresentar queixa de um superior, seria necessária a aprovação deste, o que se podia levar à conta de mais uma das muitas bizarrias das leis militares.
Onofre não assistira a este lance, pelo que não o anotou, estava destacado na Fazenda Três Marias, porém com a sua curiosidade natural, numa das frequentes visitas de escolta recolheu pormenores do momentoso caso. Acontece que o soldado pertencia ao grupo de vizinhos na vida civil.
O visado estava, pois, no círculo de conhecimentos pessoais, muitos próximos, para poder ser avaliado como capaz de cometer um acto desses.
Era um tipo muito reservado, só com alguma dose de confiança pessoal diria algo, as divagações interiores eram remoídas, por norma em passeios ininterruptas dentro da própria caserna, da cama para a porta e vice-versa.
Ainda na metrópole chegou mesmo a confidenciar ao Onofre, que iria para Angola na esperança de vir a ficar perto da fronteira e daí poder dar o "salto", para fora deste país, caso contrário teria antecipado a fuga.
No fundo o militar em questão era pessoa com insipidez suficiente, para ser vista como pessoa inofensiva com certa comiseração e desinteresse.

Daniel Costa

quinta-feira, 10 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

CULTURA DO ALAMBAMENTO

Como aventuras para reter, mais algumas observações:
- Uma prende-se com o facto de numa ocasião, momento único, ter encontrado uma linda mulher quioca, toda pintada de branco. Questionando porquê, veio a sabê-lo:
- As mulheres nativas festejavam o facto em público, mostravando assim ao mundo, que já tinham perdido o cabaço (virgindade).
Naturalmente com o amado que, gostosamente, contavam passar o resto da vida.
Da seguida contam-se passagens, como a do nosso homem que arranjava contactos femininos, através de um servente local. Com mais experiência de vida, cismaria ter tido à mão um elemento a expiar, ao serviço da informação do movimento pró-libertação.
Foi assim que, na sanzala de uma das mulheres passou uma noite de verdadeira orgia.
Tinha sido uma aventura morta à nascença. Mais tarde veio a saber, por ouvir em forma de queixume, não ter havido dinheiro, nem o militar ficara ao menos conhecido. Já então Onofre havia passado, algumas vezes pela mulher, ficando a estranheza pela ausência de qualquer temível manifestação.
Onofre sem se denunciar, soubera disso ao protagonizar outra aventura amorosa numa casa, mesmo em frente.
Mais uma vez, talvez por ausência de disponibilidade temporal, utilizara o servente. Desta vez o "affaire" correu mal, dado que sofreu um ferimento, do que resultou uma hemorragia.
Dali, foi logo procurar apoio no posto de socorros, mesmo correndo a versão de que, o alferes médico titular, apenas receitava aspirina para qualquer maleita.
Foi tratado pelo enfermeiro, cabo Simões, também oriundo da Gabela, que desaconselhou contactos com o clínico, Taxativamente, recorreria à circuncisão.
Já lhe ocorrera a seguinte questão, em pensamento:
- Pelo perfil, o alferes médico não seria de origem judaica?
Militar mirando do alto o horizonte visiual

Com a indispensável mediação do servente, o Onofre obteve também a experiência de um pequeno, mas inesquecível serão. Num terreiro, apenas com a luz do luar, a em todo o redor vários anciãos conselheiros reunidos, tratava-se da compra por alambamento de uma rapariga para casar.
Seria mais uma maneira de conhecer, como se processava a união e a resultante actividade sexual amorosa.
Tratava-se da forma usada pelo povo da Lunda, para a consumar uma união. A mesma consistia na introdução de um valimento, a pagar ao pai da pretendida.
Na questão, punha-se o problema do futuro noivo não possuir gado ou qualquer produto da terra para o "negócio".
Afinal, tudo poderia ser ultrapassado com dinheiro.
À rapariga, porque era bonita e tinha cabaço, era atribuído um valor de vinte e três mil escudos, um custo importante em 1963!...
A partir dessa interessante "encenação", o Onofre ficou a saber efectivamente, como era a prática do alambamento, dos quiocos.
O facto não passou, obviamente, de uma memorável recordação!...

Daniel Costa

terça-feira, 8 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

SUBLEVAÇÃO E "CACHIPEMBA"

Tropa instalada nas Províncias Ultramarinas, a partir de 1961, tinha sempre por missão de reprimir os focos de sublevação porventura existentes, enquanto ia ocupando o terreno, com o fim de evitar futuras infiltrações.
No destacamento da Portugália, não podia haver diferença, a ocupação tinha também o objectivo de procurar o controlo da região pela via militar.
Um posto de vigilância na fronteira do Congo, que ficaria a cerca de oito quilómetros da vila, era ininterruptamente ocupada por soldados do esquadrão eventual 350, com substituição diária.
Havia sempre um Jeepão e duas praças, que se rendiam no serviço, para as refeições serem levadas e tomadas ali em tempo oportuno.
O serviço militar ao aeroporto da Portugália, dedicado à Companhia dos Diamantes, sedeada na cidade do Dundo, relativamente próxima, era também assegurado por aquele esquadrão.
A missão visível mais importante, era consubstanciada, por visitas a várias fazendas e bairros quiocos, onde foram encontrados alambiques, destinados à fabricação duma droga líquida, a que se dava o nome de "cachipemba".
Dizia-se que a viciação, começava por definhar os consumidores estes, por falta de qualquer assistência médica, morriam pela certa.
Tornava-se evidente a necessidade da destruição de tais estruturas e o aprisionamento dos "industriais".
Podia ser vista assim a organização militar:
- Em campanha, um Batalhão comandado por um Tenente-Coronel, estruturado como uma cidade onde, uma vez que se compunha de todo o tipo de estruturas inerentes, com materiais de toda a ordem, desde medicamentos, comestíveis, geradores eléctricos, muitos combustíveis, como gasolinas, óleos, materiais de reparação, desportivos e outros.
Esquadrão, bateria ou companhia, comandados por um Capitão, eram por norma desdobramentos daquele, não eram tão completos, mas tinham grande poder autonómico.
Naquele esquadrão, o Onofre coordenava um núcleo saliente na organização.
Com o encargo dos géneros, juntavam-se muitas outras tarefas quase diariamente, como a da provisão de carnes.
Pose de humor

No fim de cada jantar elaborava a ementa para o dia seguinte, tendo em vista a essencial criação, dado o gosto para trabalhar em equipa, ouvia outros, como o soldado que se encarregava da cozinha ou o sargento a fazer parte, com a missão de escriturar os gastos, porém a tarefa que dizia respeito a todo o aprovisionamento para o rancho, era mesmo inerência de quem liderava o depósito da alimentação das praças.
É chegada a altura de se afirmar, que a alimentação era irrepreensível, o que sem dúvida, se devia à muita dedicação de Onofre e à boa colaboração do soldado cozinheiro que, ido também do Esquadrão 297, era conselheiro de excelência.
Ficam dois exemplos dessa interacção:
- Dias da inevitável dobrada dobrada era esquecida a regra que a "alta" organização militar tinha instituído, da porção destinada a cada homem, reduziam-se as doses, para se poderem aumentar, quando se tratasse de outras ementas, mais apetecíveis.
Vinho que, de servido apenas um copo, cada qual passou a poder servir-se do que desejasse, sendo que o gasto era menor, em virtude dos que preferiam regar a refeição com cerveja (era necessário comprar), deixavam de levar a dose da bebida que lhes cabia, para oferecer a um amigo. Afinal ele podia ir buscar mais!...
Refira-se que o trabalho do cabo Onofre e consequentemente, o do rancho não era nada facilitado, funcionando muitas vezes na base de simpatia e da humildade inspirada por este, em virtude do comando nunca ter tomado a iniciativa de, todas as manhãs, manter disponível uma viatura para as deslocações ao Dundo, onde era necessário levantar, sem sobressaltos, carne fresca para ser trabalhada a tempo da confecção dos almoços da tropa.
Era notório um maior privilégio individual dos oficiais do que a atenção devida ao colectivo, por isso mesmo menosprezado por certos motoristas escudando-se, sempre que convinha, no serviço do superior, para se escusarem ao trabalho da deslocação.
Algumas manhãs, chegou a instalar-se o pavor de não se poder cumprir, o levantamento do tipo de carne estipulado a servir-se, pelo menos à refeição do meio-dia.
As mulheres nunca deixavam de estar na mente de gente tão nova, como a que formava o esquadrão.
Nas aldeias, as indígenas, comentavam as interessadas, que não valia a pena dedicarem-se aos militares, porque afinal os da milícia, além de possuírem mais "alangongo" (dinheiro), eram mais generosos na atribuição de quantias a compensar "favores".
Não esquecer o facto da Diamang possuir perto da Portugália, um quartel com a sua tropa, organizada como qualquer milícia, com o intuito de defesa da sua actividade.
No tocante ao elemento feminino étnico tudo era diferente do conhecido, na cidade da Gabela. Um belo dia, dois militares, deambulando em busca de sensações amorosas, na periferia da vila, meteram-se com duas mulheres:
- De imediato saltaram os respectivos maridos e moveram-lhe uma perseguição, que só terminou, com os lesados à porta das instalações de trabalho do comandante, a quem formalizaram queixa, enquanto os fugitivos, com invejável preparação física se misturavam na caserna com os colegas.
O Capitão Ferrand de Almeida, pouco contente com o sucedido, à hora da refeição do almoço, ordenou a formação de todo o contingente, onde lançou a palavra cobardes, para referir os então desconhecidos. Os mesmos podiam obter a sua benevolência, se fossem até ele com uma contrita confissão. Disse no discurso!
O Onofre sabia de quem se tratava, pelo desabafo de um dos intervenientes, Leonardo, único conterrâneo e dos maiores amigos.
Conhecendo bem a filosofia do comandante, pensou numa maneira eficaz de defesa dos implicados.
A partir daí, de imediato foi conferenciar com o Sebastião, outro amigo também conhecedor do "terreno".
Depois de se estabelecerem os prós e os contras, os rapazes foram aconselhados a denunciar a sua culpabilidade.
Tudo correu de acordo com a melhor previsão e antes do repasto da noite, com tudo em formatura, para ouvir o responsável máximo dizer:
- Afinal detinha o comando de um esquadrão de verdadeiros homens, dos que tinham sabido dar a cara pelos seus erros, pelo que ficara satisfeito.
- Era assim Ferand de Almeida!...

Daniel Costa

segunda-feira, 7 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

INDICIOS DE TERRORISMO NA LUNDA

Até que a doze de Setembro, o esquadrão mudou definitivamente para instalações na vila da Portugália, a verdadeira sede do poder local do estado na zona, pelo que não se tratava de acaso. Tudo o que existia em armazém acompanhou.
A circunstância acarretou muita atenção e trabalho redobrado, até porque o gosto da arrumação era uma faceta do titular.
No dia seguinte de manhã, ainda houve muito a organizar, até que aquele departamento era, consensualmente, o mais bem ordenado de toda a nova instalação militar.
Dia vinte e seis foi recebida a visita do então Ministro da Defesa Nacional, havia que mostrar-lhe algo de interessante que se tivesse feito no aquartelamento.
Aconteceu que só o depósito de géneros alimentícios orientado, por Onofre, foi considerado merecedor da visita daquele alto titular da Nação.
No fundo, tinha-se ali iniciado uma existência em que a propensão organizativa sendo um facto, podia ser exercida com maior consistência.
Foi assim, que a fértil mente de Onofre se entregou a lucubrações mais pausadas, que andavam a assaltar o seu íntimo.
O que levaria a organização militar em 1963, a cogitar a defesa de toda a Lunda, instalando-a em força, onde não tinha chegado ainda a sublevação?
Era notória uma quase repentina cobertura de todo o território de posições militares.
Embora se pudessem contabilizar mais, mencionam-se apenas três factos, que chamaram a atenção do Onofre, para o possível embrião de rebeldia, a médio prazo, naquela imensa região de Angola.
Em primeiro lugar, a atenção recaiu sobre o peculiar da descoberta da actividade revolucionária do mulato, chefe do Correios da Portugália.
Balarina luba

Inevitável a captura do mulato chefe dos Correios. Numa ausência do comandante do esquadrão, foi apanhado e aprisionado numa dependência do aquartelamento, onde sofreu sevícias de toda a ordem de muitos militares.
Nada de estranhar naqueles tempos e circunstâncias, porque a personagem devia ser mesmo terrorista de elevado estatuto, revelando pouca inteligência na colaboração.
É que os militares, na passagem para o Dundo, em locais, como a cidade de Nova Lisboa, muitos tinham registados, inúmeras fotografias.
Utilizando o mesmo método das anteriores posições, inclusive na zona operacional, fazer os envios dos rolos de películas, acompanhados das importâncias de custos para fotografias de Luanda, embrulhos sem qualquer requinte de correio registado.
Aparecia sempre tudo revelado, assim como as cópias, por vezes com bastantes repetições, sobretudo as mais bem conseguidas, com vista ao envio a familiares, amigos, namoradas e obviamente a Madrinhas de Guerra.
Todos os militares se tinham questionado pelo facto de, repente tudo ter falhado sem excepções.
Com aquele caso, tinha chegado a resposta, para a grande incógnita.
A vingança fez-se, de muitas torturas corporais, não poderiam haver outras compensações, porque os rolos teriam seguido para células terroristas sedeadas no Congo, a uns escassos oito quilómetros de distância.
Onofre nunca mais deixou de recordar o seu rolo, assim desaparecido, tirado na segunda cidade de Angola, Nova Lisboa, pelo menos uma tinha como fundo o imponente busto do seu fundador, o General Norton de Matos.
Conjecturou ainda sobre o atravessamento do caminho, pelos dois pretos armados de "Canhângulos", junto ao rio onde se tinha dormido sob a GMC avariada.
A defesa dos tigres teria sido só conversa para branco, pois aqueles senhores não seriam mais do que uma amostragem de células inimigas, latentes naquela imensidão, onde só se avistava atraente paisagem verdejante.
Outro facto muito recente, que Onofre vivera, sem sombra de suspeitas, debaixo de enorme mangueira, dentro do perímetro do aquartelamento, onde se colhiam frutos, de quando em vez, para enriquecer as saladas, a servir de sobremesa nas refeições.
Desenrolou-se uma conversa com um nativo, a revelar-se de mente evoluída. Mesmo sob o ponto de vista continental, mostrava um coeficiente de inteligência razoável, o seu português era fluente, além de que também se expressava bem em francês.
Era novo com namorada congolesa, pelo que passava sempre o fim - de - semana no Congo, afinal ir para lá ou estar para cá da fronteira, era só uma questão de expressão linguística!...
A interessante personagem evaporou-se na noite e ali estava agora o cabo a questionar, se a mesma não teria estado ali na qualidade de espião, antecipando uma futura sublevação, afinal já vislumbrada pelas autoridades coloniais e o exército?
Ficava em aberto a questão!...

Daniel Costa


sábado, 5 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

ABASTECIMENTO PELA DIAMANG

Não se tratava de um acaso, já que em 1963 toda a vasta região da Lunda contava com muitos acantonamentos militares, de todas as Armas, inclusive artilharia pesada.
Primeiro, porque será das regiões de África com o subsolo mais rico, sobretudo em diamantes, depois por fazer fronteira com um país recentemente descolonizado, o Congo já a viver a sua independência, com as nefastas consequências que se conheciam.
Para quem não tivesse alguma bagagem cultural, para encaixar estes factores ou que não tivesse para se ralar com pormenores, estes factos podiam passar à marginalidade.
Na humanidade da sua pequenez, Onofre vivia intensamente, com prazer a oportunidade de ir evoluindo, enquanto mobilizado, na certeza de executar o melhor possível as tarefas que lhe destinavam no espaço temporal.
Definitivamente constituída a nova equipa de manutenção, o dia vinte e seis de Agosto foi de muito trabalho, já que urgia arrumar todos os géneros trazidos de Henrique de Carvalho.
Sobrou tempo, para assistir à grande festa indígena que, anualmente, se processava no Dundo, com o beneplácito da Companhia Diamantífera Diamang no seu respeito pelas tradições lúdicas locais.
Uma festa muito interessante, onde eram atribuídas medalhas e prémios monetários a nativos, que comemoravam vinte anos de serviço, após o que eram rodeados jubilosamente pelas suas várias esposas, sendo que na etnia quioca a bigamia era tradicional na natureza humana.
Da assistência saiam as suas mulheres para festejar o premiado marido

A importância da riqueza de cada homem podia ser aquilatada pelo número de mulheres que possuía, sendo cada uma sua trabalhadora, porque no seio daquele povo o labor do campo era mister de mulheres.
A festa continuou no mesmo recinto da cidade, com banda musical apenas de elementos nativos, com interpretações de música moderna a animar a concentração.
No prosseguimento da novas funções, o dia seguinte, começou pela ida de Onofre ao grande armazém da carne, que servia a Diamang, Companhia a que o agrupamento estava agregado, para se abastecer da maioria dos alimentos, como carnes, peixes, ovos, batatas, vinhos e outros.
Na zona qualquer estrutura colonial só podia depender daquela fonte, com vários centros.
O cargo de encarregado do depósito de géneros, fazia o mesmo ter necessidade de idas diárias ao Dundo, por vezes também à periférica Cacanda, onde se situava o aviário.
No dia vinte e sete de Agosto, houve a ida à noite, ao único cinema existente na cidade, a funcionar apenas um dia por semana, às quartas-feiras.
Passou o filme "Duas Mulheres", com Sofia Loren.
No dia seguinte, a primeira quinta-feira que o Onofre enfrentou o único, portanto obrigatório, armazém de géneros alimentícios da região dominada pela toda poderosa Companhia dos Diamantes, até em relação ao corpo militar, que em nada devederia depender do poder civil.
Tudo acabou por andar bem, pois já havia sido entregue a respectiva e necessária requisição dos bens a adquirir, tirada do livro também ali fornecido, que ficara na já posse do mesmo responsável militar.
O chefe do poderoso armazém, que passara a tratar o interlocutor, pelo nome próprio, em conversa aproveitou para desenvolver o seguinte diálogo:
- "Consta ser no seu esquadrão que se fabrica o melhor pão de toda a Lunda!... "
O Onofre nunca atentara naquele grande privilégio, banal por recorrência. De facto os padeiros tinham ido do Esquadrão 297, pelo que sem se dar por isso a qualidade era inalterável.
Viu uma oportunidade de obter favorecimento. De imediato a explorou, oferecendo àquele chefe a possibilidade de lhe ser fornecido o pão diariamente.
Havia um óbice, visto apenas pelo interessado, era o ter de ser um dos criados negros a fazer a recolha.
O assunto foi resolvido com facilidade, com um cartão assinado pelo militar, que o responsabilizava, pois no esquadrão não havia problemas de racismo como impedimentos.
A partir daí os padeiros, aquartelados e a trabalhar no forno, no Dundo passaram a contar com um cliente especial e o encarregado obteve a mais valia de tratamento diferenciado. As políticas da Companhia passaram a ser menos fechadas para o militar.
O novo cargo exigia muita dedicação, atenuada por ajudantes variados, para o muito trabalho a efectuar.
Para efeitos de abastecimento de produtos comestíveis, oriundos da manutenção militar, havia dois pelotões adidos ao esquadrão a operar nas redondezas, que semanalmente, iam abastecer-se naquele depósito.

Daniel Costa

quinta-feira, 3 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

PLANALTO DA LUNDA

Acordou-se no dia seguinte, com o nascer do astro rei, após o que atravessaram o caminho dois indígenas armados de "Canhangulo" (continuavam as espingardas improvisadas).
Mal sabiam articular algumas palavras em português, mas fizeram-se entender, tanto mais que, se tinha aprendido várias expressões de quioco, a língua nativa da vasta região, o que deu para entender o que articulavam.
""Mata" (senhor), arma servir para matar tigres", depressa se eclipsaram selva fora. Tão meteoricamente como apareceram, deixando finalmente todos apreensivos, pois nunca se tinha pensado em animais ferozes, naquele outro mundo onde a luxuriante vegetação esconderia um reino animal de temível.

Ensaios de danças nativas, na Aldeia do Museu do Dundo
 
Passou uma manhã e chegada a hora, preparou-se o almoço. A panela, a fogueira, na margem do rio. De novo os providenciais mantimentos: bacalhau, batatas, couves, cenouras, nabos, azeite, vinagre e alhos.
Depois da confecção estava a passar o que se esperava:
- Um chefe de posto, um mulato no Jeep que lhe estava distribuído, já que ocupava um lugar na pirâmide daquela estrura colonial, controlando toda a população nativa da zona de Xa-Cassau, onde estava instalado.
Distava cerca de trinta quilómetros do ponto em que ficara imobilizado o núcleo militar em deslocação de serviço.
Aquele elemento estatal prontificou-se a prestar a assistência necessária, até que, por volta das dez horas da noite já se tinha atingido as instalações do seu posto.
Devido ao avanço do dia e a uma maior proximidade do destino, a cidade capital da Lunda, aproveitando a hospitalidade oferecida, jantou-se e dormiu-se em Xá-Cassau nas suas instalações.
No dia seguinte estava-se a tratar-se dos abastecimentos, que os levara à cidade, dado que não se conseguiu resolver tudo no mesmo dia, acabou por se pernoitar num destacamento da Intendência Militar local, equipamento ideado para abastecer toda a tropa estacionada na região.
Veio o dia vinte e quatro do mês de Agosto, às catorze horas, já com todos os abastecimentos possíveis deu-se o regresso.
Faltavam as cervejas "Cuca” destinadas à cantina. Com o tempo de comissão completo, rumo a Luanda, com destino ao barco que os levaria de volta ao "puto", na versão local.
Dava para perceber uma invasão de Angolares, por cada iminente passagem à peluda, pois era normal o pagamento de “ajudas de custo aos militares”, em fim de comissão, com o natural regresso.
Além de ser o primeiro passar naquela povoação, de regresso à metrópole, a euforia era tal, que cerca de seiscentos militares, detentores de avultadas somas de dinheiro jamais detidas por muitos. Numa cidade pequena, era lógico o esgotamento de produtos aprazíveis e de consumo imediato, existentes em qualquer cantina da tropa.
Às dezasseis horas, nova avaria na GMC. A tipologia daqueles pesados carros que, cedidos ao exército de Portugal, depois de terem servido os Aliados na Segunda Grande Guerra, que tinha devastado a Europa, havia cerca de vinte anos, estava muito ultrapassada.
No entanto a equipa em que se integrava o Onofre, fez chegar o carro ao seguro posto de Xá-Cassau, que se tornara circunstancialmente referência estratégica.
Voltou a pernoitar-se nas instalações do respectivo chefe, mais uma vez a demonstrar grande simpatia, com o oferecimento de uma churrascada africana. Desta vez, retribuída com algumas "Cucas", das que se puderam trazer da cidade, onde em cada dez pessoas, com quem se cruzava, nove eram fardadas.
A vinte e cinco, com a pesada viatura a reboque, de uma outra, fazendo parte das duas que, de Henrique de Carvalho, haviam chegado entretanto, em socorro.
Chegou-se ao rio já referenciado que, ficava sensivelmente a meio caminho do Dundo, onde com receita igual às anteriores descritas, se procedeu ao ritual da refeição do meio-dia.
Tudo isto era passado por Onofre, em jeito de bonomia, o pior seria o estado de inveja que poderia trazer a algum adepto do campismo, com o dom da ubiquidade de puder observar a bucólica cena.
Pelas oito da tarde, a GMC mesmo a reboque, teve outro acidente, contou apenas de uma mola partida e mais um atraso.
Às nove horas, chegou-se enfim, ao aquartelamento de Artilharia, perto do Dundo, deixando na origem um dos cabos que integrava a expedição. Ali se processou ao que seria o último jantar do grupo.
Deixando também o sargento, o Onofre pôde dormir na tranquilidade do seu alojamento nas instalações provisórias, próximo do Luachimo.

Daniel Costa


terça-feira, 1 de junho de 2010

AMOR NA GUERRA

ABASTECIMENTO EM SAURIMO

Os componentes oriundos da Gabela, do Esquadrão 297, passaram a ter em mãos todo o controlo logístico do novo Esquadrão eventual 350, que se formara do Batalhão com o mesmo número para servir na Lunda Norte.
A fraca mentalidade de muitos elementos do novo esquadrão, era uma fatalidade notada, tornando-se visível o facto de os respectivos comandantes na origem, terem optado por enviar novatos ou tudo o que era material humano menos qualificado, o que tinha de ser entendido como lógico.
Como o sargento que iria coordenar o sector da alimentação teria a ido embora, porque pendia sobre ele uma acusação de peculato, a ser julgada no Tribunal Militar de Luanda, por interferência do Sargento Pinedo, também ido da Gabela, sem mostrar pretensões a qualquer distinção, a reestruturação foi levada a efeito, com a dignidade que muito devia agradar ao Capitão Alves Ribeiro, se tivesse ocasião de observar o feito, conhecida como era a sua estrutura moral.
Onofre tomou o lugar do sargento coordenador do rancho, que já ia proscrito; o cabo que seguira do esquadrão do comando, com a especialidade de escriturário, foi substituído pelo Soeiro; para a cantina a nomeação recaiu no Paulo; na enfermaria um maqueiro; na cozinha, um soldado: na padaria também dois militares, tudo do 297, em lugares de importância para a manutenção da força.
Todos estes postos passaram a funcionar em pleno, mesmo muito afastados mostravam as virtualidades do agrupamento donde eram originários, o Esquadrão 297.
Depois da reestruturação, a vinte e um de Agosto de 1963, juntara-se nas instalações que iriam servir de quartel na vila da Portugália um grupo a deslocar-se a Henrique de Carvalho (Saurimo), com uma camioneta GMC, composto por um sargento, responsável pelo rancho de uma companhia de Infantaria, um cabo com as mesmas funções, num pelotão de Artilharia e o recente nomeado Onofre, equivalente no esquadrão eventual, além do condutor.
Quiocas pescando num pego do rio Licoco

A viagem vai ser contada, porque se tratou do que pode ser visto como uma odisseia, daquelas que as guerras podem proporcionar, em inóspitas regiões como foi o caso.
Saiu-se às cinco horas da manhã, com tudo a correr bem, até que às onze e trinta, hora em que se deu uma avaria, na única viatura que seguia, cuja foi remediada no meio de uma tórrida temperatura.
A seguir foi retomado o caminho com o atravessamento, pela ponte de madeira, que servia de passagem sobre um estreito rio, seguiu-se de imediato uma ravina, onde a viatura voltou a avariar.
Uma questão, e os meios para a resolver?
Ali estavam os quatro elementos, que compunham a expedição de braços cruzados!...
A única coisa que se podia fazer, era olhar com deslumbramento a linda paisagem. Estava-se no planalto da Lunda, terra desabitada em todo o horizonte visual, a muitos quilómetros do aquartelamento, sem qualquer meio de transmissão, que numa situação de guerra do século XX, seria da maior conveniência.
O chefe da expedição, que naturalmente tinha de ser o sargento, como era chegada a hora do almoço e em virtude de se estar à beira de um rio com água potável, um bem essencial, a primeira reacção foi a de se tratar da alimentação.
Uma fogueira, panela com bom bacalhau, batatas, couves e os necessários acompanhamentos, com todos os ingrediente, saiu uma lauta refeição verdadeiramente campestre.
Só depois se equacionou, profundamente, a precária situação!
- Falou o sargento, mostrando-se muito calmo e ponderado, mostrando experiência vivencial, além do posto mais elevado, a sua naturalidade era visível, também porque mais velho por ser um dos que tinham sido novamente chamados às fileiras, em razão do problema de África.
Pelo exposto, as suas palavras foram bem aceites, mesmo depois de ter dado a palavra a todos.
Sentenciou que o grupo podia estar ali, como média, três dias até que passasse alguém, em viatura para se deslocar em busca de socorro.
O assunto ficou por ali, havendo a certificação de que para o espaço de tempo havia alimentos suficientes, ou não se tratasse de uma embaixada constituída por responsáveis pelos ranchos de agrupamentos militares.
Onofre, como se vivesse uma situação normal, preparou-se sem constrangimento, pois avistava-se um imenso comprimento do rio, de águas cristalinas, a banhar o terreno, o mesmo que se mostrava, atravessando uma paisagem extremamente bela.
Chegou, entretanto, a noite e todos se preparam para a passar, dormindo debaixo da GMC.
Naquele cenário deslumbrante, onde os ruídos surgidos da floresta eram como uma música celestial, a dormida daquele vinte de Agosto de 1963, acabou por ser balsâmica.

Daniel Costa