quinta-feira, 20 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

A MONTANHA E A CIDADE

Além da montanha por onde o comboio, Gabela - Porto Amboim fazia trajectória, outra de menor altitude bem visível da cidade ficou para Onofre como marca indelével da capital do Amboim.
Aquela montanha, juntamente com o cultivo do café, que marcava a grande riqueza da própria cidade da Gabela com muitos "arimbos" (quintas) em redor eram dignos de nota,
Um militar, se atento, não podia de deixar de admirar e até fixar para uma aprendizagem de futuro, tendo em conta não estar a fazer carreira no exército.
Contribuía também para essa riqueza a forma de alimentação da flora do café, Era feita por meio de folhas dentadas das muitas árvores que se encontravam plantadas entre os cafeeiros, estam caíam no chão e desagregavam azoto e outras substâncias que iam caindo até á raiz das plantas, alimentando-as.
A montanha que se avista da cidade da Gabela

Na altura a população do Amboim, que se estendia por uma área de 9.879 quilómetros era recenseada em 3.076 homens civilizados (leia-se brancos) e 92.176, não civilizados.
Dos não civilizados, alguns também possuíam os seus pequenos "arimbos", com plantações de cafeeiros cujo produto de inferior qualidade, era vendido aos vizinhos brancos.
A explicação para a inferioridade era a de, os respectivos agricultores não se esmerarem na manutenção do cultivo. O que a terra dava bastava-lhe para o sustento, pelo que após a venda gozavam o produto monetário, sem outra preocupação do que esperar nova colheita em safra, que apenas o ritmo do tempo haveria de trazer.
Não esquecendo, que o Esquadrão se regia, sobretudo pela actuação militar. Controlavam-se porém outras sagas, como a das Madrinhas de Guerra, em grande parte objectivando a sua "promoção, como então era voz corrente, podiam almejar ao namoro o que muitas vezes aconteceu.
O Onofre chegou a receber correspondência de dezassete. Por cada uma que deixada de escrever, o que estava constantemente a acontecer, era mister arranjar duas. Não obstante a Ana Zé, com a juventude dos seus dezasseis anos, com muitas cartas a trazerem alguma conversação sobre lições do liceu que, frequentava, eram de um sabor inebriante, ao serem lidas e relidas com toda a atenção.
A Rua principal da cidade da Gabela

O jogo de cartas acabara, definitivamente as amizades mais próximas, mercê de novo enquadramento mudaram. Porém os verdadeiros amigos nunca deixaram de o ser.
Foi assim que se verificou uma aproximação de pontos de vista do Onofre com o Soeiro, um cinéfilo nato. Ambos começaram a engendrar o coleccionismo de fotografias de artistas. Ao tempo um homem só se fazia a fotografias de artistas mulheres, por questões económicas, cada um dos consórcios escrevia a uma vedeta diferente, só depois de uma resposta conclusiva, o outro avançava com a solicitação.
As moradas eram extraídas, normalmente de uma publicação semanal em revista chamada PLATEIA, era muito acessível e tinha secção própria de moradas de agentes de artistas a actuar em espectáculos ou a editar discos, onde estavam sedeados os contactos.
Acrescenta-se, para indicar ter o mesmo periódico também secções para os mais variados pedidos, como de namoros, trocas de correspondência, grande parte se incluíam Madrinhas de Guerra.
Enfim, corriam outros tempos!...
Só a vinte e três de Abril, chegou a vez de Onofre entrar de cabo da guarda ao paiol situado obviamente, num descampado perto das traseiras do aquartelamento.
O serviço era efectuado por um grupo de três elementos, composto por outras tantas praças uma delas, cabo a comandar a força, que se revezava diariamente, um dos quais aproveitava a noite para a passar no "muceque" onde tinha a lavadeira namorada.
Nesse serviço e em todos coube ao Onofre a primazia, depois era norma este voltar de madrugada.
Mais tarde o estado de graça iria mudar como se verá.
Nessa altura já o Capitão Alves Ribeiro tinha reunido todas as praças em formatura, mostrando-lhe o seu apreço e ao mesmo tempo falar do tema mulheres.
Ao contrário do que podia estar nas mentes, o comandante só alertava para a possibilidade de haver desacatos, era evidente que em muitas "sanzalas", o dono da casa que nunca que era visto, ficava voluntária e temporariamente desalojado.
Na alocução ficou dito que, apesar de tudo se viesse a haver algum ferimento, ficaria muito desapontado se acontecesse a algum militar, cujo podia sempre contar com o seu empenhamento pessoal.
Como é evidente, todos se congratularam, porque foi frisada a pena de não poder distribuir uma pistola, para acompanhar sempre cada militar.
Onofre que, se fazia acompanhar invariavelmente de uma granada ofensiva, material de guerra que contra as regras, só viria a entregar no Grafanil, no fim da comissão, sem revelar o segredo concluiu que agia acertadamente.

Daniel Costa

quarta-feira, 19 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

GABELA - AMBOIM

Chegou o Dia de Páscoa, a catorze de Abril de 1963 e a escala de serviço, apontava a nomeação de Onofre para Cabo de Dia, o que dava como consequência o ficar a exercer um serviço interno ao Esquadrão, provocando a impossíbilidade de saída, facto que deferênciava bem o tipo de trabalho, em quartel de uma cidade, em que tudo podia ser programado, ao invés do exercido em pleno local de intervenção de guerra, onde a ordem podia ser alterada, pelos mais variados imprevistos, causados por alertas, que poderiam surgir a qualquer momento.
De qualqur modo, a estabilidade era uma nova evidência a que todo o pessoal se estava a adaptar, entre o exercício dos mais variados serviços e os dias de folga, em que se podia visitar a cidade, estar no único estabecimento de café existente, ir à sessáo semanal de cinema, ou a jogos de campenatos distritais disputados no A.R.A. - Associação Desportiva do Amboim, à piscina municipal e ao interessante Mercado Municipal.
Ao domingo, uma das opções, era a visita aos "muceques" que se situavam em redor da cidade, sobretudo ao do Aricanga, que dispunha de uma sala de cinema, destinada a autótenes, mas em que os militares, da classe de praças, não menosprezavam assistir à sessão domingueira.
Também se voltara a tornar usual ir dominicalmente à missa, na bonita Catedral da cidade.
Catedral da Gabela - saida da missa

A dezasseis de Abril Onofre, por escala, contituíu um grupo de serviço de patrulha, como sempre, composto por três elementos: Sargento, cabo e soldado raso, montados em Jeep, a tarefa era vigiar tida a cidade, em que se incluíu a Roça dominada por Covil do Perigoso, onde foi oferecido um lanche aos militares, com a inclusão de umas "cucas" fresquinhas que foram divinais, num dia que se apresentava tórido.
Das tropas estacionadas na Gabela, faziam parte núcleos militares, nas vilas de Quibala e Porto Amboim, daí que surgissem também viagens de serviço, normalmente transporte de informações, necessárias a todas as redes operacionais.dos exércitos.
Em vinte de Abril um Jeepão com pequeno grupo de militares, onde ia integrado  Onofre, foi incubido de se deslocar a um desses destacamentos, em Porto Amboim: A operação acabou por se gorar, devido a uma tempestade que passara pela zona, fragilizando ainda mais, uma velha ponte de madeira do caminho, que não aguentou a passagem da viatura.

Atribulada e gorada a viagem a Porto Amboim

A tropa, com o seu próprio esforço, conseguiu retirar o veículo. Mesmo assim a missão ainda seguiu em frente até ao grande colosso da C.A.D.A. onde se almoçou o inefável pacote de ração individual de reserva.
Depois o comandante, um sargento, devido ao dilúvio que por ali tinha passado, verificou nâo haver condições de prosseguir a viagem e optou pelo regresso à base.
Ficou contrariado o grande desejo aventureiro do Onofre, de lhe calhar em sorte uma missão à vila portuária de Porto Amboim, mas mesmo assim, detectou motivos de nota.
A determinada altura, estava-se como que sem orientação. Abordado um nativo, à pergunta:
- Porto Amboim, ainda fica longe?
- Fica sim!...
- Feita a mesma, ao contrário - Porto Amboim fica perto?
- Fica sim!...
A interpelação foi feita a outros transeuntes nativos, sempre com o mesmo resultado.
Ficou logo a certificação, que os indíginas a viver mais afastados dos centros dominados pelos colonos, só sabiam alguns monólogo da língua portuguesa.
Verificou-se o grande desenvolvimento agrícola, que realmente existia na povíncia do Cuanza Sul , pois grande parte do caminho estava bordejado de laranjeiras, que na circunstância e com a colaboração do condutor, a acção dos militares fazia juncar de laranjas o estrado da viatura, que depois transportou para o quartel, tudo executado em andamento.
Anotou-se posteriormente, que as missões seguintes, do Esquadrão áquela vila da beira mar, foram feitas no comboio do Amboim.
Ouvir descrever as peripecias de quem efectuava a viagem era, como que, ouvir um conto de aventuras.
Cabe descrever o elevado tempo gasto, para andar, naquele comboio, cerca de cento e vinte quilómetros de linha, ida e volta. Tinha de andar em volta de uma montanha, por onde passava, ainda próximo dos laranjais.
Dava o tempo necessário, apoveitado nas calmas, para encher o bornal de frutos daquelas árvores e depois de devidamente abastecidos, voltar a tomar o lugar na viatura do caminho de ferro.
Estava-se perante parte do folhetim da vida que se oferecia a quem estacionava em serviço militar na Gabela.
Isto e muito mais, fazia Onofre, oriundo de meios modestos, recordar o título e o conteúdo do livro de Camilo Castelo Branco
- "Riquezas do Pobre e Misérias do Rico"!...

Daniel Costa

segunda-feira, 17 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

A CIDADE DA GABELA

Tinha chegado a altura de todo o Batalhão 350 passar dois dias ao Grafanil, local de passagem para o Quanza Sul onde ia estacionar em serviço.
A mesmo tempo um prémio, pelo tempo em operação a Norte, onde se estava a desenvolver o terrorismo, uma das causas próximas a originar a Revolução de Abril de 1974.
Ainda a 7 de Abril de 1963, toda a gente, em formatura ouviu ordens e boas palavras do respectivo comandante, para gozar bem a breve estadia na cidade de Luanda.
No mesmo dia em que o Onofre, com a sua camaradagem, experimentou as delícias de um jantar num bom restaurante da cidade, a mesma que num exame de instrução primária, naquele tempo chamado de segundo grau, complacentemente, na oral o examinador fazia lembrar a certo examinando o nome da capital de Angola com o trocadilho - "terra onde a lua-anda".
No dia seguinte deu para verificar que o inóspito Grafanil de Janeiro de 1962, em que eram estreadas as primeiras casernas, em 1963 podia ser visto como uma grande cidadela.
Já não havia carros civis a parar a toda a hora, junto aos portões, prontos a transportar soldados disponíveis até à cidade, nem as camionetas militares a hora certa, para condução do pessoal que desejasse passar as horas de folga nas delícias da civilização.
Havia casas de banho em lugar de sentinas e ainda duas salas de cinema a funcionar diariamente. Como a exigência se avolumara, já se formavam carreiras regulares de "maxibombos" (autocarros), para a terra que os militares estavam a transformar numa novíssima "Somorra", bem enquadrada pelo Atlântico, naquela baía africana linda de morrer.
No dia seguinte ainda se dormiu em pleno Grafanil e como, ao fim e ao cabo, o que havia ali mais a fazer era gozar o máximo na capital portuária da África Ocidental Portuguesa, foi esse o estímulo que cada qual concedeu a si mesmo.
Na madrugada do dia nove, terminado o efémero idílio, o Esquadrão retomou a sua rota para o concelho do Amboim, com a capital sedeada na cidade da Gabela, onde estacionou o grosso, com o comando.
Para Onofre toda a novidade era aventura, estava a dar-se uma nova fase da mesma, para o que contribuía, todo aquele magnífico cenário africano.
Do Grafanil passou-se pelo Dondo, onde teve lugar o almoço, depois aproveitou-se para uma visita à famosa barragem de Cambambe, donde se seguiu viagem até Quibala, com a passagem da noite, em cima das caixas de camionetas civis, com algum frio, a parecer estranho em África, além da habituação em contraste adverso no norte.
Às quatro da manhã seguiu-se até ao destino, a cidade da Gabela.
Na entrada do que sendo uma cidade ainda nova, não deixou de se anotar, vir do uma chuvada, que obrigou toda a tropa a ter de esperar que secasse o trilho de terra batida, que provia o acesso à cidade. Para conseguir percorrer as poucas dezenas de metros que levavam ao primeiro edifício, o que viria a servir de quartel, enquanto a companhia a substituir se encontrava instalada noutro local, com o fim de transferir o material e missão naturalmente.
Edificio onde o Esquadrão ficou sedeado e parada militar

O contingente substituído novas experiências transmitiu, mesmo a nível de praças.
A grande e interessante surpresa, tinha a ver com as facilidades encontradas no relacionamento com mulheres.
Ainda estava longe de ser conhecida a revolução sexual, que já era factual por aquelas paragens.
Agora com a acomodação no edifício, que fora um antigo presídio colonial, cujos desterrados da metrópole motivaram, dizia-se, a fundação da Gabela, apontavam mesmo a origem de alguns comerciantes estabelecidos, o próprio Onofre tinha tido como companheiro de trabalho um ex-presidiário que parara naquele desterro.
Estava-se pois na capital do Amboim, na província do Cuanza Sul, uma das zonas agrícolas mais ricas de Angola. Além de muitos "arimbos" (fazendas), onde se cultivava uma das melhores variedades de café do mundo, integrava a grandiosa C.A.D.A. - Companhia Agrícola do Amboim, servida por comboio até à vila de Porto Amboim, na orla marítima, com o seu porto para escoar a grande produção verificada.
Após a definitiva instalação, os militares tudo jovens rapazes, evidentemente -"com eles nem o diabo quer relações" - começou a ser posto em prática tudo o que ali se tinha aprendido, extra obrigações militares.
Em breve, cada qual tinha a sua lavadeira num dos "muceques" (aldeias de sanzalas) periféricos e a consequente "cubata", onde passar a noite em comunhão idílica com a indígena que passara a tratar da sua roupa.
Tudo se iniciava assim:
- Queres ser a minha lavadeira?
- "Eu querer minino, mas só lavar roupa, pés não lavar, não ser dessas"!...
Era a deixa essencial, para a mulher se fazer conquistar, pois nessa mesma noite já a "cubata" estava à disposição para o “lava-pés”, uma maneira mais airosa de referenciar a acto sexual.
Assim quem não tinha o nome na ordem de serviço, podia ser encontrado a passar a noite numa das "palhotas" do bairro Sousa ou do Aricanga em agradável companhia feminina.

Daniel Costa

sexta-feira, 14 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

O MÍTICO MORRO DA PEDRE VERDE

No dia cinco de Abril do ano mil novecentos e sessenta e três, todo o Batalhão espalhado por várias Fazendas na região dos Dembos, a norte de Luanda, deixou essa zona de intervenção.
Depois de cumprido ali o tempo de guerra em zona operacional, iria instalar-se mais a sul, onde o serviço era destinado apenas a salvaguardar com a sua presença, a soberania portuguesa no território, enquanto se iria dedicar a uma acção psico-social mais calma.
A verdadeira aventura do Onofre começou logo nessa manhã, no corredor entre o Tari e o Mucondo, num sítio onde se evidenciava uma curva, ideal para os terroristas da UPA, planearem uma emboscada ao Esquadrão.
Aconteceu durante quarenta e nove minutos, estalaram inúmeros disparos, por parte das tropas atacadas em movimento.
Pela única vez o Esquadrão se viu envolvido num ataque de tal envergadura. A estrada tomara o aspecto de uma verdadeira batalha, o armamento disponível já não se usava, mesmo para o tipo de guerrilha a despontar. Era o proveniente da substituição, composto por Mausers e metralhadoras ligeiras.
Onofre, especialista em metralhadoras pesadas, do que sempre fora acompanhado, surpreendeu-se com a destreza evidenciada, primeiro com uma espingarda Mauser, depois a municiar uma metralhadora ligeira, já que o respectivo apontador, a trabalhar individualmente com aquela arma, por muito bom que fosse e provou-o. Funcionando como atirador e a carregar as balas, não podia extrair o rendimento devido.
A nova dupla acabou por funcionar bem pareciam ter treinado juntos a acção, já que o fogo a sair do cano da arma, passara a ser muito denso.
O ataque acabou por ser o mais longo que o conhecido usualmente, em que a técnica usada era o "bate e foge".
Aquele, porém foi muito vasto, era uma retaliação reservada ao 297, uma vez que o Esquadrão tinha sido considerado pelo inimigo, inacessível ao poder militar da força terrorista da região.
Ao avaliar os estragos, houve quem subisse de novo às camionetas e ainda visse fugitivos muito ao longe, a lei da balística contrariava as hipóteses de os atingir, não obstante ainda houve bastante tiroteio, á mistura com contundentes imprecações direccionadas aos "turras" em debandada.
Aconteceu uma verdadeira tragédia de guerra, que se irá contar sem truques de ficção, como é recorrente desta narrativa.
Começa pelo Comandante do Esquadrão, Capitão João Ramiro Alves Ribeiro, a subir à camioneta civil, principal acidentada, a que passava na zona mais nevrálgica atingida por uma granada incendiária. Transportava apenas sacos de campanha, espingardas Mauser e outros pertences de soldados. Tudo ardia e o então Capitão, homem alto, no meio daquela amálgama de fumo tomou a dianteira, trepou e atirou ao solo todo o material em combustão.
Onofre sempre atento a todos os pormenores, pôde testemunhar esse verdadeiro acto de bravura, deixando assim de ficar ignorado, como muitos nas últimas campanhas militares, que a juventude protagonizou em África durante cerca de treze anos.
Foi uma grande odisseia este cinco de Abril, porque se passava o dia mais marcante em más recordações, para todos os intervenientes do Grande Esquadrão.
Quando ainda não havia total conhecimento da dimensão da batalha, em relação à força militar, de outro lado, pode considerar-se actuação de bravura a do soldado Dimas, que com as muitas imprecações evidenciadas, a esvair-se em sangue dos membros inferiores, continuava a disparar, tiro a tiro, com a sua Mauser, em ritmo
Dimas (nome fitício) ficou sempre com
incapacidade num membro inferior

frenético no abre a culatra, fecha a culatra e dispara.
O Dimas já depois de passada a mobilização, ainda se encontrava em Lisboa, a receber tratamento no hospital militar, o que aconteceu durante muito tempo, acabando por ficar com um certo grau de invalidez.
No terreno, muitas observações podiam ser apontadas. O transporte era efectuado por viaturas alheias a serviços de guerra, em campanhas militares. Não obstante a Companhia de Transporte Militares Elefante, que também participava, com camionetas blindadas, ostentando o paquiderme como emblema, a torná-la muito conhecida nos meios.
Debaixo de um desses, um furriel pertencente, com o bronzeado de verdadeiro veterano, manejava a sua arma automática, com perícia, enquanto da testa lhe corria muito sangue. Onofre quase lhe rezara pela alma, felizmente não era caso disso.
Verificou-se que tinha sido atingido, mas só de raspão, o suficiente para sangrar e o deixar marcado por levíssimo ferimento sem consequências.
Um sargento falava para um gravador as suas impressões relativas ao momentoso acontecimento.
Perto, Onofre sempre acompanhado dos inseparáveis papéis e caneta, também tomava as suas notas, para quando possível adicionar ao seu Diário.
Com razoável rapidez chegaram meios aéreos, já desnecessários, mas não deixando de marcar presença com o despejo de alguma artilharia.
Chegou a altura de conferir, não só a devastação, mas tomar conhecimento de outros casos, como o espantoso do Alípio, atirador cuja formação profissional e dotes foram aproveitados para tarefas administrativas.
Por não ter chegado a pertencer à tropa de guerra, foi-lhe destinado lugar ao lado do motorista numa viatura civil. O condutor foi abatido, ao atirar-se para o chão.
Presume-se que o lado do Alipio também estava no ponto de mira, assim que abrisse a porta seria mais uma baixa mortal. Tal não aconteceu, o militar mostrando um coeficiente de inteligência muito elevado, saltou para o lado contrário, ainda que, por cima do cadáver.
No momento seguinte a outra porta da mesma viatura, que não se abrira, foi cravejada de balas!
Anotadas as respectivas baixas, cifravam-se em seis mortos, entre eles o condutor civil e doze feridos.
Reparadas as viaturas acidentadas pela violência, eram quatro horas da tarde, foi retomado o caminho.
O pessoal apenas havia ingerido um madrugador pequeno-almoço.
Uma viatura transportava os cadáveres, a sepultar na Fazenda Mucondo, os feridos já tinham sido evacuados, por helicóptero para o Hospital Militar de Luanda.
O dito " um mal nunca vem só" - nunca terá sido tão bem adaptado. Depois de tudo ordenado reiniciara-se a marcha, por ser época de tempestades tropicais, desatou a chover e ao contrário do habitual, a chuva durou até ao dia seguinte, o que causava enorme lentidão dos transportes.
A certa altura, chegou-se à ex-povoação do Quicunzo e houve necessidade de ser mudada a estratégia da progressão.
Em resultado, a viatura que transportava, os corpos dos falecidos a esmo, passou a formar uma coluna avançada, com escolta própria a que foi adicionada uma outra força, incluindo o próprio Onofre, que nessa noite de seis de Abril, ainda esteve em movimento, andando apenas alguns quilómetros,
Chegou-se á Fazenda Bombo, onde se esperou pela restante componente daquele movimento militar.
Onofre, mesmo sempre debaixo de chuva, talvez por estar esgotado das muitas emoções, dormiu profundamente a apanhar chuva na camioneta civil, em que viajava armado, no serviço de guarda aos cadáveres.
Soldados empurram a camonioneta, em dia chuvoso, com os sadáveres a granel

Chegada a coluna, que tomara a dianteira, à grande cantina da Fazenda, cessara a chuva e a vontade de ingerir alimentos, em virtude do jejum prolongado mesmo os produtos menos atraentes se esgotaram, pelos componentes daquele grupo avançado, que acabou por ignorar o conjunto de militares que o antecediam.
Com a melhoria, evidente das condições atmosféricas, após ser feita a junção das tropas naquela Fazenda.
Foram então os feridos evacuados e a coluna passou a seguir de novo unida até ao próximo acampamento militar do Mucondo, onde estacionara um outro esquadrão da mesma Cavalaria.
Já a sete de Abril os mortos, com a assistência militar disponível, ficaram ali sepultados.
De seguida, foi retomada a ida para o Grafanil, na periferia de Luanda.
Aquela viagem de tragédia, iria passar por estrada alcatroada, trabalho de engenharia militar, coisa que durante treze meses esteve vedada à maioria dos militares que compunham a coluna, como se estivessem a entrar no Éden terreal.
Rumando em estrada pavimentada, logo quase de inicio, deparou-se à esquerda o morro da Pedra Verde, agora pacificado e altaneiro, como um ícone dos alvores do terrorismo, retomado nos mesmos tempos, com foros de heroicidade e a mesma euforia verificada com a reocupação de Nambuangongo.
No mesmo dia, finalmente, por todo o Batalhão reinava uma certa a alegria pela breve passagem a terras de Luanda.
Ia dar-se começo a nova fase da grande aventura do Onofre.

Daniel Costa


quinta-feira, 13 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

JOGO NA GUERRA

O jogo da sueca, com imensa pena do Onofre passara a outro, o do "abafa", talvez por influência de novos elementos, das várias proveniências, que foram chegando ao Esquadrão.
Chegavam em substituições, normalmente na sequência de castigos, por ser zona de intervenção, a considerada de maior perigosidade.
O novo modelo de jogo tornava-se perigoso, por vezes em cima da banca podiam ser vistas boas somas de Angolares, era como brincar com o dinheiro.
Já não era para "intelectuais", como o Onofre, que se poderia considerar um bom jogador de sueca, visto memorizar as cartas saídas. Pelo menos com trunfos divididos, como se dizia, a dupla formada por ele e o Picão ganhavam sempre.
Outra coisa recorrente durante toda a Comissão, foi reparar-se os frigoríficos serem alimentados a petróleo. Uma torcida acesa provocava o funcionamento do motor, gerando o frio, tal como eram alimentados os candeeiros, a alumiar ainda as casas da maioria das aldeias metropolitanas.
Em zona de mato os indispensáveis serviços eléctricos eram da proveniência de potentes geradores.
Chegados a seis de Março, em mais uma acção levada a cabo por tropas do esquadrão de comando, houve a baixa de um Sargento, havendo ainda a assinalar o ferimento de um soldado.

Cemitério militar de Muxaluando, contruído em 1963 pela tropa do 350
Lápide homageando o Sagenti Kopejka (*) morto em combate, em seis de Março de Março ao serviço do Esquadrão de Comandos e Serviços do Batalhão 350, na Sinagoga du Rua Alexandre Herculaho, em Lisboa. Foi spultado em Muxaluando (foto: Alfredo Gomes Anciães)

Idas a Nambuangongo e à Fazenda Beira Baixa, em conjunto com outras continuavam.
Algumas vezes tendo-se como alimentação, as célebres caixas de ração de reserva, concebidas como uma refeição substancial, o que não se podia negar, por demasiadas vezes utilizadas eram detestadas.
Entre os mais variados serviços de escoltas, por todo o género de picadas, sobretudo dentro do capim, mais alto e a sobrepor a própria viatura,
Em dezanove de Março, mais uma a acompanhar camaradas de regresso, uma outra operação, em que não foi avistado qualquer elemento da insurreição.
Mais uma vez chegara o tempo das grandes tempestades tropicais muito visíveis, por se tornarem frequentes naquela zona Norte de Angola.
Entre os inúmeros casos cita-se o de um dia em que numa escolta a Muxaluando, Onofre e camaradas chegaram ao Tari pela noite dentro, denotando a falta de jantar.
Revelou-se a atenção do comandante Alves Ribeiro, vindo a acompanhar via rádio a penosa progressão da coluna, recebeu os comandados e assistiu ao jantar, mandando distribuir bagaceiras e cafés a todos os que viveram a odisseia.
A demora aconteceu mais porque, uma camioneta GMC, entretanto habitual para aguentar eventual impacto de minas, encabeçara a coluna e ao passar por uma subida bastante inclinada. Face ao terreno empapado, da chuva persistente dificultava extremamente a progressão.
A vinte e cinco ainda foi feita uma escolta de viaturas civis, pela esquadra da Breda e elementos e do respectivo pelotão a que pertencia o cabo Onofre, à Fazenda Mucondo.
A vinte e sete de Março eis que chegou, finalmente uma companhia a render o Esquadrão do Lifune Tari.
Como o dia se apresentava ainda chuvoso, por aquelas verdadeiras veredas, o serviço numa extensão a rondar os trinta quilómetros ou seja sessenta, ida e volta, demorou todo aquele dia.
Logo no seguinte começava de facto a tão almejada rendição com a entrega da metralhadora, montada em Jeep blindado.
A verificação do contador de quilómetros, deu que Onofre e colegas especialistas daquela unidade pesada, porque tinham tomado conta da viatura com zero quilómetros, pôde ver haverem percorrido naqueles terrenos dos Dembos cheios de irregularidades, cerca de oito mil quilómetros.
Até então apenas tinha pressentido três tiros, de Canhângulo.
A dissuasora arma era trocada por uma espingarda Mauser, para servir no que ia revelar-se na mais atribulada viagem, o regresso a Luanda com destino posterior a uma região livre de terrorismo.
Ainda no dia vinte de Março objectivando uma cerimónia do render, com certa dignidade, elementos do Esquadrão fizeram o acompanhamento da nova companhia a uma operação, de que resultou uma baixa rebelde e a apreensão da respectiva arma.
Já a quatro de Abril formou todo o Esquadrão, afim de proceder à formalidade militar de cumprir a praxe de prestar honra à Bandeira Pátria, descerrada de seguida.
No dia seguinte deixar-se-ia o Lifune Tari definitivamente.

(*) - Kopejka, vim a sabê-lo já em Lisboa, por um ex-colega de trabalho, ser filho único do célebre treinador do Sporting Clube de Portugal, Szabo.
Israelo-Húngaro, viera jogar no Clube de Futebol "Os Belenenses", devido ao nazismo.

Daniel Costa

sábado, 8 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

COMUNICAÇÕES OPERACIONAIS

Todas as tropas regulares apresentavam serviços de Transmissões, assim como as companhias militares eram acompanhadas de grupos próprios de comunicações.
O Esquadrão denominado pelo número 297, não podia estar fora de tão elementar regra, representava-o no comandado um sargento especializado com curso militar próprio.
Além do responsável, o núcleo era composto por outros especialistas, entre soldados rasos e cabos, sendo um formado na decifração de mensagens codificadas.
Tempo de folga, simulação de transmissão

Da parte da UPA, o grupo opositor a época, na região tinha forçosamente os seus modos de comunicar entre as diversas posições e comandos, normalmente situados fora das fronteiras do território.
Com a colaboração do "arrependido" Lopes Cabanda, conhecedor da zona envolvente, suas picadas e respectivas movimentações, concebeu-se uma operação para capturar dois elementos, que se sabia servirem de "correios", no caminho a percorrer, na rudimentar execução das normais missões de transporte de informações.
Sob o comando do Alferes Ribeiro, o seu pelotão levou a cabo a missão.
A certa altura surgiram dois vultos, personificando o motivo da emboscada.
À ordem:
- Alto!...
Não houve cedência, o que bastou para ser disparada uma saraivada de balas de G3 a perfurar ambos à altura do tronco.
Como será de imaginar, vieram a tornar-se em mais duas baixas infligidas aos rebeldes.
A parte interessante do episódio foi os atiradores, que tinham chegado ao Esquadrão na zona operacional, por castigo e consequente expulsão aplicados na origem
Talvez por deformação, apresentava ares de verdadeiro terrorista, mas na presença dos ainda moribundos, deram uma de bonzinhos, exclamando!...
"Levantem-se que a tropa é amiga, trata bem os doentes"!...
Obviamente, não demorou a que se registassem as duas baixas.
A operação foi concretizada dentro do previsto.
Só que depois de geralmente conhecidos os contornos, chegou a ocasião de ser encontrado ali um motivo de piadas de divertimento, os protagonistas principais, durante algum tempo ouviram, com gozo a glosa:
- "Levanta-te a tropa é amiga!... pum!... pum!... pum!...
Situações que iam aparecendo e serviam de motivos de brincadeira, no obrigatório isolamento, ajudando-a passar-se menos monótono.
Pose: amostragem de galões de capitão de casaco
aprendido aos guerrilheiros da UPA

Deve estranhar-se esta operação ser considerada importante e de êxito total, mesmo só com as baixas dos dois únicos "turras" emboscados, por todo um pelotão de cerca de trinta homens.
Porém, como todas eram sempre de fraca produção, assim determinava a própria natureza do conflito, levado a cabo em meio dominado por uma exuberante vegetação.
A quinze de Fevereiro, uma coluna do mesmo Batalhão, dum Esquadrão, sedeado na Fazenda Mucondo, em deslocação para Muxaluando, no caminho sofreu um ataque de apenas um tiro.
Foi dirigido a um Jeep, transportando o Alferes Ferrão no comando da coluna.
Foi este oficial, a primeira vítima do novo sistema, no Batalhão 350, morreu já no posto médico do Tari, depois de ser tentada a reanimação, pelo médico residente no 297, Azevedo Gomes.
Os guerrilheiros da UPA estavam a entrar numa táctica selectiva, a coberto da vegetação:
- Um tiro, uma baixa, visando normalmente o militar de patente mais elevada, o elemento que então seguia no Jeep da frente, que embora blindado passava a ser o alvo a atingir.
Chegara uma nova fase da insurreição! Tinha entrado em acção o que depois veio a ser referenciado por "mata alferes", o desertor do exército português António Fernandes, no aproveitamento da sua excepcional pontaria.
No dia vinte e três, ainda em Fevereiro, reuniu em formatura o Esquadrão para ouvir a leitura, pelo próprio Comandante, de um louvor colectivo que lhe fora atribuído pelo Comandante em Chefe do Batalhão, por relevantes serviços prestados.

Daniel Costa

quinta-feira, 6 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

SERVIÇO PERMANENTE

Um de Janeiro de 1963, entrava-se num novo ciclo anual.
Para lembrar o Dia de Ano Novo, o rancho foi apresentado com uma suculenta carne, proveniente de uma matança de porco, um bácoro por sorte apreendido, na altura, algures em posição terrorista.
A sete do primeiro mês de sessenta e três, o Esquadrão, sempre em serviço, numa das habituais batidas de limpeza viu-se obrigado a infligir várias baixas, além de ter capturado dois rebeldes.
No dia seguinte doze inimigos, em mais uma batida, numa outra operação.
De seguida novo êxito em baixas humanas, no campo terrorista e a captura de vários elementos, dois considerados muito activos e perigosos.
Por esta altura o Major Caldeira, entretanto Comandante interino do Batalhão de Cavalaria 350, em virtude de baixa por doença do Tenente-Coronel Costa Gomes, que logo mostrara aversão pelo Esquadrão 297.
Era o resultado este ser considerado mais apto, em virtude de ter passado três meses adido ao Regimento de Infantaria, na cidade de Faro, onde esperou embarque, sempre em preparação militar adequada à guerrilha,
Tanto bastava para detestar qualquer soldado que informasse ter passado aquele tempo adido no sul do país.
Porém, o Major com as provas da acção no terreno, com o notável comando operacional, um dia foi ao seio do Esquadrão para participar numa batida, uma vez que então, concluíra ser no Tari que havia guerreiros a sério.
Lá foi fazer parte do que seria uma grande operação, comandada pelo alferes Leão, que talvez por ser familiar do General Governador de Angola, estava a preparar a sua desvinculação do serviço militar, fugindo da guerra consequentemente.
Esta terá sido uma das circunstâncias de no seu relatório a mencionar a impraticabilidade de prosseguir a operação, por o inimigo se apresentar com efectivos bastante superiores às tropas que este comandava.
Assim, o Oficial Superior, em Comandante do Batalhão nada viu, porque quem competia conduzir a acção recusara manifestamente a sua cumplicidade.
Como epílogo, diga-se sem receio, "farsa fardada", o Major Caldeira, o tal "pai da Cuca", em conjunto com o Capitão Alves Ribeiro, criaram problemas ao alferes, ainda depois de deixar o Esquadrão.
No aeroporto pronto a embarcar para a metrópole e ver-se livre do serviço militar e da guerra, acabou por ficar mais algum a prestar serviço no R.I.L - Regimento de Infantaria de Luanda, que funcionava como depósito de adidos.
Onofre apesar da natureza de aventureiro e de ser dado a muitas reflexões, reparara com agrado, não ter estacionado no mesmo local mais de três meses.
No dia vinte de Janeiro, à passagem das onze horas de Domingo, a tropa conheceu um alerta de se manter preparada para qualquer eventualidade, pois havia chegado denúncia, via rádio de aproximação de novas actividades terroristas.
Abastecimento indidual de água potável

Não havendo algo de anormal, chegou a altura de baixar a guarda.
Na Fazenda o pólo vivencial das actividades, civis de laboração, distava quinhentos metros do núcleo do aquartelamento militar, cercado de arame de cobre de noite ligado à electrificação, para uma primeira defesa.
Inúmeras vezes ali se encontraram serpentes electrocutadas, ficando negras junto à cerca.
Nenhuma outra espécie do reino animal conheceu ali o seu fim.
A catorze de Novembro, exactamente dois meses após a chegada à Fazenda, que se situava junto ao Rio Luaca, a guarnição de apoio ao pelotão, que viera da cidade capital do Huambo, Nova Lisboa, foi rendida por outra do mesmo Esquadrão.

Daniel Costa