domingo, 30 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

CASA DO PESSOAL DA DIAMANG

Verificavam-se bastantes dias de folga, a servir para passeios e algumas horas para ir cuidando da correspondência com as Madrinhas de Guerra e também de familiares e amigos.
Entretanto Onofre estava a tornar-se companhia habitual do Soeiro, com quem ia mantendo uma boa relação, em parte devido ao acordo, dos objectivos de coleccionar fotos de artistas do cinema e do "music hall" mundial.
Visitas à casa do Pessoal da Diamang e idas à respectiva sala de cinema, também eram frequentes, sendo tempo de recordar que aquela estrutura era a única existente na cidade, para todos os actos e encontros públicos.
Era ali que as actividades de passatempos tinham lugar, desde jantares de convívio e outros, cujo denominador comum era a obrigatoriedade de terem de ser "requisitados" com antecedência, assim como jogos de salão.
Os militares estavam equiparados a funcionários da Companhia Damang, visto serem continentais e brancos.
Já que se evoca este assunto, torna-se interessante frisar que, depois das nove horas da noite, podia consumir-se, por exemplo cervejas.
Porém a partir daí era interdito qualquer pagamento, mesmo ao corpo militar. Ficava um "tickey" rubricado a atestar o consumo, até que um dia se chegasse a horas de fazer a liquidação.
Cidade do Dundo

Muitos militares, incluindo Onofre, chegaram a andar meses a consumir sem poderem efectuar o respectivo pagamento.
Para os funcionários da Companhia, tudo se simplificava, porque no fim de cada mês, aparecia o desconto no ordenado.
Para a força militar, meu Deus!...
É de adivinhar, no fim da comissão, terão ficado bastantes contas por liquidar, haveria bons rapazes que, só consumiriam quando chegava a hora de deixar o quadradinho de papel a atestar o acto!
Assim no fim do serviço na zona, era o tempo de apagar dívidas. Voltava-se á velha formula: "Com rapazes nem o diabo que nada com eles".
Militar, vestido, à civil na cidade do Dundo

A escala de serviço era elaborada, como sempre, por um cabo escriturário, No esquadrão, umas vezes iniciava a tarefa, logicamente, pelos números mais altos.
De seguida porque, naturalmente, "comia formigas", desatava a começar tudo nos de menos valores na classificação.
Possuindo Onofre uma boa posição em ambas, só novamente, a quinze de Agosto entrou de serviço. Tratou-se da vigilância ao aeroporto da Portugália.
A dezassete do mesmo mês, a escala nomeava-o para vigia num posto de controlo na fronteira com o Congo.
No Domingo dezoito, como era já permitido, andar trajado civilmente, houve deambulação pela cidade e à noite, com outros colegas, assistiu a uma sessão de cinema, tratava-se do filme "Leito de Espinhos".
Entre vários acontecimentos, passaram-se alguns deveras interessantes. Num dia de Domingo, foram abertas as comportas do rio Luachimo, muitos militares assistiam.
O próprio comandante do esquadrão, Capitão Ferrand de Almeida, com a sua espingarda Mauser, mostrou uma pontaria inaudita, aparecendo a descoberto um crocodilo, de imediato o matou com um tiro certeiro.
Sabendo-se que aquele animal é coberto de uma tal couraça de escamas, que só perfurado por bala, em determinado ponto da cabeça é vulnerável, tem de considerar ter-se assistido a um grande feito.
Certamente, para todos os assistentes pertencentes á força armada, uma tal visão teria sido única.
Nos mesmos dias o comandante, reuniu toda a tropa possível, sob a sua supervisão (quem estava de serviço, evidentemente, era intocável) e todos sentados nas pedras que, compunham o terreno das traseiras do improvisado aquartelamento, deu uma palestra a surpreender, pelos seus dotes de oratória.
Versava o problema colonial da Argélia dominada pela França, a que o famoso General De Gaule, como chefe do estado francês, concedera a independência.
A eloquente e única palestra que aquele contingente teve o privilégio de ouvir daquele comandante, frisava ser um mau precedente para todos os países em luta, para manter as suas colónias incluindo Portugal por razões óbvias.
Sem saber em concreto qual missão que lhe era destinada, Onofre passara a executar tarefas de maior significado, incomuns à sua especialidade e até no trabalho da sociedade civil, ainda que se achasse capacitado.
Iniciara-se com vários contornos, mas o mais visível foi a ida ao aviário, a funcionar no sítio designado Cacanda, com a finalidade de trazer sob requisição, os frangos necessários a uma refeição do esquadrão, tarefa que iria fazer parte dos novos serviços que se avizinhavam.

Daniel Costa

sexta-feira, 28 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

DUNDO E PORTUGÁLIA

Depois da instalação do esquadrão eventual 350, junto ao Dundo, cidade onde a actividade era genericamente relacionada com a extracção de diamantes, a função da tropa exactamente o controlo da possível infiltração de actividades terroristas que ali se viessem a verificar.
A classe de praças limitava-se a ver a paisagem e mostrar o seu valor a cumprir ordens, aparentemente só restava viver com alegria e evitar complicações.
Vivendo em regime provisório nos pré-fabricados do Dundo, no dia trinta de Julho de 1963, o Onofre com alguns colegas fez-se a uma passeata pela cidade, apenas vislumbrando o panorama local, muito diferente do que conhecera até ali, o que alimentava o seu sonho de aventura, algo de muito pessoal, talvez importante para lhe assegurar a permanente alegria de viver.
No dia seguinte, com o mesmo roteiro, foi percebendo pelas observações sempre lúdicas, com a componente da tomada de conhecimentos locais, ia concluindo que ali era outro Portugal.
Havia um modo de vida, de estar e de agir algo diferente.
Observavam-se o facto de as habitações dos colonos contratados da Companhia, serem todas vivendas de rés-do-chão, rodeava-as bonitos ajardinamentos com longos espaços arrelvados e um poste com estrutura própria para exercícios de bola ao cesto.
Vivenda para colonos na cidade do Dundo

Sabendo-se estar numa cidade ainda nova, da Região dos Quiocos, cuja vasta etnia que a habitava, denominava-se com o mesmo nome.
Verificar-se estar ali a ser preservada a riquíssima e famosa arte daquele povo, que se estendia para além fronteiras de Angola.
Podia reparar-se numa falha, muito cara a um rapaz novo e militar, pelo menos da época. Deambulava-se por toda a urbe e não era possível ver uma miúda, que contasse mais de dez anos.
A explicação veio a tornar-se simples:
- Toda a população branca era, de uma maneira geral, flutuante proveniente de contratos temporários com a Diamang, concessionária da exploração daquele abundante e precioso minério, existente em grande parte da Lunda, Distrito maior do que Portugal Continental.
Militar posando junto dos pré-fabricados
onde primitivamente a tropa se instalou

Funcionando com capitais de maioria estrangeira, logicamente valorizavam-se modernas tecnologias, que tinham forçosamente de reflectir o modo de vida da própria população local, habitantes apenas da periferia da pequena cidade diamantífera.
Ao passar-se por Saurimo (Henrique de Carvalho), a capital daquele outro "Estado", sentia-se logo o pulsar estrangeiro.
Era assim que o Onofre passou a sentir aquela posição que, efectivamente, iria deixar marcas na sua existência.
Valorizava-se muito as visitas de grandes figuras, mesmo militares, que por sua vez tinham apetência para aportar o Dundo.
Aconteceu cinco dias depois do esquadrão eventual 350 ter chegado, estando o Onofre de plantão ao aquartelamento, deu-se a passagem do Comandante do Sector, um Brigadeiro vindo da cidade de Henrique de Carvalho, transformada em bastião militar.
Naturalmente o Oficial Superior, passou por todos os aquartelamentos, instados na região, eram de todas as armas, conforme se pôde apurar com o decorrer com o tempo.
Refira-se que a localização era a poucos quilómetros do Congo, que recentemente a Bélgica havia descolonizado.
Muitos brancos tinham vindo, fugidos de avião para o aeroporto da Diamang, situado perto da Portugália.

Daniel Costa

quarta-feira, 26 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

ATÉ À MARGEM DO LUACHIMO

No outro dia aconteceram ainda mais voltas á cidade de Nova Lisboa, onde Onofre bateu todo um rolo de películas.
Entretanto, num bar teve o grande prazer de encontrar camaradas, com quem tinha convivido em serviço na campanha do Norte, na Fazenda Três-Marias.
Veio a hora de formatura, dos dois esquadrões na frente da Escola de Aplicação Militar, onde se apresentou o Tenente-Coronel Spínola discursando, mais para a sua tropa, a do Batalhão 345, no seu peculiar estilo populista, visando todo o pessoal em trânsito, uma vez ser tudo de mobilização do Regimento de Cavalaria 3 de Estremoz.
Ainda no dia vinte e seis de Julho, preparam-se ambos os esquadrões na Gare Ferroviária da cidade, para seguir de comboio até à vila do Luso, quando se deparou uma enorme surpresa:
- A Estação tornara-se pequena para conter tanta gente que ali ocorreu, a assistir ao embarque do contingente militar em trânsito.
Uma despedida, com foros de grande acontecimento, só comparável ao embarque na Estação de Caminhos-de-Ferro de Faro, cujo Esquadrão 297 pomposamente protagonizou.
Foi uma fenomenal surpresa, visto que muito poucas famílias eram de militares em viagem, ao contrário do que tivera acontecido na capital do Algarve.
Por volta das três da tarde, sob enorme ovação, partiu-se numa composição ferroviária tosca e lenta, a ponto de em certa zona, naturalmente de razoável população colonial, acorrerem bastantes colonos a aplaudir.
Como se tratava de gente, naturalmente com muita garra e força inventiva, não tardou que alguém se lembrasse, que o generoso gesto se havia de materializar com garrafões de vinho.
Contra o que a ousadia supunha, depressa apareceram as tais vasilhas, que o desejo misturado com o sufocante calor, logo fez tragar, enquanto ao longo da estrutura rolante, continuavam correndo com as ovações.
O comboio ia com tais vagares, que deu tempo ainda para devolver o vasilhame esvaziado.
Logo após, foram-se desvanecendo os ecos de tanto carinho que, em terras distantes tinham chegado aos que passam para cumprir missão militar, em defesa de terras ditas de todo o país disperso pelo mundo.
Há muito o sol tinha entrado na penumbra e de passagem avistaram-se as luzes de Silva Porto.
Depois de passada a noite em viagem, em composições, apenas com uma fila de lugares, por conseguinte, com um corredor junto às janelas de cada carruagem.
Aquela etapa terminou na vila do Luso.
Com pouco mais que uma mirada à vila, o comboio militar, voltou de novo às camionetas por estradas de veredas, até à povoação de Dala, onde houve paragem afim de se tomar um refresco.
Eram vinte e quatro horas quando o novo esquadrão chegou à cidade de Henrique de Carvalho que, na verdade, localmente sempre se designou pelo apelativo nome de Saurimo.
Postal s sépia, Lembrança do Filme
"ROMANCE DO LUCHIMO"
(Tipo do notável quioco)

Mesmo depois de em 1923, o General Norton de Matos lhe ter atribuído o nome daquele grande explorador de terras africanas, nomeadamente da Lunda, cujo Distrito fundou e do qual viria a ser primeiro governador em 1845.
Na verdade, um conterrâneo com a especialização de cozinheiro da tropa, o que foi pretexto para um resto da noite, de vinte e sete para vinte oito de Julho, ser passada na cozinha, entre muitas recordações e petiscos.
Só às quinze horas acabou por se partir debaixo de um sol abrasador, à africana, sempre em camionetas civis.
Para um observador, como o Onofre, a viagem até Camissombo, fazendo a travessia do planalto da Lunda, apresentava uma vegetação a tornar a paisagem lindíssima. Assistir-se ali, em cima da caixa da camioneta ao pôr-do-sol, como aconteceu torna-se deslumbrante, é um sonho de uma vida.
Às vinte e quatro horas, quando se deu a chegada, jantou-se e pernoitou-se, encontrando-se cama no soalho de cimento, numa dependência do aquartelamento daquela localidade, formado por militares idos também da metrópole, o que sempre se tornava evidente, tendo como Segundo Comandante, o mesmo que já tinha exercido essa função na recruta de Onofre em Elvas.
No dia seguinte pela manhã, foi feito o resto do percurso em estrada de terra batida, sempre plana e permanentemente ladeada de bambús, outra maravilha para a vista.
Observou-se o impensável, cerca de apenas duas horas de viagem, de Camissombo à cidade de Dundo, bastaram para dois alferes terem ingerido uma grade de cervejas, vinte e quatro garrafas que tinham adquirido.
Coisas de alarves abastados, como eles de facto eram, a ponto de um aventar que o dinheiro recebido (era acima da média) não lhe chegar para as despesas feitas em campanha, e tanta gente a morrer de fome!...
Destinada à vila da Portugália, periférica da cidade diamantífera do Dundo, antes do almoço estacionou, o esquadrão eventual 350, no destino, em aquartelamento improvisado de casas pré fabricadas, com localização junto ao rio Luachimo, que dera nome ao filme de Baptista Rosa, de promoção da Companhia Diamang, a que também a tropa ia dar protecção.

Daniel Costa


segunda-feira, 24 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

A VIAGEM

Depois de cerca de quatro meses de estadia na Gabela, integrado Esquadrão 297 a servir o exército, na quarta-feira, dia vinte e quatro de Junho, Onofre e alguns companheiros saíram da escala de serviço.
Iam preparar-se para formar o pelotão, a fazer parte do esquadrão eventual 350, destinado à zona onde operava a Companhia Diamantífera, Diamang, com sede na cidade do Dundo, em deslocação aprazada para o dia seguinte.
Partiu-se logo às duas da manhã, nas habituais camionetas civis, de caixa aberta, com chegada às seis, ainda da mesma madrugada, à vila da Cela.
Duas horas depois, deu-se a abordagem ao rio Covo atravessado de jangada por toda a tropa e respectivas camionetas.
Depois da madrugadora travessia, a tornar-se mais um motivo interessante, para eventuais sonhadores, seguiu-se viagem nos mesmos meios de transportes por picadas.
Às quatro da tarde, chegou-se à cidade de Nova Lisboa e ao grande quartel, que dava pelo nome de Escola de Aplicação Militar, o destino da pernoita.
Logo aí Onofre, sempre cumpridor, sentiu a falta da disciplina táctica da instalação, muito característica ao comando do Capitão Alves Ribeiro, censurado por muitos, por ser considerado demasiado rígido, mas a sua actuação na circunstância seria a habitual, digna de um grande comandante que instruiria os seus comandados assim:
- "Cada um fica livre para se entreter nesta cidade, como lhe aprouver, amanhã às X horas apresentar-se-á aqui, para seguirmos viagem".
Tal não aconteceu, porque o comandante do novo esquadrão, criado a partir do Batalhão 350, capitão Ferrand de Almeida, nem sequer aproveitou aquela pausa, para iniciar a formação do que, deveria ser um espírito de corpo de força militar.
Mesmo se usasse voz de comando firme, seria tranquilizadora, enquanto moralizava, mas todos foram conhecer a novel cidade, a segunda da Colónia.
O Onofre foi com um amigo, dando a volta sempre objectivando conhecer as mulheres, como qualquer militar na flor da vida que se prezasse.
Iam deambulando até que, a certa altura, entraram em conversa com duas garotas, uma de raça negra ambas lindas, porém duma cor acastanhada, não obstante não apresentar sintomas de qualquer cruzamento.
O duo andava em procura de maridos e julgando que estavam com militares que vinham estacionar ali, concluíram que se tinha feito luz nas suas vidas.
Desejavam veementemente ser levadas de táxi para a casa onde moravam ambas. Como já era noite, começou logo a ser consumado o "casamento", que durou até chegar a madrugada.
Despedias observadas, ambos os amigos pegaram um outro táxi, dando-se a entrada no quartel, onde era pressuposto algum tempo de dormida, que não se chegou a efectuar.
Na parada notava-se um movimento desusado, para essa hora tardia, demais num aquartelamento.
Observando o evento, chegado da casa onde pontuava o cabo rancheiro. Acontecia que o mesmo estando com gente oriunda de várias povoações localizadas próximo da terra da sua origem decidiu, já que dispunha de géneros alimentícios, festejar a vitória da Volta a Portugal em bicicleta do ano de 1962, protagonizada por seu irmão, o consagrado Joaquim Leão.
A origem de um dos dois companheiros era o mesmo concelho, pelo que ambos foram convidados para o petisco, pelo eufórico anfitrião.
Já só com o toque da alvorada foi dada por terminada a festa de confraternização.

Daniel Costa

sábado, 22 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

GUERRA E DIVERTIMENTO

Os dias de folga eram sempre passados alegremente, das mais diversas formas, mesmo numa cidade que só tinha uma sala de cinema a funcionar apenas um dia da semana que, era de festa e um café a trabalhar, para a tropa havia muito para entretenimento, até os dias em que se alinhava, em tarefas exteriores eram salutares, sobretudo nos fins de semana pois havia o próprio A.R.A. onde se efectuavam bailes.
Era dali que emanavam os desportos, como o Basquetebol e outros, de que aquele clube, mercê do recrutamento no Esquadrão, passou a vencer tudo em que entrava.
Além de muitos outros de grande qualidade, no 297 estava um dos grandes basquetebolistas do Benfica de Lisboa, cuja mobilização interrompeu a carreira. Ainda havia o Sporting Clube do Amboim, também a beneficiar de grandes jogadores sedeados no Esquadrão da cidade.
Estar de ronda, um sargento a comandar, coadjuvado por um cabo e um soldado raso, serviço de vinte e quatro horas, dava para correr a cidade e aldeias de "sanzalas" periféricas, parar aqui, além e por aí fora.
Em dias de cinema a ronda militar era-lhe também destinada. Assistia-se à exibição de filmes, sempre de pé nas laterais.
Vários outros acontecimentos lúdicos contavam com tipo de serviço, para tudo procurar controlar com a sua presença.
Piscina da cidade

Assim se podia ir reparando no facto de estes acontecimentos serem apenas destinados a brancos. Os pretos presentes, serviam apenas nos serviços inerentes.
Chegados a trinta de Abril, um pequeno grupo, onde se incluía o Onofre, foi em socorro de um Jeepão que, emanando do Esquadrão, fora de serviço a Quibala e no caminho voltara-se.
Depois de tudo resolvido, só já na manhã de um de Maio, se deu o regresso ao aquartelamento, com duas grandes lebres encandeadas com os faróis da viatura, a seguir caçadas com o rodado.
Na mesma noite, depois de cozinhadas em pitéu à moda africana, foram servidas em verdadeiro banquete aos apanhadores e amigos mais próximos.
A onze de Maio, uma brigada com a inclusão do Onofre, foi destacada para recolher areia, objectivando obras no aquartelamento. Passando na possessão de um agricultor branco, este ofereceu um agradável lanche a todo o pessoal.
Num serviço de ronda, que tinha saído por escala a integração do Onofre, foi apanhado um delinquente, em virtude de ter rapinado setecentos Angolares a um colega do Esquadrão. Como mandavam as regras, fez-se a entrega do rato ás autoridades de polícia local, sendo feita a recuperação. Estava-se a dois de Junho de 1963.
No Domingo seguinte, dia dez, veio à Gabela o Capelão, do comando geral em Novo Redondo, celebrar missa por alma do primeiro defunto registado no Esquadrão, morto em combate, cujo corpo ficara a jazer no cemitério militar de Muxaluando.
Voltou a registar-se uma jornada de grande consternação.
Em dezassete de Junho, assistiu-se a um jogo de futebol, num campo junto ao "muceque" do Aricanga entre a equipa local e a Cavalaria tendo ganho, obviamente, a tropa por 3 a 1.
A dezanove houve a visita do Comandante Militar do Sector, Brigadeiro Schult, ao Onofre coube integrar o núcleo de militares, que no pequeno aeroporto, guardava o avião que transportava a comitiva, pelo menos evitou o incómodo que é a presença, em formatura numa Guarda de Honra.
No âmbito das habituais festas da cidade da Gabela, houve uma oportunidade de poder assistir-se à exibição de um grupo folclórico, composto por nativos, que interpretaram modas portuguesas e angolanas, mostrando uma boa performance. Na sequência, além de muitas actividades lúdicas, assistiu-se a um encontro de basquete entre a Mocidade Portuguesa Feminina e a Masculina.
No dia sete de Julho, Onofre, foi convocado para integrar um grupo pertencente a um pelotão de nativos que, vindo do quartel de Nova Lisboa, estava presente no improvisado alojamento adido ao Esquadrão.
Só o alferes era branco, de modo que sendo de praxe ter a companhia, os serviços de um cabo com quem dialogar o que assim acontecia.
Saiu-se de madrugada numa missão denominada de psico-social. Estava muito frio, não obstante isto passar-se em África. O alferes já habituado, seguia agasalhado com uma manta, conselho que deixou.
Depois tudo correu bem, actuou-se na "libata" (quinta) do Nhuma a razoável distância da cidade, depois de hasteada a Bandeira Portuguesa, os dois brancos a faziam de enfermeiros e psicólogos, ministrando vários medicamentos e verificando que aí o português, era uma língua ainda não assimilada, o que já deixara de ser estranho.
Por fim os titulares da "Libata", sempre presentes, mandaram servir uma saborosa churrascada, verificando-se que os militares pretos, tropa de segunda, como constava da própria lei militar, tiveram de comer espalhados pelo soalho da sala.
No dia seguinte, Onofre foi chamado ao Capitão, o que nunca constituíra problema para o visado,
Mais uma vez, a convocatória trazia bons augúrios, foi dito:
- O nosso alferes gostou da tua companhia e pediu-me para seres sempre tu a ir com ele, pensei que não te importarias e dei o meu aval. Houve cordialidade, ainda que vinda de um Comandante formado na Cavalaria parecia elogiosa.
Mercado da Gabela

O Onofre por mais três vezes desempenhou com agrado aquelas funções, porque terminavam sempre com a inenarrável churrascada africana e jamais esqueceu a manta, para se agasalhar, nas frias madrugadas daqueles sítios.
No dia dezoito de Julho, o Onofre assistiu a uma sessão de cinema no Salão do "muceque" Aricanga, frequentado apenas por indígenas, onde os militares brancos, da classe de praças, passavam sempre alheios a qualquer tipo de descriminação. Foi exibido o célebre filme espanhol "A Rapariga das Violetas", com Sarita Montiel.
Chegava-se ao fim de Julho de 1963 e era voz corrente, ir formar-se um novo esquadrão a partir de todas as unidades do 350 e outro do 345, comandado pelo Tenente-Coronel António de Spínola, também no Sul, a que afinal tinha pertencido o grande 297, ainda no quartel de Estremoz.
Dos dois cabos especializados em metralhadoras pesadas, dizia-se que avançaria um, pelo que o Onofre, apesar de ser o mais antigo, como indicava o número, não duvidava que, a ser assim, por razões particulares de estratégia seria o designado para uma outra grande aventura.
A vinte e três, realmente, foi substituído no paiol, onde tinha entrado de serviço, por ter sido escolhido para o tal esquadrão eventual 350 destinado ao território da Lunda Norte.
Na altura o comandante do Esquadrão viera a saber que em todos os serviços ao paiol era recorrente haver quem se ausentasse.
Reuniu todos em formatura, os que ficavam seus comandados para os informar que, a partir daí, qualquer faltoso seria punido.
Sabendo como a comandante Alves Ribeiro actuava disciplinarmente:
- Quando avisava, esquecia todo o passado, daí para a frente era como "S. Vicente não perdoa a são nem a doente".
Ouvindo um cabo "tipo chico esperto" com tarimba cidade, ainda com pouco tempo de Esquadrão avisou-o, ao que respondeu:
- Não seria bem assim, o Capitão não podia ver tudo.
Ao mostrar tamanha insensatez, mesmo depois de aconselhado, acabou por ser o primeiro, quiçá o único, a ser punido com os respectivos dez dias de prisão, cujos efeitos em clima de guerra só se faziam notar, no acto de receber o pré, visto esses serem brancos para o efeito.

Daniel Costa


quinta-feira, 20 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

A MONTANHA E A CIDADE

Além da montanha por onde o comboio, Gabela - Porto Amboim fazia trajectória, outra de menor altitude bem visível da cidade ficou para Onofre como marca indelével da capital do Amboim.
Aquela montanha, juntamente com o cultivo do café, que marcava a grande riqueza da própria cidade da Gabela com muitos "arimbos" (quintas) em redor eram dignos de nota,
Um militar, se atento, não podia de deixar de admirar e até fixar para uma aprendizagem de futuro, tendo em conta não estar a fazer carreira no exército.
Contribuía também para essa riqueza a forma de alimentação da flora do café, Era feita por meio de folhas dentadas das muitas árvores que se encontravam plantadas entre os cafeeiros, estam caíam no chão e desagregavam azoto e outras substâncias que iam caindo até á raiz das plantas, alimentando-as.
A montanha que se avista da cidade da Gabela

Na altura a população do Amboim, que se estendia por uma área de 9.879 quilómetros era recenseada em 3.076 homens civilizados (leia-se brancos) e 92.176, não civilizados.
Dos não civilizados, alguns também possuíam os seus pequenos "arimbos", com plantações de cafeeiros cujo produto de inferior qualidade, era vendido aos vizinhos brancos.
A explicação para a inferioridade era a de, os respectivos agricultores não se esmerarem na manutenção do cultivo. O que a terra dava bastava-lhe para o sustento, pelo que após a venda gozavam o produto monetário, sem outra preocupação do que esperar nova colheita em safra, que apenas o ritmo do tempo haveria de trazer.
Não esquecendo, que o Esquadrão se regia, sobretudo pela actuação militar. Controlavam-se porém outras sagas, como a das Madrinhas de Guerra, em grande parte objectivando a sua "promoção, como então era voz corrente, podiam almejar ao namoro o que muitas vezes aconteceu.
O Onofre chegou a receber correspondência de dezassete. Por cada uma que deixada de escrever, o que estava constantemente a acontecer, era mister arranjar duas. Não obstante a Ana Zé, com a juventude dos seus dezasseis anos, com muitas cartas a trazerem alguma conversação sobre lições do liceu que, frequentava, eram de um sabor inebriante, ao serem lidas e relidas com toda a atenção.
A Rua principal da cidade da Gabela

O jogo de cartas acabara, definitivamente as amizades mais próximas, mercê de novo enquadramento mudaram. Porém os verdadeiros amigos nunca deixaram de o ser.
Foi assim que se verificou uma aproximação de pontos de vista do Onofre com o Soeiro, um cinéfilo nato. Ambos começaram a engendrar o coleccionismo de fotografias de artistas. Ao tempo um homem só se fazia a fotografias de artistas mulheres, por questões económicas, cada um dos consórcios escrevia a uma vedeta diferente, só depois de uma resposta conclusiva, o outro avançava com a solicitação.
As moradas eram extraídas, normalmente de uma publicação semanal em revista chamada PLATEIA, era muito acessível e tinha secção própria de moradas de agentes de artistas a actuar em espectáculos ou a editar discos, onde estavam sedeados os contactos.
Acrescenta-se, para indicar ter o mesmo periódico também secções para os mais variados pedidos, como de namoros, trocas de correspondência, grande parte se incluíam Madrinhas de Guerra.
Enfim, corriam outros tempos!...
Só a vinte e três de Abril, chegou a vez de Onofre entrar de cabo da guarda ao paiol situado obviamente, num descampado perto das traseiras do aquartelamento.
O serviço era efectuado por um grupo de três elementos, composto por outras tantas praças uma delas, cabo a comandar a força, que se revezava diariamente, um dos quais aproveitava a noite para a passar no "muceque" onde tinha a lavadeira namorada.
Nesse serviço e em todos coube ao Onofre a primazia, depois era norma este voltar de madrugada.
Mais tarde o estado de graça iria mudar como se verá.
Nessa altura já o Capitão Alves Ribeiro tinha reunido todas as praças em formatura, mostrando-lhe o seu apreço e ao mesmo tempo falar do tema mulheres.
Ao contrário do que podia estar nas mentes, o comandante só alertava para a possibilidade de haver desacatos, era evidente que em muitas "sanzalas", o dono da casa que nunca que era visto, ficava voluntária e temporariamente desalojado.
Na alocução ficou dito que, apesar de tudo se viesse a haver algum ferimento, ficaria muito desapontado se acontecesse a algum militar, cujo podia sempre contar com o seu empenhamento pessoal.
Como é evidente, todos se congratularam, porque foi frisada a pena de não poder distribuir uma pistola, para acompanhar sempre cada militar.
Onofre que, se fazia acompanhar invariavelmente de uma granada ofensiva, material de guerra que contra as regras, só viria a entregar no Grafanil, no fim da comissão, sem revelar o segredo concluiu que agia acertadamente.

Daniel Costa

quarta-feira, 19 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

GABELA - AMBOIM

Chegou o Dia de Páscoa, a catorze de Abril de 1963 e a escala de serviço, apontava a nomeação de Onofre para Cabo de Dia, o que dava como consequência o ficar a exercer um serviço interno ao Esquadrão, provocando a impossíbilidade de saída, facto que deferênciava bem o tipo de trabalho, em quartel de uma cidade, em que tudo podia ser programado, ao invés do exercido em pleno local de intervenção de guerra, onde a ordem podia ser alterada, pelos mais variados imprevistos, causados por alertas, que poderiam surgir a qualquer momento.
De qualqur modo, a estabilidade era uma nova evidência a que todo o pessoal se estava a adaptar, entre o exercício dos mais variados serviços e os dias de folga, em que se podia visitar a cidade, estar no único estabecimento de café existente, ir à sessáo semanal de cinema, ou a jogos de campenatos distritais disputados no A.R.A. - Associação Desportiva do Amboim, à piscina municipal e ao interessante Mercado Municipal.
Ao domingo, uma das opções, era a visita aos "muceques" que se situavam em redor da cidade, sobretudo ao do Aricanga, que dispunha de uma sala de cinema, destinada a autótenes, mas em que os militares, da classe de praças, não menosprezavam assistir à sessão domingueira.
Também se voltara a tornar usual ir dominicalmente à missa, na bonita Catedral da cidade.
Catedral da Gabela - saida da missa

A dezasseis de Abril Onofre, por escala, contituíu um grupo de serviço de patrulha, como sempre, composto por três elementos: Sargento, cabo e soldado raso, montados em Jeep, a tarefa era vigiar tida a cidade, em que se incluíu a Roça dominada por Covil do Perigoso, onde foi oferecido um lanche aos militares, com a inclusão de umas "cucas" fresquinhas que foram divinais, num dia que se apresentava tórido.
Das tropas estacionadas na Gabela, faziam parte núcleos militares, nas vilas de Quibala e Porto Amboim, daí que surgissem também viagens de serviço, normalmente transporte de informações, necessárias a todas as redes operacionais.dos exércitos.
Em vinte de Abril um Jeepão com pequeno grupo de militares, onde ia integrado  Onofre, foi incubido de se deslocar a um desses destacamentos, em Porto Amboim: A operação acabou por se gorar, devido a uma tempestade que passara pela zona, fragilizando ainda mais, uma velha ponte de madeira do caminho, que não aguentou a passagem da viatura.

Atribulada e gorada a viagem a Porto Amboim

A tropa, com o seu próprio esforço, conseguiu retirar o veículo. Mesmo assim a missão ainda seguiu em frente até ao grande colosso da C.A.D.A. onde se almoçou o inefável pacote de ração individual de reserva.
Depois o comandante, um sargento, devido ao dilúvio que por ali tinha passado, verificou nâo haver condições de prosseguir a viagem e optou pelo regresso à base.
Ficou contrariado o grande desejo aventureiro do Onofre, de lhe calhar em sorte uma missão à vila portuária de Porto Amboim, mas mesmo assim, detectou motivos de nota.
A determinada altura, estava-se como que sem orientação. Abordado um nativo, à pergunta:
- Porto Amboim, ainda fica longe?
- Fica sim!...
- Feita a mesma, ao contrário - Porto Amboim fica perto?
- Fica sim!...
A interpelação foi feita a outros transeuntes nativos, sempre com o mesmo resultado.
Ficou logo a certificação, que os indíginas a viver mais afastados dos centros dominados pelos colonos, só sabiam alguns monólogo da língua portuguesa.
Verificou-se o grande desenvolvimento agrícola, que realmente existia na povíncia do Cuanza Sul , pois grande parte do caminho estava bordejado de laranjeiras, que na circunstância e com a colaboração do condutor, a acção dos militares fazia juncar de laranjas o estrado da viatura, que depois transportou para o quartel, tudo executado em andamento.
Anotou-se posteriormente, que as missões seguintes, do Esquadrão áquela vila da beira mar, foram feitas no comboio do Amboim.
Ouvir descrever as peripecias de quem efectuava a viagem era, como que, ouvir um conto de aventuras.
Cabe descrever o elevado tempo gasto, para andar, naquele comboio, cerca de cento e vinte quilómetros de linha, ida e volta. Tinha de andar em volta de uma montanha, por onde passava, ainda próximo dos laranjais.
Dava o tempo necessário, apoveitado nas calmas, para encher o bornal de frutos daquelas árvores e depois de devidamente abastecidos, voltar a tomar o lugar na viatura do caminho de ferro.
Estava-se perante parte do folhetim da vida que se oferecia a quem estacionava em serviço militar na Gabela.
Isto e muito mais, fazia Onofre, oriundo de meios modestos, recordar o título e o conteúdo do livro de Camilo Castelo Branco
- "Riquezas do Pobre e Misérias do Rico"!...

Daniel Costa

segunda-feira, 17 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

A CIDADE DA GABELA

Tinha chegado a altura de todo o Batalhão 350 passar dois dias ao Grafanil, local de passagem para o Quanza Sul onde ia estacionar em serviço.
A mesmo tempo um prémio, pelo tempo em operação a Norte, onde se estava a desenvolver o terrorismo, uma das causas próximas a originar a Revolução de Abril de 1974.
Ainda a 7 de Abril de 1963, toda a gente, em formatura ouviu ordens e boas palavras do respectivo comandante, para gozar bem a breve estadia na cidade de Luanda.
No mesmo dia em que o Onofre, com a sua camaradagem, experimentou as delícias de um jantar num bom restaurante da cidade, a mesma que num exame de instrução primária, naquele tempo chamado de segundo grau, complacentemente, na oral o examinador fazia lembrar a certo examinando o nome da capital de Angola com o trocadilho - "terra onde a lua-anda".
No dia seguinte deu para verificar que o inóspito Grafanil de Janeiro de 1962, em que eram estreadas as primeiras casernas, em 1963 podia ser visto como uma grande cidadela.
Já não havia carros civis a parar a toda a hora, junto aos portões, prontos a transportar soldados disponíveis até à cidade, nem as camionetas militares a hora certa, para condução do pessoal que desejasse passar as horas de folga nas delícias da civilização.
Havia casas de banho em lugar de sentinas e ainda duas salas de cinema a funcionar diariamente. Como a exigência se avolumara, já se formavam carreiras regulares de "maxibombos" (autocarros), para a terra que os militares estavam a transformar numa novíssima "Somorra", bem enquadrada pelo Atlântico, naquela baía africana linda de morrer.
No dia seguinte ainda se dormiu em pleno Grafanil e como, ao fim e ao cabo, o que havia ali mais a fazer era gozar o máximo na capital portuária da África Ocidental Portuguesa, foi esse o estímulo que cada qual concedeu a si mesmo.
Na madrugada do dia nove, terminado o efémero idílio, o Esquadrão retomou a sua rota para o concelho do Amboim, com a capital sedeada na cidade da Gabela, onde estacionou o grosso, com o comando.
Para Onofre toda a novidade era aventura, estava a dar-se uma nova fase da mesma, para o que contribuía, todo aquele magnífico cenário africano.
Do Grafanil passou-se pelo Dondo, onde teve lugar o almoço, depois aproveitou-se para uma visita à famosa barragem de Cambambe, donde se seguiu viagem até Quibala, com a passagem da noite, em cima das caixas de camionetas civis, com algum frio, a parecer estranho em África, além da habituação em contraste adverso no norte.
Às quatro da manhã seguiu-se até ao destino, a cidade da Gabela.
Na entrada do que sendo uma cidade ainda nova, não deixou de se anotar, vir do uma chuvada, que obrigou toda a tropa a ter de esperar que secasse o trilho de terra batida, que provia o acesso à cidade. Para conseguir percorrer as poucas dezenas de metros que levavam ao primeiro edifício, o que viria a servir de quartel, enquanto a companhia a substituir se encontrava instalada noutro local, com o fim de transferir o material e missão naturalmente.
Edificio onde o Esquadrão ficou sedeado e parada militar

O contingente substituído novas experiências transmitiu, mesmo a nível de praças.
A grande e interessante surpresa, tinha a ver com as facilidades encontradas no relacionamento com mulheres.
Ainda estava longe de ser conhecida a revolução sexual, que já era factual por aquelas paragens.
Agora com a acomodação no edifício, que fora um antigo presídio colonial, cujos desterrados da metrópole motivaram, dizia-se, a fundação da Gabela, apontavam mesmo a origem de alguns comerciantes estabelecidos, o próprio Onofre tinha tido como companheiro de trabalho um ex-presidiário que parara naquele desterro.
Estava-se pois na capital do Amboim, na província do Cuanza Sul, uma das zonas agrícolas mais ricas de Angola. Além de muitos "arimbos" (fazendas), onde se cultivava uma das melhores variedades de café do mundo, integrava a grandiosa C.A.D.A. - Companhia Agrícola do Amboim, servida por comboio até à vila de Porto Amboim, na orla marítima, com o seu porto para escoar a grande produção verificada.
Após a definitiva instalação, os militares tudo jovens rapazes, evidentemente -"com eles nem o diabo quer relações" - começou a ser posto em prática tudo o que ali se tinha aprendido, extra obrigações militares.
Em breve, cada qual tinha a sua lavadeira num dos "muceques" (aldeias de sanzalas) periféricos e a consequente "cubata", onde passar a noite em comunhão idílica com a indígena que passara a tratar da sua roupa.
Tudo se iniciava assim:
- Queres ser a minha lavadeira?
- "Eu querer minino, mas só lavar roupa, pés não lavar, não ser dessas"!...
Era a deixa essencial, para a mulher se fazer conquistar, pois nessa mesma noite já a "cubata" estava à disposição para o “lava-pés”, uma maneira mais airosa de referenciar a acto sexual.
Assim quem não tinha o nome na ordem de serviço, podia ser encontrado a passar a noite numa das "palhotas" do bairro Sousa ou do Aricanga em agradável companhia feminina.

Daniel Costa

sexta-feira, 14 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

O MÍTICO MORRO DA PEDRE VERDE

No dia cinco de Abril do ano mil novecentos e sessenta e três, todo o Batalhão espalhado por várias Fazendas na região dos Dembos, a norte de Luanda, deixou essa zona de intervenção.
Depois de cumprido ali o tempo de guerra em zona operacional, iria instalar-se mais a sul, onde o serviço era destinado apenas a salvaguardar com a sua presença, a soberania portuguesa no território, enquanto se iria dedicar a uma acção psico-social mais calma.
A verdadeira aventura do Onofre começou logo nessa manhã, no corredor entre o Tari e o Mucondo, num sítio onde se evidenciava uma curva, ideal para os terroristas da UPA, planearem uma emboscada ao Esquadrão.
Aconteceu durante quarenta e nove minutos, estalaram inúmeros disparos, por parte das tropas atacadas em movimento.
Pela única vez o Esquadrão se viu envolvido num ataque de tal envergadura. A estrada tomara o aspecto de uma verdadeira batalha, o armamento disponível já não se usava, mesmo para o tipo de guerrilha a despontar. Era o proveniente da substituição, composto por Mausers e metralhadoras ligeiras.
Onofre, especialista em metralhadoras pesadas, do que sempre fora acompanhado, surpreendeu-se com a destreza evidenciada, primeiro com uma espingarda Mauser, depois a municiar uma metralhadora ligeira, já que o respectivo apontador, a trabalhar individualmente com aquela arma, por muito bom que fosse e provou-o. Funcionando como atirador e a carregar as balas, não podia extrair o rendimento devido.
A nova dupla acabou por funcionar bem pareciam ter treinado juntos a acção, já que o fogo a sair do cano da arma, passara a ser muito denso.
O ataque acabou por ser o mais longo que o conhecido usualmente, em que a técnica usada era o "bate e foge".
Aquele, porém foi muito vasto, era uma retaliação reservada ao 297, uma vez que o Esquadrão tinha sido considerado pelo inimigo, inacessível ao poder militar da força terrorista da região.
Ao avaliar os estragos, houve quem subisse de novo às camionetas e ainda visse fugitivos muito ao longe, a lei da balística contrariava as hipóteses de os atingir, não obstante ainda houve bastante tiroteio, á mistura com contundentes imprecações direccionadas aos "turras" em debandada.
Aconteceu uma verdadeira tragédia de guerra, que se irá contar sem truques de ficção, como é recorrente desta narrativa.
Começa pelo Comandante do Esquadrão, Capitão João Ramiro Alves Ribeiro, a subir à camioneta civil, principal acidentada, a que passava na zona mais nevrálgica atingida por uma granada incendiária. Transportava apenas sacos de campanha, espingardas Mauser e outros pertences de soldados. Tudo ardia e o então Capitão, homem alto, no meio daquela amálgama de fumo tomou a dianteira, trepou e atirou ao solo todo o material em combustão.
Onofre sempre atento a todos os pormenores, pôde testemunhar esse verdadeiro acto de bravura, deixando assim de ficar ignorado, como muitos nas últimas campanhas militares, que a juventude protagonizou em África durante cerca de treze anos.
Foi uma grande odisseia este cinco de Abril, porque se passava o dia mais marcante em más recordações, para todos os intervenientes do Grande Esquadrão.
Quando ainda não havia total conhecimento da dimensão da batalha, em relação à força militar, de outro lado, pode considerar-se actuação de bravura a do soldado Dimas, que com as muitas imprecações evidenciadas, a esvair-se em sangue dos membros inferiores, continuava a disparar, tiro a tiro, com a sua Mauser, em ritmo
Dimas (nome fitício) ficou sempre com
incapacidade num membro inferior

frenético no abre a culatra, fecha a culatra e dispara.
O Dimas já depois de passada a mobilização, ainda se encontrava em Lisboa, a receber tratamento no hospital militar, o que aconteceu durante muito tempo, acabando por ficar com um certo grau de invalidez.
No terreno, muitas observações podiam ser apontadas. O transporte era efectuado por viaturas alheias a serviços de guerra, em campanhas militares. Não obstante a Companhia de Transporte Militares Elefante, que também participava, com camionetas blindadas, ostentando o paquiderme como emblema, a torná-la muito conhecida nos meios.
Debaixo de um desses, um furriel pertencente, com o bronzeado de verdadeiro veterano, manejava a sua arma automática, com perícia, enquanto da testa lhe corria muito sangue. Onofre quase lhe rezara pela alma, felizmente não era caso disso.
Verificou-se que tinha sido atingido, mas só de raspão, o suficiente para sangrar e o deixar marcado por levíssimo ferimento sem consequências.
Um sargento falava para um gravador as suas impressões relativas ao momentoso acontecimento.
Perto, Onofre sempre acompanhado dos inseparáveis papéis e caneta, também tomava as suas notas, para quando possível adicionar ao seu Diário.
Com razoável rapidez chegaram meios aéreos, já desnecessários, mas não deixando de marcar presença com o despejo de alguma artilharia.
Chegou a altura de conferir, não só a devastação, mas tomar conhecimento de outros casos, como o espantoso do Alípio, atirador cuja formação profissional e dotes foram aproveitados para tarefas administrativas.
Por não ter chegado a pertencer à tropa de guerra, foi-lhe destinado lugar ao lado do motorista numa viatura civil. O condutor foi abatido, ao atirar-se para o chão.
Presume-se que o lado do Alipio também estava no ponto de mira, assim que abrisse a porta seria mais uma baixa mortal. Tal não aconteceu, o militar mostrando um coeficiente de inteligência muito elevado, saltou para o lado contrário, ainda que, por cima do cadáver.
No momento seguinte a outra porta da mesma viatura, que não se abrira, foi cravejada de balas!
Anotadas as respectivas baixas, cifravam-se em seis mortos, entre eles o condutor civil e doze feridos.
Reparadas as viaturas acidentadas pela violência, eram quatro horas da tarde, foi retomado o caminho.
O pessoal apenas havia ingerido um madrugador pequeno-almoço.
Uma viatura transportava os cadáveres, a sepultar na Fazenda Mucondo, os feridos já tinham sido evacuados, por helicóptero para o Hospital Militar de Luanda.
O dito " um mal nunca vem só" - nunca terá sido tão bem adaptado. Depois de tudo ordenado reiniciara-se a marcha, por ser época de tempestades tropicais, desatou a chover e ao contrário do habitual, a chuva durou até ao dia seguinte, o que causava enorme lentidão dos transportes.
A certa altura, chegou-se à ex-povoação do Quicunzo e houve necessidade de ser mudada a estratégia da progressão.
Em resultado, a viatura que transportava, os corpos dos falecidos a esmo, passou a formar uma coluna avançada, com escolta própria a que foi adicionada uma outra força, incluindo o próprio Onofre, que nessa noite de seis de Abril, ainda esteve em movimento, andando apenas alguns quilómetros,
Chegou-se á Fazenda Bombo, onde se esperou pela restante componente daquele movimento militar.
Onofre, mesmo sempre debaixo de chuva, talvez por estar esgotado das muitas emoções, dormiu profundamente a apanhar chuva na camioneta civil, em que viajava armado, no serviço de guarda aos cadáveres.
Soldados empurram a camonioneta, em dia chuvoso, com os sadáveres a granel

Chegada a coluna, que tomara a dianteira, à grande cantina da Fazenda, cessara a chuva e a vontade de ingerir alimentos, em virtude do jejum prolongado mesmo os produtos menos atraentes se esgotaram, pelos componentes daquele grupo avançado, que acabou por ignorar o conjunto de militares que o antecediam.
Com a melhoria, evidente das condições atmosféricas, após ser feita a junção das tropas naquela Fazenda.
Foram então os feridos evacuados e a coluna passou a seguir de novo unida até ao próximo acampamento militar do Mucondo, onde estacionara um outro esquadrão da mesma Cavalaria.
Já a sete de Abril os mortos, com a assistência militar disponível, ficaram ali sepultados.
De seguida, foi retomada a ida para o Grafanil, na periferia de Luanda.
Aquela viagem de tragédia, iria passar por estrada alcatroada, trabalho de engenharia militar, coisa que durante treze meses esteve vedada à maioria dos militares que compunham a coluna, como se estivessem a entrar no Éden terreal.
Rumando em estrada pavimentada, logo quase de inicio, deparou-se à esquerda o morro da Pedra Verde, agora pacificado e altaneiro, como um ícone dos alvores do terrorismo, retomado nos mesmos tempos, com foros de heroicidade e a mesma euforia verificada com a reocupação de Nambuangongo.
No mesmo dia, finalmente, por todo o Batalhão reinava uma certa a alegria pela breve passagem a terras de Luanda.
Ia dar-se começo a nova fase da grande aventura do Onofre.

Daniel Costa


quinta-feira, 13 de maio de 2010

AMOR NA GUERRA

JOGO NA GUERRA

O jogo da sueca, com imensa pena do Onofre passara a outro, o do "abafa", talvez por influência de novos elementos, das várias proveniências, que foram chegando ao Esquadrão.
Chegavam em substituições, normalmente na sequência de castigos, por ser zona de intervenção, a considerada de maior perigosidade.
O novo modelo de jogo tornava-se perigoso, por vezes em cima da banca podiam ser vistas boas somas de Angolares, era como brincar com o dinheiro.
Já não era para "intelectuais", como o Onofre, que se poderia considerar um bom jogador de sueca, visto memorizar as cartas saídas. Pelo menos com trunfos divididos, como se dizia, a dupla formada por ele e o Picão ganhavam sempre.
Outra coisa recorrente durante toda a Comissão, foi reparar-se os frigoríficos serem alimentados a petróleo. Uma torcida acesa provocava o funcionamento do motor, gerando o frio, tal como eram alimentados os candeeiros, a alumiar ainda as casas da maioria das aldeias metropolitanas.
Em zona de mato os indispensáveis serviços eléctricos eram da proveniência de potentes geradores.
Chegados a seis de Março, em mais uma acção levada a cabo por tropas do esquadrão de comando, houve a baixa de um Sargento, havendo ainda a assinalar o ferimento de um soldado.

Cemitério militar de Muxaluando, contruído em 1963 pela tropa do 350
Lápide homageando o Sagenti Kopejka (*) morto em combate, em seis de Março de Março ao serviço do Esquadrão de Comandos e Serviços do Batalhão 350, na Sinagoga du Rua Alexandre Herculaho, em Lisboa. Foi spultado em Muxaluando (foto: Alfredo Gomes Anciães)

Idas a Nambuangongo e à Fazenda Beira Baixa, em conjunto com outras continuavam.
Algumas vezes tendo-se como alimentação, as célebres caixas de ração de reserva, concebidas como uma refeição substancial, o que não se podia negar, por demasiadas vezes utilizadas eram detestadas.
Entre os mais variados serviços de escoltas, por todo o género de picadas, sobretudo dentro do capim, mais alto e a sobrepor a própria viatura,
Em dezanove de Março, mais uma a acompanhar camaradas de regresso, uma outra operação, em que não foi avistado qualquer elemento da insurreição.
Mais uma vez chegara o tempo das grandes tempestades tropicais muito visíveis, por se tornarem frequentes naquela zona Norte de Angola.
Entre os inúmeros casos cita-se o de um dia em que numa escolta a Muxaluando, Onofre e camaradas chegaram ao Tari pela noite dentro, denotando a falta de jantar.
Revelou-se a atenção do comandante Alves Ribeiro, vindo a acompanhar via rádio a penosa progressão da coluna, recebeu os comandados e assistiu ao jantar, mandando distribuir bagaceiras e cafés a todos os que viveram a odisseia.
A demora aconteceu mais porque, uma camioneta GMC, entretanto habitual para aguentar eventual impacto de minas, encabeçara a coluna e ao passar por uma subida bastante inclinada. Face ao terreno empapado, da chuva persistente dificultava extremamente a progressão.
A vinte e cinco ainda foi feita uma escolta de viaturas civis, pela esquadra da Breda e elementos e do respectivo pelotão a que pertencia o cabo Onofre, à Fazenda Mucondo.
A vinte e sete de Março eis que chegou, finalmente uma companhia a render o Esquadrão do Lifune Tari.
Como o dia se apresentava ainda chuvoso, por aquelas verdadeiras veredas, o serviço numa extensão a rondar os trinta quilómetros ou seja sessenta, ida e volta, demorou todo aquele dia.
Logo no seguinte começava de facto a tão almejada rendição com a entrega da metralhadora, montada em Jeep blindado.
A verificação do contador de quilómetros, deu que Onofre e colegas especialistas daquela unidade pesada, porque tinham tomado conta da viatura com zero quilómetros, pôde ver haverem percorrido naqueles terrenos dos Dembos cheios de irregularidades, cerca de oito mil quilómetros.
Até então apenas tinha pressentido três tiros, de Canhângulo.
A dissuasora arma era trocada por uma espingarda Mauser, para servir no que ia revelar-se na mais atribulada viagem, o regresso a Luanda com destino posterior a uma região livre de terrorismo.
Ainda no dia vinte de Março objectivando uma cerimónia do render, com certa dignidade, elementos do Esquadrão fizeram o acompanhamento da nova companhia a uma operação, de que resultou uma baixa rebelde e a apreensão da respectiva arma.
Já a quatro de Abril formou todo o Esquadrão, afim de proceder à formalidade militar de cumprir a praxe de prestar honra à Bandeira Pátria, descerrada de seguida.
No dia seguinte deixar-se-ia o Lifune Tari definitivamente.

(*) - Kopejka, vim a sabê-lo já em Lisboa, por um ex-colega de trabalho, ser filho único do célebre treinador do Sporting Clube de Portugal, Szabo.
Israelo-Húngaro, viera jogar no Clube de Futebol "Os Belenenses", devido ao nazismo.

Daniel Costa