quinta-feira, 13 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

JOGO NA GUERRA

O jogo da sueca, com imensa pena do Onofre passara a outro, o do "abafa", talvez por influência de novos elementos, das várias proveniências, que foram chegando ao Esquadrão.
Chegavam em substituições, normalmente na sequência de castigos, por ser zona de intervenção, a considerada de maior perigosidade.
O novo modelo de jogo tornava-se perigoso, por vezes em cima da banca podiam ser vistas boas somas de Angolares, era como brincar com o dinheiro.
Já não era para "intelectuais", como o Onofre, que se poderia considerar um bom jogador de sueca, visto memorizar as cartas saídas. Pelo menos com trunfos divididos, como se dizia, a dupla formada por ele e o Picão ganhavam sempre.
Outra coisa recorrente durante toda a Comissão, foi reparar-se os frigoríficos serem alimentados a petróleo. Uma torcida acesa provocava o funcionamento do motor, gerando o frio, tal como eram alimentados os candeeiros, a alumiar ainda as casas da maioria das aldeias metropolitanas.
Em zona de mato os indispensáveis serviços eléctricos eram da proveniência de potentes geradores.
Chegados a seis de Março, em mais uma acção levada a cabo por tropas do esquadrão de comando, houve a baixa de um Sargento, havendo ainda a assinalar o ferimento de um soldado.

Cemitério militar de Muxaluando, contruído em 1963 pela tropa do 350
Lápide homageando o Sagenti Kopejka (*) morto em combate, em seis de Março de Março ao serviço do Esquadrão de Comandos e Serviços do Batalhão 350, na Sinagoga du Rua Alexandre Herculaho, em Lisboa. Foi spultado em Muxaluando (foto: Alfredo Gomes Anciães)

Idas a Nambuangongo e à Fazenda Beira Baixa, em conjunto com outras continuavam.
Algumas vezes tendo-se como alimentação, as célebres caixas de ração de reserva, concebidas como uma refeição substancial, o que não se podia negar, por demasiadas vezes utilizadas eram detestadas.
Entre os mais variados serviços de escoltas, por todo o género de picadas, sobretudo dentro do capim, mais alto e a sobrepor a própria viatura,
Em dezanove de Março, mais uma a acompanhar camaradas de regresso, uma outra operação, em que não foi avistado qualquer elemento da insurreição.
Mais uma vez chegara o tempo das grandes tempestades tropicais muito visíveis, por se tornarem frequentes naquela zona Norte de Angola.
Entre os inúmeros casos cita-se o de um dia em que numa escolta a Muxaluando, Onofre e camaradas chegaram ao Tari pela noite dentro, denotando a falta de jantar.
Revelou-se a atenção do comandante Alves Ribeiro, vindo a acompanhar via rádio a penosa progressão da coluna, recebeu os comandados e assistiu ao jantar, mandando distribuir bagaceiras e cafés a todos os que viveram a odisseia.
A demora aconteceu mais porque, uma camioneta GMC, entretanto habitual para aguentar eventual impacto de minas, encabeçara a coluna e ao passar por uma subida bastante inclinada. Face ao terreno empapado, da chuva persistente dificultava extremamente a progressão.
A vinte e cinco ainda foi feita uma escolta de viaturas civis, pela esquadra da Breda e elementos e do respectivo pelotão a que pertencia o cabo Onofre, à Fazenda Mucondo.
A vinte e sete de Março eis que chegou, finalmente uma companhia a render o Esquadrão do Lifune Tari.
Como o dia se apresentava ainda chuvoso, por aquelas verdadeiras veredas, o serviço numa extensão a rondar os trinta quilómetros ou seja sessenta, ida e volta, demorou todo aquele dia.
Logo no seguinte começava de facto a tão almejada rendição com a entrega da metralhadora, montada em Jeep blindado.
A verificação do contador de quilómetros, deu que Onofre e colegas especialistas daquela unidade pesada, porque tinham tomado conta da viatura com zero quilómetros, pôde ver haverem percorrido naqueles terrenos dos Dembos cheios de irregularidades, cerca de oito mil quilómetros.
Até então apenas tinha pressentido três tiros, de Canhângulo.
A dissuasora arma era trocada por uma espingarda Mauser, para servir no que ia revelar-se na mais atribulada viagem, o regresso a Luanda com destino posterior a uma região livre de terrorismo.
Ainda no dia vinte de Março objectivando uma cerimónia do render, com certa dignidade, elementos do Esquadrão fizeram o acompanhamento da nova companhia a uma operação, de que resultou uma baixa rebelde e a apreensão da respectiva arma.
Já a quatro de Abril formou todo o Esquadrão, afim de proceder à formalidade militar de cumprir a praxe de prestar honra à Bandeira Pátria, descerrada de seguida.
No dia seguinte deixar-se-ia o Lifune Tari definitivamente.

(*) - Kopejka, vim a sabê-lo já em Lisboa, por um ex-colega de trabalho, ser filho único do célebre treinador do Sporting Clube de Portugal, Szabo.
Israelo-Húngaro, viera jogar no Clube de Futebol "Os Belenenses", devido ao nazismo.

Daniel Costa

sábado, 8 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

COMUNICAÇÕES OPERACIONAIS

Todas as tropas regulares apresentavam serviços de Transmissões, assim como as companhias militares eram acompanhadas de grupos próprios de comunicações.
O Esquadrão denominado pelo número 297, não podia estar fora de tão elementar regra, representava-o no comandado um sargento especializado com curso militar próprio.
Além do responsável, o núcleo era composto por outros especialistas, entre soldados rasos e cabos, sendo um formado na decifração de mensagens codificadas.
Tempo de folga, simulação de transmissão

Da parte da UPA, o grupo opositor a época, na região tinha forçosamente os seus modos de comunicar entre as diversas posições e comandos, normalmente situados fora das fronteiras do território.
Com a colaboração do "arrependido" Lopes Cabanda, conhecedor da zona envolvente, suas picadas e respectivas movimentações, concebeu-se uma operação para capturar dois elementos, que se sabia servirem de "correios", no caminho a percorrer, na rudimentar execução das normais missões de transporte de informações.
Sob o comando do Alferes Ribeiro, o seu pelotão levou a cabo a missão.
A certa altura surgiram dois vultos, personificando o motivo da emboscada.
À ordem:
- Alto!...
Não houve cedência, o que bastou para ser disparada uma saraivada de balas de G3 a perfurar ambos à altura do tronco.
Como será de imaginar, vieram a tornar-se em mais duas baixas infligidas aos rebeldes.
A parte interessante do episódio foi os atiradores, que tinham chegado ao Esquadrão na zona operacional, por castigo e consequente expulsão aplicados na origem
Talvez por deformação, apresentava ares de verdadeiro terrorista, mas na presença dos ainda moribundos, deram uma de bonzinhos, exclamando!...
"Levantem-se que a tropa é amiga, trata bem os doentes"!...
Obviamente, não demorou a que se registassem as duas baixas.
A operação foi concretizada dentro do previsto.
Só que depois de geralmente conhecidos os contornos, chegou a ocasião de ser encontrado ali um motivo de piadas de divertimento, os protagonistas principais, durante algum tempo ouviram, com gozo a glosa:
- "Levanta-te a tropa é amiga!... pum!... pum!... pum!...
Situações que iam aparecendo e serviam de motivos de brincadeira, no obrigatório isolamento, ajudando-a passar-se menos monótono.
Pose: amostragem de galões de capitão de casaco
aprendido aos guerrilheiros da UPA

Deve estranhar-se esta operação ser considerada importante e de êxito total, mesmo só com as baixas dos dois únicos "turras" emboscados, por todo um pelotão de cerca de trinta homens.
Porém, como todas eram sempre de fraca produção, assim determinava a própria natureza do conflito, levado a cabo em meio dominado por uma exuberante vegetação.
A quinze de Fevereiro, uma coluna do mesmo Batalhão, dum Esquadrão, sedeado na Fazenda Mucondo, em deslocação para Muxaluando, no caminho sofreu um ataque de apenas um tiro.
Foi dirigido a um Jeep, transportando o Alferes Ferrão no comando da coluna.
Foi este oficial, a primeira vítima do novo sistema, no Batalhão 350, morreu já no posto médico do Tari, depois de ser tentada a reanimação, pelo médico residente no 297, Azevedo Gomes.
Os guerrilheiros da UPA estavam a entrar numa táctica selectiva, a coberto da vegetação:
- Um tiro, uma baixa, visando normalmente o militar de patente mais elevada, o elemento que então seguia no Jeep da frente, que embora blindado passava a ser o alvo a atingir.
Chegara uma nova fase da insurreição! Tinha entrado em acção o que depois veio a ser referenciado por "mata alferes", o desertor do exército português António Fernandes, no aproveitamento da sua excepcional pontaria.
No dia vinte e três, ainda em Fevereiro, reuniu em formatura o Esquadrão para ouvir a leitura, pelo próprio Comandante, de um louvor colectivo que lhe fora atribuído pelo Comandante em Chefe do Batalhão, por relevantes serviços prestados.

Daniel Costa

quinta-feira, 6 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

SERVIÇO PERMANENTE

Um de Janeiro de 1963, entrava-se num novo ciclo anual.
Para lembrar o Dia de Ano Novo, o rancho foi apresentado com uma suculenta carne, proveniente de uma matança de porco, um bácoro por sorte apreendido, na altura, algures em posição terrorista.
A sete do primeiro mês de sessenta e três, o Esquadrão, sempre em serviço, numa das habituais batidas de limpeza viu-se obrigado a infligir várias baixas, além de ter capturado dois rebeldes.
No dia seguinte doze inimigos, em mais uma batida, numa outra operação.
De seguida novo êxito em baixas humanas, no campo terrorista e a captura de vários elementos, dois considerados muito activos e perigosos.
Por esta altura o Major Caldeira, entretanto Comandante interino do Batalhão de Cavalaria 350, em virtude de baixa por doença do Tenente-Coronel Costa Gomes, que logo mostrara aversão pelo Esquadrão 297.
Era o resultado este ser considerado mais apto, em virtude de ter passado três meses adido ao Regimento de Infantaria, na cidade de Faro, onde esperou embarque, sempre em preparação militar adequada à guerrilha,
Tanto bastava para detestar qualquer soldado que informasse ter passado aquele tempo adido no sul do país.
Porém, o Major com as provas da acção no terreno, com o notável comando operacional, um dia foi ao seio do Esquadrão para participar numa batida, uma vez que então, concluíra ser no Tari que havia guerreiros a sério.
Lá foi fazer parte do que seria uma grande operação, comandada pelo alferes Leão, que talvez por ser familiar do General Governador de Angola, estava a preparar a sua desvinculação do serviço militar, fugindo da guerra consequentemente.
Esta terá sido uma das circunstâncias de no seu relatório a mencionar a impraticabilidade de prosseguir a operação, por o inimigo se apresentar com efectivos bastante superiores às tropas que este comandava.
Assim, o Oficial Superior, em Comandante do Batalhão nada viu, porque quem competia conduzir a acção recusara manifestamente a sua cumplicidade.
Como epílogo, diga-se sem receio, "farsa fardada", o Major Caldeira, o tal "pai da Cuca", em conjunto com o Capitão Alves Ribeiro, criaram problemas ao alferes, ainda depois de deixar o Esquadrão.
No aeroporto pronto a embarcar para a metrópole e ver-se livre do serviço militar e da guerra, acabou por ficar mais algum a prestar serviço no R.I.L - Regimento de Infantaria de Luanda, que funcionava como depósito de adidos.
Onofre apesar da natureza de aventureiro e de ser dado a muitas reflexões, reparara com agrado, não ter estacionado no mesmo local mais de três meses.
No dia vinte de Janeiro, à passagem das onze horas de Domingo, a tropa conheceu um alerta de se manter preparada para qualquer eventualidade, pois havia chegado denúncia, via rádio de aproximação de novas actividades terroristas.
Abastecimento indidual de água potável

Não havendo algo de anormal, chegou a altura de baixar a guarda.
Na Fazenda o pólo vivencial das actividades, civis de laboração, distava quinhentos metros do núcleo do aquartelamento militar, cercado de arame de cobre de noite ligado à electrificação, para uma primeira defesa.
Inúmeras vezes ali se encontraram serpentes electrocutadas, ficando negras junto à cerca.
Nenhuma outra espécie do reino animal conheceu ali o seu fim.
A catorze de Novembro, exactamente dois meses após a chegada à Fazenda, que se situava junto ao Rio Luaca, a guarnição de apoio ao pelotão, que viera da cidade capital do Huambo, Nova Lisboa, foi rendida por outra do mesmo Esquadrão.

Daniel Costa

terça-feira, 4 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

 
TRÊS MARIAS - LUACA

Um pelotão vindo do quartel de Nova Lisboa, foi estacionado na Fazenda Três Marias, com a missão de fazer parte da logística do Esquadrão 297.
Não estava enquadrado com armas pesadas, pelo que logo o comando operacional fez avançar para a força aquela componente.
A catorze de Novembro, a nomeação chegou ao pelotão a que pertencia o Onofre, para preencher a lacuna, com o consequente novo destacamento da respectiva esquadra.
A metralhadora pesada Breda, era como que indispensável, em qualquer aquartelamento, em virtude da eficácia que lhe era atribuída.
O serviço não mudou a vigilância, que já era exercida nas viagens pelas picadas entre as Três Marias e Tari. Sempre missões dissuasoras, obrigatórias levar a cabo naquele terreno.
No dia dezoito, ainda no mês onze, deu-se a primeira deslocação à Fazenda sede do Esquadrão, foi a oportunidade de, pelo apelidado "jornal de caserna", serem postos em dia acontecimentos de toda a índole, a informação era indispensavelmente desejada.
A vinte e dois de Novembro a rádio difundiu o estranho assassinato em Dallas, do Presidente dos Estados Unidos, Jonh Fitzgerald Kennedy, exactamente o governante de uma das maiores potências mundiais.
Onofre muito dado a estados nostálgicos, apenas por pensamento, porque nunca divagava para além de se questionar sobre o andamento dos acontecimentos, mesmo de âmbito mundial.
Intuiu que a guerrilha iria durar mais alguns anos, porque desaparecera um governante de muita influência nas políticas mundiais, dando mostras por várias formas, ser avesso ao colonialismo, que continuava a motivar o racismo.
Entre as operações de caçadas, quase sempre infrutíferas, parecia que a guerrilha com os muitos tiroteios, também tinha afastado os animais de caça. Só uma ou outra vez se deixavam ver, a não ser uma ou outra pacaça apanhada.
Servia de rancho, onde se verificava a carne ser dura.
Dois militares na paisagem

A nomeação para serviços, mesmo os dedicados à caça, que poderiam ter a conotação de lúdicos, indispensavelmente, eram acompanhados de aparato militar.
No dia cinco do décimo segundo mês de 1962, soube ter-se a lamentar mais três baixas no Esquadrão do comando.
Na Fazenda Três Marias as deslocações eram em menor quantidade, houve algumas a Quimanoche, para trazer materiais destinados a melhorar aquelas instalações paramilitares.
A maior parte destinavam-se a viagens ao Tari. Nessas sempre se reparou na habitual passagem, por um grupo de árvores, poder ser observada a graciosidade dos macacos saguins, que nas árvores saltavam entre pequenos ramos, executando um espectáculo inolvidável.
Aquele género de símios era já conhecida, em cativeiro na metrópole, mas vistos no seu habitat natural em grandes grupos era diferente, deveras interessante o seu equilíbrio nos ramos, mesmo os de diminuto porte que os suportavam!...
Dos muitos quilómetros percorridos, só ali se encontrava a espécie.
Relativamente perto, na fazenda Lifune, onde se podia ver um desses exemplares em cativeiro, tomou-se conhecimento da forma de apanhar vivo um desses buliçosos animais.
Mune-se o caçador de uma cabaça previamente limpa do recheio. Por dentro, por uma cavidade criada, metem-se algumas pevides, o símio deita a mão ao petisco, de que é extremamente guloso. Sendo um tipo de animal com características de muita esperteza é incapaz de intuir, nesse particular, que só largando as sementes que, apanhara tornando a mão maior do que o buraco, se conseguirá libertar.
Como teima em não largar o pecúlio e em manter-se na posse do mesmo, facilmente é apanhado vivo pelo caçador!
Em Três Marias festejou-se o Natal de 1962, em relação a outros dias houve diferença, o rancho do jantar, constituído por galinha corada, foi melhorado e tido em conta no fim, a degustação de um cálice de brandy.
A apoteose esteve a cargo dos militares nativos, com a execução de um batuque, durou até alta madrugada.
Chegou o fim de 1962 com tempos passados perto do rio de referência, do nome da Fazenda, o Luaca que passava perto, entre inolvidável paisagem, com inúmeros fraguedos, várias vezes visitado para banhos, com o indispensável acompanhamento bélico, para fazer face a qualquer surpresa.
Nada aconteceria, de ataques por aqueles sítios, houve dias em que o labor se resumia à leitura e... "esperar com impaciência as horas da comida", como o frade personagem livresca Frei Januário.

Daniel Costa

sexta-feira, 30 de abril de 2010

AMOR NA GUERRA

DESASTRE EVITA ATAQUE

Como ainda se estava em tempo de tempestades tropicais, assistiu-se a várias, era a África!...
Onofre não podia deixar de observar também esse aspecto, de que guardou recordações.
A nove de Novembro 1962, pôde ficar anotada uma dessas memórias do tempo.
Na pista de aterragem do Tari, onde se estava de guarda a uma avioneta ali estacionada, havendo um calor desmedido.
Face ao mesmo foi erguida uma tenda, para protecção dos raios solares.
A mesma veio a servir de abrigo de uma chuvada extremamente intensa de seguida.
Era assim o clima tropical daquela parte de África!....
Tinha-se iniciado a cobertura defensiva da citada avioneta, que no caso de emergência serviria de apoio a um grupo de pára-quedistas em actuação de "limpeza" na zona.
Os soldados aproveitavam a avioneta  para sevir de fundo as suas fotos

A operação durou até dia catorze, naturalmente com várias rendições da guarda.
Depois de passada a tempestade tropical, o tempo e o serviço até se tornavam agradáveis, mesmo o dormir ao luar, fora dos necessários tempos de alerta, que cada um tinha de cumprir.
Até que, precisamente nessa tarde, se ouviu uma grande explosão, logo pareceu na cozinha do aquartelamento do Tari.
Pensou-se em muitas hipóteses, mas foi numa das casernas, pois não tardou a resposta, visto que se estava apenas a três quilómetros.
Começaram de imediato a chegar feridos em transportes terrestres, do ar avionetas e helicópteros, para os transportar Hospital Militar de Luanda.
Todo o contingente de serviço na pista, actuou a ajudar na instalação nos veículos aéreos, acarinhando os camaradas feridos, a evacuar, para breve serem ser assistidos em Luanda.
O lance causou elevado constrangimento, marcado também por um dos helicópteros transportar dois feridos na parte de fora, numa espécie de caixas, dando a ideia de se tratar de caixões fúnebres.
Do acidente, resultaram duas baixas e oito feridos.
Resultou grande destruição, como por exemplo, um soldado tendo o fardamento guardado no seu saco de campanha, este ficou reduzido ao metal que servia de fecho.
Na sala de oficias, com uma parede a dividir, um oficial que descansava foi atingido com gases na cara, ficando esta chamuscada.
Aconteceu que, talvez por descuido:
- Tendo regressado um pelotão de uma batida, como era usual a Bazooca ficou ligada, com a respectiva granada. Alguém brincou com a arma e deu-se a explosão.
Alguém, desconhecendo o facto, terá "brincado" com a mesma, provocando o seu rebentamento.
Em termos operacionais, não se pode saber, o que teria ter acontecido de pior: se o grave acidente bélico, se o ataque terrorista previsto à tropa em vigilância, pois de seguida ao rebentamento, ouviu-se o característico alerta, denunciando por uma batucada.
Era o sinal do adversário para o abortamento do ataque terrorista que estava em movimento.
Os guerrilheiros da UPA também ouviram o estrondo, pensando terem sido descobertos, alertavam para a abortarem com a consequente retirada.
A operação terrorista, se levada a cabo teria sido desastrosa, uma vez que o contingente, em serviço ao campo de aterragem, se encontrava muito descontraído e o factor surpresa é importante em todas as guerras!
Uns jogavam as cartas, outros comentavam sobre as performances de mulheres das suas Madrinhas de Guerra, mostrando as respectivas fotos.
Ainda outros, do tempo que ainda faltava para irem ao encontro das namoradas.
Dos seus projectos a dois, etc.

Daniel Costa

quarta-feira, 28 de abril de 2010

AMOR NA GUERRA


A COMUNICAÇÃO SOCIAL

Abordar o conflito que as tropas portuguesas começaram a enfrentar em Angola, logo em 1961, sem mencionar o quanto foi retrógrada a comunicação social, cuja atenção foi desviada propositadamente, da missão que lhe cabia na circunstância, pelos poderes instalados é de primordial importância.
Em 1962 a Televisão, dava passos de apenas cinco anos, pelo que não se vê algo de televisionado, a informação limitava-se à oficial, do princípio do conflito (da maka, no dizer local).
Numa plantação de ananazes

As rádios ainda estavam longe de manter sinal aberto, durante vinte e quatro horas. Apenas a Emissora Nacional tinha o seu correspondente, que não ultrapassaria o perímetro de Luanda e os grandes jornais, pela limitação censória, só observariam de Lisboa o que se passava no Ultramar.
É interessante verificar o facto, de só mais tarde a Radiotelevisão Portuguesa gravar e transmitir, pelo Natal, aqueles insípidos programas em que os elementos militares em fila, ditavam algumas palavras, impostas pela censura para familiares e amigos.
A mesma transmissão começou por ser cometida à Emissora Nacional, que os difundia logo em 1962, numa altura em que o próprio Onofre disse não, à oportunidade proporcionada a partir da região dos Dembos.
Com a grande distância temporal poder-se-á questionar, mesmo tendo em conta a política da época, o quanto uma maior divulgação seria importante.
A célebre frase de Salazar – “para Angola e em força”, perdia-se assim nos meandros da sinistra comissão de censura.
Só de uma política passadista!...
Ao elaborar este trabalho, há talvez o interesse no ineditismo de se basear apenas no testemunho vivencial de uma praça, porquanto o tema tem tido muitas abordagens, ao que se pode saber, a maior parte por escritores que ali serviram como oficiais, com interesses pessoais interrompidos, o que torna as visões extremamente diferenciadas e até antagónicas.
Ouvindo um dos os dos rarios rários e confraternizado

Acrescenta-se para apoiar a tese desta grande falha, o facto de ainda por volta de 1967, época contemporânea, ter tombado no conflito do Vietname um Repórter de Guerra português, ao serviço do jornal "Diário Popular", de apelido Câmara Leme.
Nos documentos da guerrilha, que a Televisão vem passando, mesmo sendo posteriores aos primeiros anos, não se conseguirá ver algum episódio a que não se possa atribuir o rótulo de encenação, ou propaganda política, como no caso da retoma de Nambuagongo.
Entre os muitos sucessos, algo de grave ocorreu no aquartelamento do Esquadrão. O Comandante estava ausente, em gozo de férias na metrópole.
Interinamente fora substituído pelo tenente Araújo, não teria sido acaso a ausência do Capitão, porque se sabia o rigor da sua actuação em qualquer circunstância, nos actos da sua competência. Num determinado dia ao jantar, aconteceu o que ficou demonstrado, ser de verdadeiro levantamento de rancho.
Ninguém tinha vontade de comer!...
A alegação geral, para a inibição de se entregarem à degustação daquele jantar, era a de se ter ingerido algo mais apetecível antes.
Pareceria estranho, se não tivesse chegado o aviso a todos os militares, até com a cumplicidade dos cozinheiros.
O posto de Oficial de Dia, obrigatoriamente comum em todas as unidades, dispensava essa ordem de serviço, em cenário de alerta permanente, que a circunstância revelou ser o alferes Faria a deter o cargo, naquela jornada.
O Onofre, mesmo estando de serviço de vigilância no torreão, com a sua observação, apenas detectou um militar a "fingir" que comia, naturalmente de mentalidade mais fraca, instado pelo Oficial de Dia, a provar o rancho destinado para aquela refeição.
Tanto bastou para o levantamento não ter sido considerado, o que traria consequências disciplinares ao mais alto nível.
No dia seguinte, mesmo na interinidade, o Comandante do Esquadrão deslocou-se a Muxaluando, local onde estava a logística do Batalhão, para apresentar os factos ao Comandante da expedição.
Verificou-se assim, que tinha ocorrido algo de muito grave, originando uma formatura onde foi dado conta das providências levadas a efeito, para que tão relevante ocorrência ficasse sanada.
Ficou registada uma frase proferida pelo tenente Araújo de certo modo humanística.
Foi dito assim: "O que se faz nem tudo é por mal"!
Terá sido usado também ao conferenciar com o Comandante.
O pensamento pode parecer vulgar, mas pronunciado na altura e a culminar um caso de reivindicação justa, embora de muita gravidade no seio forense, revelava mesmo um grande sentido de humanidade.
Houve depois retaliações!
A seu tempo regressado o Capitão Alves Ribeiro, pretendeu fazer justiça, atribuindo algumas sanções com a respectiva expulsão.
No caso específico, a coerência, só podia determinar um culpado, o exclusivo alvo da contestação, o furriel especializado na manutenção alimentar.
De qualquer modo, ficou demonstrado, se isso fosse necessário, que a grande coesão do 297 era obra de um comando eficaz.
A acção reivindicativa, um alienável direito, estava em causa uma alimentação condigna, o que não acontecia.
Deve admitir-se, que o território de Angola exercia uma grande atracção, não obstante estar-se a viver uma guerrilha, num obrigatório isolamento, só superado por ser exercido em grupo e pelas actividade lúdicas, que iam nascendo da criatividade inerente à juventude, como o eram por exemplo os torneios de futebol, entre pelotões, jogados num campo, construído fora do recinto delimitado por arame farpado.
Viviam-se os jogos a sério, visto fazer parte do Esquadrão muito material de desporto, como bolas e equipamentos.
Era possível realizar grandes partidas, até porque havia jogadores de certa grandeza.
Normalmente, os militares disponíveis sempre assistiam. Em virtude do recinto desportivo ser exterior ao acampamento, os assistentes levavam, obrigatoriamente do seu armamento, em guerra podia ser fatal descurar o aspecto bélico!...
E para os que não viveram no tempo, fica aqui referido o facto de um esquadrão de cavalaria ou outra qualquer companhia em campanha, completar-se com inúmeras actividades de entretenimento, com especialistas na área, na vida civil.
Assim foi exibido no Tari, dedicado aos militares, evidentemente, o filme português "O Grande Elias", serão inesquecível na circunstância!...
Três tiradas fizeram o divertimento da malta:
- Uma em que, num jogo da roleta, o Elias aconselhou o parceiro a jogar no dezassete. Claro que ao invés de ganhar o dinheiro de que necessitava, ficou ainda mais na penúria, porém o Elias nunca o desencorajava e numa outra cena, vê-se ele a dizer ao acompanhante:
- "Pois é...como sair no dezassete"!...
A última é quando o Elias, a servir de mordomo, conquista o coração da velha tia rica e segue com ela para a América, dirigindo-se ao avião; com ar bonacheirão volta-se e diz:
- "Agora vai ser milho"!...
Estas expressões foram adaptadas por muitos e bons rapazes, durante muito tempo, que à falta de melhor, de tudo se serviam.

Daniel Costa

sexta-feira, 23 de abril de 2010

AMOR NA GUERRA

ÍCONES DA GUERRA

No dia vinte e três de Outubro, havia intranquilidade no comando do Batalhão, sito em Muxaluando, uma coluna militar a rodar para aquela posição foi atacada, sofrendo duas baixas mortais, mais alguns feridos.
Era um dia de muita chuva, vários acampamentos da região estavam também a ser atacados, todo o pelotão a que Onofre pertencia, estava de prevenção face ao conflito, tendo depois seguido em missão de auxílio.
Chegado o reforço, foi-lhe destinada uma ida a Nambuangongo, com o fim de se trazer sob escolta, um carro pronto-socorro, para se recolherem as viaturas sinistradas no ataque, que destruiu a sua autonomia de locomoção.
Não havia viatura do género disponível, pelo que,sempre pronta a entrar em acção, a coluna voltou como tinha seguido e ficava na sede do Batalhão alerta para actuar, se fosse necessário.
Banho, não sem humor, nas fragas dio rio Luaca, a cerca de trinta Km
a sul de Nanbuangongo

Como entretanto tinham seguido outros reforços disponíveis, os mesmos ao voltarem foram surpreendidos com o rebentamento duma mina anti-carro, a primeira com que o Batalhão se deparou, talvez uma daquelas que deu início a novo tipo de guerrilha.
Resultaram vários feridos, entre os mesmos, um Alferes que ficou com as pernas praticamente decepadas. Veio a ser baixa mortal, já verificada no posto de socorros de Muxaluando.
No mesmo dia a aviação interveio, o serviu apenas para verificar terem ficado no terreno mais algumas viaturas destruídas.
Depois de um período mais calmo na actividade terrorista, tinha começado uma nova fase da guerrilha e por causa das minas anti-carro os oficiais deixaram de andar na frente nos Jeeps pessoais, para andarem nos Unimogs, fazendo parte integrante do pessoal que estes transportavam.
Na dianteira de cada coluna, passou a seguir uma camioneta GMC, extremamente pesada e com uma frente grande a qual podia provocar o rebentamento sem afectar o próprio condutor.
Aquele monstro passou a andar com a caixa cheia de sacos de areia, afim de se tornar ainda mais pesado e por isso menos vulnerável.
As GMC e outros veículos, que dotavam todas as companhias militares, eram resíduos da motorização que tinha servido a Segunda Grande Guerra e que depois vieram para Portugal.
O grande conflito tinha chegado ao fim em 1945, em 1962 havia ainda poucos anos. Afinal todos os militares tinham nascido ainda no tempo em que o maior conflito bélico do mundo grassava.
Ao passar a noite de sete, precisamente à uma hora calhou de novo a Onofre e companhia, com outras unidades, integrar uma escolta.
Uma metralhora Breda e a respectiva equipa montados
em jeep blindado

Por alguns dias, a força de cobertura da deslocação a proceder a uma importante operação, esteve aquartelado na Fazenda Três-Marias.
A dormida era conjunta com os colonos, que se encarregavam de zelar nos trabalhos a efectuar por indígenas de raça bailunda, por mais fácil adaptação..
A trinta e um foi a guarnição ao encontro da tropa em operação, na picada próxima, com passagem pelos destroços das viaturas, momentaneamente abandonadas, recolhendo e transportando alguns de imediato.
A seguir, logo a um de Novembro, houve mais uma espécie de destacamento para Muxaluando de um grupo do pelotão a que Onofre pertencia. A missão era a da equipa da Breda escoltar o grupo de militares do esquadrão do comando, escalados para transportar o resto dos destroços das viaturas, deixadas no terreno, após o duro golpe sofrido na picada havia poucos dias. O que veio a acontecer.
Depois de realizada a operação, Onofre, Esquim Pinto, Teodoro e Gastão, com todo o equipamento, ficaram três dias junto do Batalhão, o que depois dos acontecimentos, emprestava maior segurança, já que aquele aquartelamento não estava munido de equipas de metralhadoras pesadas, ao contrário dos restantes três esquadrões.
Em Muxaluando ouvia-se comentar, seriam aquelas armas pesadas, que os terroristas apelidavam de costureirinhas, pela rapidez e poder de fogo que realmente possuíam, a reforçar a segurança.
No breve destacamento, para um observador e com espírito aventureiro, tudo servia de reflexão.
Então um dia assistiu-se a um daqueles desafios de futebol, não tão improvisado, como poderia parecer, porque era vulgar em qualquer acampamento militar.
Observou-se um dos guarda-redes ser o segundo comandante da força, o Major Caldeira, já de certa idade.
Pelo elevado posto e pela própria idade, não lhe seria apropriada a dedicação à ao tipo de exercício, mesmo usado uma camisola regulamentar, por ser um pouco forte para poder vestir a camisola do próprio equipamento desportivo.
Era do conhecimento geral, o homem padecer da "bola", tanto mais que era um bom motivo para conversas anedóticas, entre os seus comandados.
Já era então conhecido pela alcunha do "pai da Cuca", pela dedicação à bebida alcoólica, mais usada na Colónia de Angola.
Diga-se que nas cantinas da tropa, o seu custo ficava em metade, o que se tornava mais um aliciante.
No dia quatro deu-se o regresso ao Tari, não sendo novidade absoluta, na parede de uma das casernas, a primitiva que continuava a funcionar, só com um pelotão, ver-se incrustada uma imagem da Senhora de Fátima.
O ícone, uma espécie de troféu apreendido numa batida, teria sido arrancando pelos terroristas em alguma fazenda abandonada, depois de atacada.
O Comandante Alves Ribeiro achou por bem mandar colocá-la num nicho, bem visível, na parede do grande edifício, que apesar de sido arranjado, nomeadamente na cobertura, depois de vandalizado pela guerrilha, que permaneceu com a pedra da parede à vista.

Daniel Costa